quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Kévin, o piratinha.
Kévin levantou bem cedo, lavou a cara numa tina de esmalte que era da sua avó. A água estava fria e ele ficou logo desperto. Bebeu uma caneca de café bem quente, vestiu a sua calça esfarrapada, colocou a camisola nos ombros e saiu da Ribeirinha, em direção à morada para "lançar uma rede" nas ruas da cidade. Na gíria dos piratinhas, isto significa procurar uma oportunidade de roubar alguém.
-"Hoje, morada cá tá c'nada. Tcham bem tchi pá cais." Pensou Kévin.
Kévin chegou no cais, viu logo um homem com cara de emigrante, descendo de um táxi e disse:
-"Vida já bem melhorame." Esfregando as mãos, uma na outra, foi logo metendo conversa com o sr. José Gumercindo, homem na casa dos seus 60 anos, marinheiro na Holanda há muitos anos. Kévin viu quando o sr. José tirou um envelope cheio de dinheiro, e com uma nota de 200$00 pagou o táxi. Ele pensou logo em tira-lo o envelope antes dele entrar no barco.
-"Posso ajuda-lo com as bagagens senhor?" O sr. José, disse logo que sim, com muita simpatia.
Kévin estava sempre com os olhos fitos no envelope, que estava no bolso de trás da calça do sr. José. Kévin pediu autorização ao porteiro para deixa-lo passar, para levar as bagagens até ao barco, para ajudar o sr José.
Kévin, na sua cabeça, pensou logo numa estratégia de arrebatar o envelope e fugir, mas estava difícil.
O sr José ficou contente pela ajuda, agradeceu o "prestativo" rapaz dando-lhe 100$00. Mas Kévin, queria mais. Abraçou o sr. José, e com as mãos lá atrás, tentava retirá-lo o envelope do bolso.
Como o evelope estava cheio, não foi possivel retira-lo. O emigrante nem deu conta disso. Ele foi se despedindo e andando em direção ao barco "Mar Novol".
- "Caramba. Não posso perder esta oportunidade. Tenho que tira-lo o envelope antes que o barco saia. Pensava Kévin, afrontado.
-"Posso ajuda-lo a colocar as bagagens dentro do barco?" Perguntou Kévin ao sr.José. Ele aceitou de imediato.
Kévin pegou nas bagagens, pediu autorização à Livramento, a moça que estava a tomar os bilhetes na escada do barco. Chegando dentro do barco, se despediram, e mais uma vez, as mãos do Kévin tentaram chegar ao envelope mas, sem sucesso.
-"Tenho que tira-lo o envelope antes do barco sair do cais de São Vicente." Este era o desejo do Kévin.
O sr. José, ainda inocente, convidou o Kévin para tomar um sumo, no bar do barco, como forma de agradecimento, por toda a "ajuda" prestada.
Enquanto bebia o sumo, tentava com a mão direita, alcançar o bolso de trás, da calça do sr. José. De repente, ele ouviu o apito do barco, indicando a partida. Correu para tentar saltar do barco mas, já era tarde, o barco já se tinha afastado do cais.
Kévin ficou chateado com a situação, porque não conseguiu arrebatar o envelope de dinheiro do sr. José e tinha partido numa viagem contra a sua vontade. Mas a mente de Kévin começou logo a trabalhar num novo plano.
-"Vou ter que conseguir o envelope até chegarmos no Porto Novo. Custe o que custar." Pensava ele, com os seus botões.
Recompôs-se e foi ter com o sr. José.
-" Manera tio. Bocê tá kerditá que barco já largá pa Porto Novo e mim jam fcá li dentro?! Um azar dum cá sabê czê!
- Bom, agora vamos afugentar as mágoas no bar. Quando chegarmos no Porto Novo eu pago um bilhete de volta, para ti. Podes ficar à vontade. Meu rapaz, quem está comigo, está com Deus." O coitado, ainda, sem dar por nada, tratava o piratinha com toda a amabilidade característico de um bom santantonense.
Durante toda a viagem, era Kévin tentando fazer o roubo e o sr. José, contando as aventuras do seu trabalho duro, como marinheiro, na Europa.
Quando o barco atracou em Porto Novo, Kévin tentou rapidamente puxar o envelope, de modo a poder voltar logo no mesmo barco para São Vicente, mas não foi possível.
Os passageiros começaram a sair do barco e Kévin ofereceu logo para ajudar o homem a carregar as bagagens até um carro "hiace". Kévin já tinha o seu plano feito. Quando o homem fosse entrar no "hiace", ele puxaria o envelope e fugiria. Ele bem que tentou mas, mais uma vez, o envelope não quis sair.
Numa derradeira tentativa, o Kévin meteu a cabeça dentro do hiace e disse:
- "Sr. José, ondé que bocê ta bai?"
- Vou para o Paúl, meu rapaz. Porquê?
- É que tenho uma tia no Paúl e que eu gostaria muito ir visita-la.
- Entra meu rapaz. Eu pago a tua viagem.
E assim aconteceu.
Kévin entrou no hiace, sentou-se ao lado do sr. José. Foram numa conversa fiada dentro do hiace. Até pareciam amigos de infância. De vez em quando, lá ia a mão do Kévin, em direção ao bolso do sr. José, apalpando o envelope.
- Tenho que retira-lo este envelope antes de sairmos do hiace.
Pensava Kévin.
Depois de muito andar, o hiace parou e o condutor falou:
- Senhores passageiros, já chegamos em Paúl.
