quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
O NOSSO AMIGO NELSA D'IA.
Quando éramos crianças, em Ribeira Bote, brincávamos muito o "Hands up" ou mãos ao ar. Certo dia, com um sol a prometer ser escaldante, iniciamos a nossa brincadeira entre polícias e ladrões. Saímos em direção à ilha de madeira, a correr uns atrás dos outros.
As casas de lata, enfileiradas, davam muita ajuda para podermos ver a rua toda, de uma ponta à outra, facilitando assim, uma visão geral do nosso campo de batalha e dos nossos "inimigos".
Dividimos os grupos. Nelson, Didi, John de nha Terezinha, Renato e outros ficaram num grupo e eu, Sílvio, Jair, Ligim, Dicha e outros, ficamos noutro grupo.
O gupo do Nelson, foi esconder-se no meio das casas de tambor e enquanto nós, ficamos combinando uma estratégia. E de repente o Sílvio disse: -"Devemos tentar apanhar primeiro, os mais "moles". Certamente, já pensando no Nelsa d'ia.
Cada um de nós, saiu em direção à uma rua. Começamos a correr atrás dos nossos "inimigos" com gritos de guerra. E quando víamos um, gritávamos: - "Hands up".
Entre os mais moles estava o Nelsa d'ia, sem dúvida. Ele era o mais corpulento e logo, o mais fácil de encontrar.
Corremos atrás dele e logo nos primeiros minutos da nosssa brincadeira, gritámos:-"Hands up. Estás preso, Nelson". E ele suplicou-nos: -"Por favor "menis", bsot panhame mut cedo". Soltem-me para eu poder brincar mais um pouco. Va-lá".
É claro que nós não cedemos.
E ele, grande, como era, tivemos que ajuntarmo-nos nele, como formigas numa barata. Depois de o termos amarrado, levamo-lo para a rua 10 para exibi-lo. Amarramo-lo de costas num poste de eletricidade, mesmo em frente da casa de nha Maria de Lurdes.
Atamos as mãos e os pés dele. Depois de o termos bem amarrado, fomos para a ilha de madeira continuar a corrida atrás dos outros.
Passados algumas horas, tínhamos que terminar com a brincadeira, porque era hora de ir para a escola. Cada um foi para a sua casa, para arranjar-se.
Depois de almoçar e já no caminho para a escola, deparámos com o Nelson d'ia, ainda amarrado ao poste, já com a cara decaida e queimada pelo sol. Tínhamos esquecido dele amarrado ao poste. Ele também tinha que ir para a escola e estava muito atrasado e sem almoçar.
Ele viu-nos e gritou-nos:-"Ó meninos, por favor, libertem-me". E neste exato momento, apareceu o tio dele, vindo do trabalho que gritou: -"Nélson, o que estás a fazer amarrado à este poste? Para a casa, já!"
Ele não nos deu nem tempo de o libertar das cordas. Ele tirou o cinto, deu ao Nelson umas boas latadas a frente de todos nós.
Nelson não gritou. Só víamos as lágrimas rolarem cara abaixo. Sofriámos por dentro porque tudo aquilo, foi culpa nossa.
Esquecemos de desamarrar o nosso amigo, o primeiro preso. O tio, colocou-lhe a andar a frentre, enquanto ele, ia atrás com o cinto, batendo-o nas costas. Era uma cena dura de assistir. Lá fomos nós para a escola e o Nelson para casa.
Depois que saímos da escola, nós, os amigos do Nelsa d'ia, fomos visita-lo para ver como ele estava. Nas pernas, ainda podíamos ver as marcas do cinto mas, Nelson estava alegre como sempre. E Sílvio perguntou-lhe:-" Então "Patapouf", como estás?"
Este era o nome como nós, os amigos, o chamávamos.
Estávamos com medo da reação dele, pois, afinal, nós éramos os culpados da situação.
Ele viu para nós e disse: -"Seus "estapores". E depois ele soltou umas gargalhadas e abraçou-nos, batendo amigavelmente nas nossas cabeças. Ele tinha feito as pazes connosco.
Nelson estava vestido somente um "trusse", umas cuecas brancas de algodão, pois, ainda estava de castigo, imposto pelo tio, assim não saia de casa. Tínhamos que ir lá, todos os dias, brincar com ele.
Nelson, apesar de grandão em relação à nós, ele tinha um bom coração. Era sim, muito azarado, pois, todas as coisas erradas aconteciam sempre com ele.
Ele era a criança mais alegre e o melhor a fazer saltos acrobáticos, entre nós.
"Patapouf" é um grande companheiro.
(César Fortes - 02/08/2020)
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)



Sem comentários:
Enviar um comentário