sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

DE UM PUPILO PARA O SEU MESTRE. (- MOACYR RODRIGUES -)
Hoje gostaria de aqui prestar uma homenagem ao meu querido amigo escritor, conselheiro, professor, tutor. Foi meu professor de longa data. Com ele, aprendi a gostar da história de São Vicente. Fizemos juntos, "Memórias de Memória", um programa sobre a história de São Vicente, na Rádio Nova, por alguns anos." Ensinou-me muito sobre as festas juninas em Cabo Verde. Uma pessoa muito paciente e com vontade de ensinar, quem tinha paciência de aprender. Um homem crítico para que as coisas pudessem melhorar. Entrou na política para tentar melhorar muita coisa , mas saiu pouco tempo depois, porque como ele próprio dizia-me: "Na política está muita gente que está lá para não deixar as coisas irem para frente." Muitos escritores, artistas, etc...não são abertos para passar o testemunho aos mais jovens mas, ele era diferente. Telefonava-me de propósito, para ir ter com ele, para as nossas conversas de fim de tarde, que eram uma fonte de aprendizagem. Ficarão na memória, as nossas longas conversas na casa dele, que é um museu autêntico. Meu grande Mestre de Cultura, como teu pupilo, rendo-te aqui esta singela homenagem. Que Deus te receba em sua glória. Vá em paz!

CALÚ E O TESOURO NA PRAIA DE BOTE

Calú acordou, abriu os braços espreguiçando, enrolou a sua cama de papelão, colocou-o debaixo do braço e foi em direção á praia de cais d'alfandega.
Despiu as roupas desfarrapadas,entrou na água e começou a fazer a sua higiene pessoal. Saiu da água, com uma mão segurando a sua "ceroula" molhada, que insistia em cair para o chão e a outra mão, ele acenava freneticamente á um turista que estava num iate, que acabava de ancorar perto da praia. Ajudou o tripulante solitário a saltar na praia. E antes mesmo que o turista colocasse os pés em terra firme, Calú já estava com as mãos estendidas, pedindo: - Give me money, change, l'argent, please ...
O turista arranjou-lhe uns euros, algumas roupas e ainda deu-lhe restos de um pirú, que ele estava a comer no iate. Calú sentou-se na areia,comeu o seu pirú com batatas e lambeu os dedos. Vestiu as roupas largas e foi para a rua da praia, em direção ao pelourinho de peixe.
Perto do posto de combustível,ele encontrou o pescador Celestino, sentado num bote. - Ó senhor bocê ranjame 50$00 lá, por favor, pam bai comprá um pão. - Estende a mão, deixa-me colocar a moeda.
Calú inocente, estendeu a mão e o Celestino,com a sua mão grossa, marcada pelas linhas de pesca, deu-lhe uma palmada com tanta força que as lágrimas rolaram cara abaixo. Calú ainda com um nó na garganta, conseguiu pronunciar uma frase: - Bô tá busá na mim mode bô é mas grande. Mas um dia bô tá pagal. Calú prosseguiu a sua caminhada para o pelourinho. Entrou e foi direto para o balcão de nhá Selomé, pedir-lhe uma cavala. Saiu do pelourinho com a cavala numa mão, e com a outra mão, foi pedindo á todos os turistas que apareciam.
Calú começou a alegrar-se. O bolso já estava com uma certa quantia. Entrou no pelourinho de verdura e encostando nas prateleiras, lá ele ia subtraindo um tomate aqui, um coentro ali e umas batatas acolá. Mas quando ia pegar umas cenouras, eis que pareceu o guarda com um pau, levantado em direção às costas do Calú. Este, com uma mão segurando as calças largas e a outra mão com o saco com a cavala e as verduras roubadas, saiu a correr que nem um cavalo de corrida. Só parou quando chegou no prédio "desurido" ao lado do hotel Dom Paco. Entrou para a cave, onde ele já tinha o costume de fazer a sua "merenda". Tratou o peixe,preparou as verduras para fazer um bom caldo de peixe. O cheiro estava muito bom e atraiu mais outras crianças de rua e esses mais fortes do que ele. Assaltaram-lhe a panela de lata de leite,comeram quase tudo, deixando apenas a cabeça da cavala e um pouco de caldo. Ele não se desanimou, mesmo assim, comeu o que restou. A tardezinha, Calú foi para a Praça Nova e aproveitou para pedir mais umas moedas, para poder comer um hambúrguer no "Roland's", antes de dormir.
A noite caiu sobre a cidade do Mindelo e Calú precisava de um lugar para dormir. E como fazia todas as noites,ele foi mesmo ao lado do Hotel Porto Grande, em baixo da montra da loja "Senna Sport", colocou o seu papelão e dormiu. De madrugada,outros "piratinhas" que o tinham visto a pedir dinheiro, foram tentar roubar-lhe. Todos sabiam da fraqueza do Calú, ele falava muito durante o sono. Aproveitaram e perguntaram-lhe: - Calú! Onde colocaste o dinheiro que arrecadaste hoje? Inocente, o coitado respondeu: - M'tel num bolsa dentro da minha cueca. E os desgraçados levaram tudo o que ele tinha conseguido naquele dia. No dia seguinte, vieram gozar com ele, contando como o tinham roubado o dinheiro. Riram-se a vontade, às custas do Calú. Calú saiu de perto deles,de cabis baixo mas, prometeu vingar-se deles. Naquele dia, começou a pedir dinheiro mais cedo. Tinha atracado no Porto Grande, o navio cruzeiro inglês "Queen Elizabeth II". As ruas da cidade, estavam cheias de turistas ingleses.
Quando o sol começou a pôr-se atrás do Monte Cara, o "Queen Elizabeth II" zarpou em direção às Canárias. Calú voltou do cais, passou pela Avenida Marginal e foi para o seu lugar de dormir. Mas antes passou na casa de uma amiga e pediu que lhe guardasse aquela boa quantia de euros arrecadados. Calú foi no seu lugarzinho de costume, estendeu o seu papelão e começou a fingir dormir, pois, ele sabia que os piratinhas viriam outra vez rouba-lo. Desta vez, ele estava preparado. Com um olho fechado e outro aberto a espreitar, ele os viu a surgir, lá pelos lados do prédio da Cvtelecom. Chegaram, pensando que Calú estava a dormir, perguntaram-lhe: - Calú! Onde foi que guardaste o dinheiro que arranjaste hoje? E Calú,fingindo que estava a dormir, respondeu: - Enterrei todo o meu dinheiro, na areia, debaixo dum bote azul, na Praia de Bote. Deixaram o Calú sossegado e saíram a correr para a Praia de Bote para ver quem iria encontrar o "tesouro" em primeiro lugar. Só não sabiam que, naquela praia existia mais de 10 botes e quase todos são azuis. Coitados! Passaram a madrugada toda a escavar debaixo dos botes emborcados na Praia de Bote e nada encontraram. O Calú os tinha enganado. No dia seguinte,chegaram na Praça Nova, já sem energia e com os dedos esfolados de tanto escavar e sem sucesso. Calú, viu-os já sem energia mas não perdeu a oportunidade de gozar com eles. Riu até cair no chão de tanto prazer que a vingança lhe deu. Desde aquele dia, nunca mais meteram-se com o Calú. Aprenderam uma grande lição. Literalmente, quem ri por fim, ri melhor. (César Fortes - 21/12/2020 - Baseado numa história real)

Sou grato pelos meus amigos

Hoje vou viajar no autocarro da Amizade. Iniciei a viagem da Amizade em Fonte Inês. Zona calma de gente com alma. Quem entrou nesta paragem? Entraram todos os meus amigos, desde da ponta de nhá Mari'Liandra até a rua de Lis Toia. O autocarro continuou até chegar na paragem em Ribeira Bote. Zona libertada e de gente educada. Quem entrou nesta paragem? Entraram todos os meus amigos, desde a Ponta de Fi até Alto de Sentina. O autocarro continuou até chegar a paragem em Ribeira de Craquinha. Zona admirável e de gente amável. Quem entrou nesta paragem? Entraram todos os meus amigos, desde a rua de Nhá Mari'Cesarina até a ponta de nhá Du. O autocarro continuou até chegar a paragem em Vila Nova. Zona dinâmica e de gente simpática. Quem entrou nesta paragem? Entraram todos os meus amigos, desde de Nhô Pade até ponta de Jon Boi. O autocarro continuou até chegar a paragem em Portugal. Terra acolhedora e de gente batalhadora. Quem entrou nesta paragem? Entraram todos os meus amigos, desde a Foz do Douro até ponta de Sagres. O autocarro continuou até chegar a paragem em Bela Vista. Zona promissora e de gente sonhadora. Quem entrou nesta paragem? Entraram todos os meus amigos, desde nhá Pulim até "Debaixo de Pé de mote". O autocarro continuou até chegar a paragem em Porto Novo. Terra quente e de gente decente. Quem entrou nesta paragem? Entraram todos os meus amigos, desde de Armazém até a Ribeira das Patas. O autocarro continuou até chegar a paragem em Monte Sossego. Zona honrada e de gente determinada. Quem entrou nesta paragem? Entraram todos os meus amigos, desde Cova até a Avenida da Holanda. Neste autocarro da Amizade,muitos já desceram, mas muito mais têm entrado nesta viagem. E tu, em que paragem entraste no meu autocarro? (César Fortes - 24/11/2020) #sergrato

A VIAGEM DA NOSSA FAMÍLIA

Sou grato ... Pela viagem da minha vida, Sou grato por Deus ter-me criado espiritualmente e de eu ter a oportunidade de embarcar no navio da vida. Pelos meus pais, Maria e Elías, terem-me dado a oportunidade de vir á terra, pertencer á uma família pobre de matéria, mas rico de amor.
O mar desta nossa família, nem sempre foi calmo. Tivemos algumas tormentas, mas a capitã Maria, sempre conseguiu levar o barco ⛵ á um bom porto. Quando vim á terra e entrei neste barco "Família", a capitã Maria, já tinha vários marinheiros: António, Alcindo, Autelindo, Joselito,Zenaida e Vanda. Os dois mais velhos tiveram que cedo emigrar para a Europa, onde a vida era promissora. O barco da nossa família ficou sem combustível, várias vezes, mas sempre a Maria estava lá, para resolver.
Várias vezes, no sufoco do alto mar, António e Alcindo mandavam algum recurso da Europa, que nos ia safando das tormentas da vida. Sou muito grato por esses dois grandes irmãos que não nos deixaram afundar.
Nós os mais novos, fomos crescendo, ao sabor do mar, dia bom, dia mau. As vezes era canja de atum e outras vezes, era arroz com cavala. Mas muitas vezes, foi mesmo o "bife de caneca"que não nos deixou afundar nas profundezas do nosso mar. Fomos estudando, para que no futuro, pudéssemos fugir das tormentas da vida.
Os anos foram passando e o barco parecia ficar pequeno para todos. E o marinheiro Autelindo, teve que abandonar o barco e com o vento de Sotavento,partiu para Praia á procura de uma vida melhor. Chegando na Praia, começou a trabalhar e lá foi enviando algum apoio para que pudéssemos nos sustentar dentro do barco. Foi ele que enviou a primeira mochila que eu e a Vanda levamos para o liceu. Sou muito grato pelo marinheiro Autelindo pela ajuda que ele deu, no meu crescimento como marinheiro da vida. As nossas tias e os primos mais próximos, lá iam ajudando com as fardas e as botas, para que pudéssemos estar, sempre bem trajados a bordo. Sou muito grato por eles.
O marinheiro Joselito foi-nos ensinando e talhando a nossa vida, de modo a preparar-nos para a vida pós Maria. Passou pouco tempo, e ele apanhou o seu bote e zarpou, mas sempre por perto. Sou grato por tudo o que o meu irmão Joselito, nos ensinou durante o nosso crescimento. Anos mais tarde, chegou a vez da marinheira Zenaida ter que abandonar o nosso barco e zarpar, sozinha, para Portugal, a procura de mais e melhores recursos.
Sou grato pela minha irmã Zenaida, por tudo o que ela fez na minha vida, como irmã protetora. A medida que os anos iam passando, o barco foi navegando, com menos marinheiros.
Eu e a Vanda fomos ficando e aprendendo, um com o outro, até quando ela arranjou o seu bote e zarpou. Sou grato por tudo o que aprendi com ela, como irmã, sempre presente.
O tempo passou, meu pai faleceu e a minha mãe, a capitã Maria, tomou conta do barco, sozinha. Depois de ter cumprido a sua missão aqui na terra, que foi de nos criar e fazer-nos homens e mulheres, cansada e já com uma idade avançada, levou o barco "Família" ao seu último porto e foi descansar eternamente. Sou eternamente grato aos meus pais, Maria e Elías, por tudo o que fizeram por nós, nesta vida e que nos marcará para a eternidade, onde certamente, nós voltaremos a nos encontrar. Sou grato pela viagem, pelo dom da vida. #sergrato (César Fortes 23/11/2020)

A HISTÓRIA DO TRANSPORTE "IRMÃOS DIAS" DE JOÃO AFONSO.

A história do transporte “Irmãos Dias” é muito interessante. A Sra Maria e o Sr. Alexandre Dias tiveram os seus filhos e filhas em tempos difíceis mas nunca deixaram de ensina-los os bons princípios de honestidade e trabalho. Desde cedo, aprenderam que deveriam lutar pela vida. E foi o que eles fizeram. O vale de João Afonso, tinha uma estrada até a zona de Manuel Ribeiro, desde 1974, vinda do lado da zona do Figueiral. Segundo os moradores, desde 1995, têm ouvido várias promessas, de que um dia, uma nova estrada de Manuel Ribeiro até as localidades de Fajã dos Cumes e Fajã dos Bois, será uma realidade. Esses irmãos, ainda muito jovens, viam os carros chegarem à João Afonso e pensavam: - Um dia teremos um carro também, e vamos levá-lo até lá em cima em Fajã dos Bois.
Em 1997, começaram comprando um Peugeot 504 e mais tarde, querendo arranjar um carro novo, um dos filhos, o Adriano Dias, foi aconselhar-se com o seu pai, o Sr. Alexandre Dias. Ele estava ansioso para entrar num negócio, para adquirir um novo carro, mas estava ao mesmo tempo, com medo de se endividar. O pai segurou-lhe as mãos e o motivou dizendo-lhe: -"Meu filho, nunca deves sentir medo de um boi, sem pega-lo no chifre". Como quem diz: Meu filho, não tenhas medo de enfrentar os problemas, sem os encarar de frente. E assim fizeram. Lançaram-se no negócio, compraram um Toyota novo e deram o nome de “Irmãos Dias” em homenagem à família Dias. E o pai disse-lhes que deveriam homenagear o nome da “Família Dias” em todos os seus carros para sempre. E assim foi. Meteram-se com fé na vida como condutores e á base de muito trabalho, as coisas têm corrido bem.
Recentemente, a Câmara Municipal de Ribeira Grande lançou uma primeira pedra para a estrada nova. A população e os irmãos Dias, estão ansiosos, se será desta que vão ter uma estrada nova, e concretizar o sonho de criança, de fazer os seus carros chegarem um dia, mais perto de Fajã dos Bois e Fajã dos Cumes.
É um sonho que anseiam há muitos anos, para poderem desencravar aquelas localidades e não só. Embora o pai já tenha morrido há muitos anos, estes filhos, continuam sempre seguindo o conselho do pai, que carregam para a vida inteira com eles, para qualquer lugar onde vão. E hoje, aconselham os outros também, a enfrentarem os seus problemas com esta linda frase: “Não tenham medo de um boi, sem pega-lo no chifre”.
(César Fortes 3/11/2020) *(Esta foi a última parte das histórias de João Afonso. Foi um prazer visitar e escrever sobre este lindo vale).

O FAMOSO CAFÉ DE JOÃO AFONSO.

Nós continuamos a nossa visita em João Afonso. Desta vez vamos falar do café de João Afonso, que em tempos tinha muita fama e era comercializado em quase todas as ilhas do país. Quisemos saber de onde veio a fama deste café. Subimos até “Chã de Ledri” e encontramos o Sr. Djensa que nos contou a história do café de João Afonso, que em tempos, era mais famoso e em maior quantidade do que o café de Paul. Encontramos ainda, na mesma zona, um ancião, de 89 anos de idade, conhecido por “Ti Faia”, sentado a soleira da sua porta, juntamente com a sua esposa, Sra. Dedé.
Ele contou-nos como o café de João Afonso, tinha muita fama, antigamente. Ainda podemos encontrar vários pés de café plantados há mais de 100 anos, numa grande propriedade da família Cohen e Gama. Mais tarde, fomos ter com o Sr. Severino Lima, que completou-nos a história do café de Fajã dos Bois, dizendo que, antigamente, o Sr. Adrião Gama, descendente de portugueses, era o proprietário da terra do café e que mais tarde, Benjamin Cohen, descendente de judeus, casado com uma filha do Sr. Adrião Gama, viria a tomar conta das plantações de café. Fomos visitar a zona de Ladri, o local onde secavam o café. Também lá, pode-se encontrar ainda, as paredes em ruínas, da casa de nhô Benjamin Cohen.
Há mais de 79 anos, havia uma máquina para desfarelar o café, que arrancava à manivela. A máquina era temperada com chaves, tinha quatro pés, um caldeirão e um funil para ser ensaiado. Tinha café a vontade na zona. Eram precisos quatro homens para trabalhar na máquina. Antigamente, quando se chegava na zona de Fred, tinha sempre muitas plantações de laranjeiras e cafeeiros. Era tanto café que levavam dois meses fazendo a colheita.
Para trabalhar na colheita, nas plantações do Sr. Benjamim Cohen, vinha gente até do vale da Garça. O café era transportado em sacos, e levado por burros para a Vila de Ponta do Sol e através de botes, era transportado para São Vicente, e de lá era exportado para Lisboa.
Quem teve a oportunidade de experimentar o café de João Afonso, diz que tem um sabor e uma característica diferente dos demais. O sol se pôs atrás das rochas. A noite caiu sobre João Afonso. Voltamos para a casa da Sra. Conha. Era hora de um pequeno lanche antes do Jantar. O cheiro intenso do café estava no ar. Era impossível não senti-lo. Enquanto a família bebia o seu famoso café, eu bebia o meu chá de Lúcia Lima que é o meu chá predilecto e que também é um ex-líbris da zona. João Afonso é sem dúvidas, um recanto de muitas preciosidades.

HISTÓRIA DA ÁGUA ALCALINA DE JOÃO AFONSO, EM S. ANTÃO.

Adriano Dias, um filho da terra, falou-me tão bem da água alcalina de João Afonso que fiquei muito curioso sobre o assunto, que resolvi fazer uma breve visita ao local da nascente e relatar o máximo de informações, para sabermos mais sobre a água alcalina de João Afonso. Água Alcalina é uma água que possui um pH entre 7,5 ; 8 e 10. Muitos especialistas internacionais, garantem que a água alcalina é muito melhor para a saúde do que outros tipos de água. Pesquisas dizem que atua como “fator de desaceleração do envelhecimento”. Com muita motivação, lá fomos conversar com gente que conhece muito bem a história desta famosa água alcalina. Passamos na zona de Fred, onde encontramos o casal de idosos, o Sr. Veríssimo com 82 anos e a Sra. Vicência com 80 anos, que viriam contar-nos a história da água alcalina de João Afonso. O Sr. Veríssimo informou-nos que nhô Lela Lopes comprou o direito à água na zona onde tem a nascente da água alcalina, antes da independência.
A água nasce num cantinho perto de uma figueira, na “Ribeira de Dente”. A água sai a ferver da rocha. Há uma curiosidade interessante, contada por moradores da zona, que dizem que normalmente, nos arredores onde existe a água alcalina, não cresce pragas como "mil-pés" e outros. Existe alguma energia que os afasta. Pensamos que deve ser do nível do pH da água. A água era enchida em garrafões, e transportada na cabeça até Boca de João Afonso. Depois, ela era transportada para a zona de Santa Bárbara, que fica mesmo debaixo de Penha de França, para ser engarrafada em recipientes de 33 cl, com um rótulo com a seguinte inscrição: "Água Alcalina, João Afonso, Ribeira de Dente". Tinha muita gente que trabalhava lá, fazendo o engarrafamento. Depois de engarrafada, era levada para São Vicente e exportada para Portugal. A água alcalina, também, era dada para as crianças para abrirem o apetite.
A água alcalina de João Afonso, tem o mesmo gosto que a água engarrafada "Pedras" que vem de Portugal. Mais tarde, com a morte do Sr. Lela Lopes, o filho, o Dr. Aníbal, tomou conta do lugar por algum tempo, mas depois, o projecto da água foi abandonado, não se sabe o porquê. O Sr. Veríssimo Aniceto, de 82 anos, nasceu e cresceu no vale de João Afonso, na zona de Fred, trabalhou na nascente, na recolha da água alcalina, nos anos 70. Disse-nos que às vezes, a água sai com força mas, tem dias, que é fraca. Nós aproveitamos para encher um garrafão de 5 litros directamente da nascente, para experimentar a água. Uma água com bom sabor e com gás natural.
Na mesma ribeira, existe uma outra nascente de água férrea. Quando a água sai, nas rochas fica um material chamado oca, que antigamente era aproveitado para pintar as casas. Dizem os mais antigos da zona, que onde nasce este tipo de água, normalmente, são zonas de encosta de vulcões e que possivelmente, as altas montanhas de João Afonso, podem pertencer à uma parede de algum vulcão extinto ou não, na ilha. A água é pesada e nasce numa zona plana. Pode-se mistura-la com a água alcalina e só assim é que dá para beber. Hoje a nascente é abandonada, porque ninguém preservou as nascentes. Depois da longa conversa, continuamos a nossa caminhada e chegamos à Fajã do Bois. Passamos por “Fundo de Davi” e “Travessado de Petuninha”. Já na Bordeira, encontramos o Sr. Henrique de Guida que, embora tenha graves problemas de audição, estabeleceu um bom diálogo connosco e tratou-nos com muita simpatia e com um lindo sorriso nos lábios.
Fiquei a saber que a água alcalina tem pelo menos 12 benefícios para a nossa saúde. 1. Protege os ossos 2. Protege as artérias, prevenindo doenças cardiovasculares 3. Combate o envelhecimento precoce 4. Previne doenças 5. Hidrata mais 6. Melhora a disposição 7. Ajuda na manutenção do peso 8. Melhora a capacidade cognitiva 9. Longevidade 11. Atua beneficiando o sistema digestivo 12. Combate a retenção de líquidos.
Só não dá para compreender porquê importamos água alcalina, se nós temos esta água aqui em Cabo Verde. Alguém precisa dar continuidade ao trabalho que um dia o Sr. Lela Lopes iniciou. Se algum dia visitar João Afonso, não deixe de experimentar a água alcalina. Amanhã continuaremos, mas desta feita, com a história do famoso café de João Afonso. (César Fortes 24/10/2020)

João Afonso, um paraíso em Santo Antão.

Recentemente, encontrei o meu amigo Adriano Dias, da zona de João Afonso, que me fez um convite para conhecer a zona dele. Confesso que “Jon Fonso” era uma zona que eu tinha vontade de conhecer. A minha irmã Vanda, já tinha o costume de lá ir, quando éramos crianças e contava-me muitas histórias da zona. Como conhecedora da zona, resolvi levá-la comigo. Marcamos um dia e lá fomos nós, em mais uma aventura. Encontramos como combinado, às 6h30 no cais de São Vicente. Entramos no navio Chiquinho e lá fomos nós em mais uma aventura para desbravar a ilha de São Antão. Chegamos no cais de Porto Novo exactamente as 8h. O Hiace de João Afonso, "transporte Silva" já estava a nossa espera com o condutor Stivi. Santo Antão choveu muito e agora, durante a viagem, vemos um manto verde que se estende em todas as montanhas que passamos.
Depois de quase uma hora, chegamos na "Boca de João Afonso". O cheiro de fumo de lenha relembra-nos que estamos em Santo Antão, uma das ilhas mais lindas de Cabo Verde. A zona de João Afonso tem praticamente, duas entradas, uma que passa por "Boca de Jon Fonso" e outra que vem de "Figueiral de Ribeira Grande".
Começamos a subir na estrada, que era um caminho antigo, feito antes da independência. Do nosso lado esquerdo de quem sobe, vimos as ruínas da antiga escola. No nosso lado direito, deparamos com uma pequena e bem cuidada capela de Santo André. Descemos do Hiace e fizemos a nossa primeira paragem, na zona de Manuel Ribeiro, na casa de Sra. Gracinda e do Sr. Cula. Fomos convidados a beber uma água fresca. Foi-nos servido também, com muita amabilidade, uma boa cachupa guisada com chouriço da terra. E para não perder tempo, retomamos a estrada que seria percorrida, agora, a pé. A subida para “Fajã dos Bois” demoraria cerca de uma hora.
Adriano segurou a bolsa das encomendas e nós, com as mochilas nas costas, começamos a subir. O cheiro da palha de cana queimada, por momentos, me transporta para a minha infância. O céu estava coberto de nuvens o que prometia uma boa chuva de verão. João Afonso é um vale que abarca mais de 20 pequenas localidades e cada uma com a sua história. Passamos em “Pedra de Rala” e em baixo da mercearia "Ped de Lulu" encontramos várias pessoas que nos desejaram "umas boas passadas", um prenúncio que a caminhada seria longa. Subimos mais uns minutos, já perto da casa do antigo e famoso professor, sr. Elías e de dona Titina, encontramos um jovem descendo, o Américo, um dos 21 filhos do Sr. "Jon de Felício", já falecido, mas famoso na zona, por ter tido muitos filhos.
O caminho feito de calçada e com as plantas crescendo entre as pedras, com um chuvisco, começava a ficar escorregadio. Já na zona de “Chã de Coelho”, encontramos a sra. Maria, uma idosa muito simpática, com a sua bengala de um galho de árvore, aproveitou para perguntar ao Adriano quem éramos nós e o que estávamos a fazer alí. Dada a explicação, ela também, com muita simpatia, desejou-nos "umas boas passadas". Compreendi mais uma vez, que a caminhada seria mesmo longa. Passamos em "Lumbim de Antónia Emília" onde vimos várias bananeiras, carregadas de bananas. Na zona de Gonçalinho, vimos a antiga casa das professoras que organizaram o primeiro carnaval da zona, com um desfile de Gonçalinho para Manuel Ribeiro.
Já cansados de tanto subir e transpirados, chegámos à "Cavouco de Gonçalinho" onde no caminho encontramos um pé de figo manso, carregado de frutos e com um aroma especial. No lado esquerdo do caminho, lá em cima de um cume, deparamos com uma linda casa cor-de-rosa, com uma arquitectura do tempo colonial, que em tempos pertencia ao Sr. Pedro Maurício. Ele era o pai do Sr. Rufino Maurício; avô do engenheiro Jorge Santos; e também tio do já falecido Armindo Maurício. No caminho observámos o milheiral caído no chão por causa do vendaval que passou no vale, na noite anterior. E alguns deles, com a marca da praga da lagarta de cartucho que está a devorar a plantação. Depois de muito subir, chegamos na antiga escola de Gonçalinho, logo ao lado de uma unidade sanitária de base. Adriano Dias, contou-nos com saudade, que foi lá na Escola de Gonçalinho onde ele fez a 4ª classe, em 4 Julho de 1978. Encontramos o sr. Lela de Chica "gatim", um homem de 70 anos, simpático e conversador. Ele deu-nos conta do estrago que o vento tinha feito em todo o vale de "Jon Fonso". E no fim da conversa, acrescentou: "Nós não temos nôs meme quanto mais..." Como que querendo dizer, que nós não temos o controle da nossa vida, quanto mais para controlar a natureza. Continuamos a nossa caminhada e mais acima, encontramos a senhora Bernarda com o seu “campim de gás” na cabeça, descendo para a mercearia em Chã de Coelho. Lamentando, contou-nos a situação do marido que estava no hospital. Em “Chã de Marí de Tchinha” encontramos uma linda rua com as casas caiadas de branco, dignas de um cartão postal. Um local onde em tempos, quando as pessoas chegavam cansadas, bebiam uma caneca de água fresca de pote. E foi o que fizemos ao parar na casa de uma amiga de longa data, a Sí de nhá Fana. Ela ofereceu-nos algumas mangas saborosas. Passamos na Cruz e chegamos na subida de “Fundo de Cassaca”. No meio das canas vimos várias casas grandes, entre elas, a de nhá Titina e nhô Conde. No largo, pode-se ver um grande trapiche. Parece que na zona, em tempos, vivia-se uma vida folgada. Ainda no caminho, encontramos o António de Tarek, mais um dos 21 filhos do famoso Jon de Felício.
Continuamos a subida e chegando na zona de "Berré de Vei", pudemos contemplar um lindo e viçoso canavial. Passando nos “Coibe” encontramos um burro, descendo com a sua carga e de vez em quando parava para comer uma grama verde, que agora, depois das chuvas, cresce no caminho. Há notícias que, um filho ilustre desta terra, lutou pelos Estados Unidos, durante a segunda guerra mundial, trata-se do sr. José Pedro. Na terra, ele ficou muito famoso por isso. Em “Ribeira de Nonarda”, encontrámos um grande dique de retenção de água das rochas, onde também cresce várias bananeiras. Todo o caminho percorrido, parece um paraíso. Todo verdinho. Já cansados e com as roupas molhadas de tanto transpirar, chegamos à “Tchã de Matchode” na bela casa do Sr. José Évora. Mais uma linda casa do estilo colonial. Com um lindo jardim à volta e com um milheiral a perder de vista. Uma casa que mais parece a casa dos antigos morgados. De lá, pudemos ver a Ribeira onde nasce a água alcalina, que em tempos era engarrafada e exportada. Esta água é a razão da nossa visita ao vale. Também ficamos a saber que na mesma Ribeira nasce uma água férrea. No "Terririm de passim",ainda encontramos uma neta de Jon de Felício, o famoso que teve 21 filhos. Passamos no lugar chamado de “Queda do Leandro”, onde conta-se, que há muitos anos atrás, caiu um senhor, de nome Leandro e que morreu na hora, daí o nome. Lá em baixo, vemos um caminho que vai para Fajã dos Cumes, que foi refeita por meio de emigrantes e amigos da zona. De tanto andar, encontramos uma casa que segundo os moradores, é a casa de nhá Pulim de Gama e Chica Angelina, onde nasceu nha Aninha, avó do Rui Alberto, o famoso treinador do Mindelense. Já na localidade de “Jon dos Reis”, em Fajã dos Bois, com uma chuva forte, a mãe do Adriano Dias, a Sra. Maria dos Santos, “Conha”, de 83 anos, veio nos receber com muita amabilidade, e com um guarda-chuva, levou-nos para dentro de casa. Tomamos um banho relaxante e enquanto isso, ela preparou-nos um delicioso jantar. Enquanto comíamos o guisado de galinha, criada no quintal, falávamos do apogeu do vale de João Afonso nos anos 70 e 80 e como se transformou num paraíso agora, depois das chuvas. Os pardais, por momentos, entravam dentro de casa, como se da família fossem. Tivemos uma boa noite de descanso.
A Sra. Maria dos Santos “Conha”, o filho Zeferino e a neta Sofia, trataram-nos tão bem, que no dia seguinte, na hora da despedida, a saudade bateu forte. No pequeno-almoço, ela preparou-nos uma boa cachupa guisada, com “frisnode” e queijo de cabra, acompanhado de um chá de "Lucia Lima" colhido no quintal da Sra. Conha. Para mim, não existe chá mais saboroso do que este. Comemos e partimos de imediato. Agora faríamos o caminho inverso, descendo todo o vale de João Afonso, para podermos apanhar o Hiace de volta para Porto Novo. Foi nesta hora que concordamos com a população, que uma estrada de Manuel Ribeiro até “Fajã dos Bois” e “Fajã dos Cumes” já é uma necessidade. Também não podemos desperdiçar uma nascente de água alcalina tão boa como aquela de Ribeira de Dente, para depois comprar água das Pedras importada de Portugal. Já no carro, voltei a cara para as montanhas verdes e pensei: - Este é, sem dúvidas, um dos vales mais bonitos de Cabo Verde e que vale a pena ser visitado. Quem não conhece o paraíso que é João Afonso, não conhece Santo Antão. (César Fortes 24/10/2020)