O sr. José saiu do carro. E com a mão, lá foi acenando a despedir-se. Ele começou a colocar as bagagens nos chão e Kévin lá foi ajudar, na sua última tentativa. E numa das vezes que o sr. José abaixou-se para colocar uma bolsa no chão, Kévin conseguiu dar o golpe final. Com dois silenciosos dedos, ele conseguiu puxar o envelope cheio de notas de 2.000$00.
Ele escondeu o evelope,rapidamente, dentro da sua camisola. Abraçou o sr. José com tanta alegria, despedindo-se. Ainda na sua inocência, sem dar por nada, o sr. José disse-lhe:
- Como; não vais visitar a tua tia aqui no Paúl?
- Não senhor. Acabei de me lembrar, que tenho um assunto importante para tratar no Porto Novo.
Kévin entrou no hiace, sentou-no lugar da frente, mesmo ao lado do condutor, apertou o cinto e com um ar de "James Bond" disse ao condutor:
- Quanto é que recebes até ao Porto Novo?
- Desculpa-me, mas já não vou mais para o Porto Novo, hoje.
- Acho que não estás a perceber. Estou a fretar-te para levar-me até ao Porto Novo, porque eu vou ter que apanhar o barco ainda hoje, para voltar à ilha de São Vicente.
E o condutor, sem hesitar, fez a curva, buzinou de alegria e foi acelerado em direção ao Porto Novo.
No caminho, Kévin foi contando as notas e verificou que o envelope tinha 100 contos limpinhos. Ele fez um lindo sorriso, colocou o braço fora, e foi pensando:
- Estou ricoooooo!
Kévin conseguiu apanhar ainda, o mesmo barco que ele tinha ido para Santo Antão.
Quando o barco atracou na ilha de São Vicente, Kévin foi o primeiro a descer as escadas, acenando e cantando para toda gente:
- "Soncente jam tchegá, sabura jam bem passá..."
Ele desceu do barco como se fosse um emigrante.
Saiu do cais em direção à barraca da Ilda. No caminho, foi convidando todos os outros piratinhas que ele conhecia, para irem jantar com ele.
Ele pagaria o jantar para todos. E enquanto comiam, ia contando as suas peripécias. No fim do jantar, ele deu 1.000$00 para cada um.
No dia seguinte, ele foi à casa de todas as pessoas com dificuldades, que ele conhecia, para oferecer 1.000$00. Pensando, certamente, que o dinheiro não iria acabar.
A noite, ele convidou a sua namorada para jantar no "Clube Náutico do Mindelo". Jantaram uma boa lagosta suada. Foi uma noite bem passada.
E na saída do restaurante, a polícia judiciária já estava à espera do Kévin. Prenderam-no e retiraram-no o resto do dinheiro que ele ainda tinha no envelope. O povo viu toda a cena.
Ele foi esperneando-se e com as algemas apertadas, ele disse:
- Sr. agente, por favor, bocê só dzem quem é que "estrilhame"?
- Foi um outro piratinha que pagaste um jantar ontem.
- Judas do caraças pá! Já não há código de honra, nem entre os piratinhas? Miserável pá. Miserável.
E durante a viagem para a esquadra da polícia, Kévin foi pensando consigo mesmo:
- Podem até levar-me preso, mas fui rico por um dia. Mas óh dinheiro amaldiçoado! Foi difícil de conseguir e foi fácil de ser gasto e por fim, fácil fui preso. Caramba pá. Vida de piratinha é uma chatice.
(César Fortes- 07/09/2020)
Viagem ao Vale do Mocho, na ilha de Santo Antão.
Cumprido todas as exigências requeridas pela delegacia de saúde para as viagens interilhas, embarcamos no "Chiquinho".
Um barco novo, bonito e com todo o conforto necessário. Entramos e sentamos, cumprindo o distanciamento. Eu na primeira cadeira, a minha irmã, Vanda, no meio e a minha filha Emma na outra extremidade.
"CHIQUINHO" saiu mesmo às 7 horas, como programado.
Girando a proa para o Monte Cara, o capitão iniciou a viagem que demoraria cerca de 1 hora. Nos altifalantes, embalamos ao som da música dos Calema "Agora é a nossa Vez". Penso que sim, agora é a nossa vez de desfrutarmos de umas lindas férias em Santo Antão.
O mar está calmo, que até parece uma piscina.
Do nosso lado direito, vários navios estão ancorados na baia do Porto Grande. Entre eles, vejo um barco com a bandeira do Panamá que, por momentos, fez-me lembrar as lindas histórias que o meu primo Aníbal contava-me, das travessias no canal de Panamá, quando ele era marinheiro de alto mar.
De repente, já estávamos ao lado do Ilhéu dos Pássaros, o "Djéu". Lembrei-me logo das histórias de nhá Bia, que quando criança, o pai dela era faroleiro e tiveram que ir morar no ilhéu, por causa do seu trabalho.
Ela contou-nos que, como filha única, morou isolada no ilhéu. Apenas ela, a mãe e o pai. Sem nenhuma outra criança para brincar. Todos os dias, ela levantava, olhava para o mar que chocava contra o ilhéu com tanta força, que até dava medo. De imediato, ela entrava em casa, para não cair no mar. Foram longos, seis anos no farol.
Ela ficou tão traumatizada com o mar que, no dia que ela saiu do ilhéu, num bote, com destino à ilha de São Vicente, ela jurou que nunca mais iria viajar de barco. Nunca mais foi para Santo Antão, simplesmente para não ter que passar perto do "Djéu" e relembrar do passado medonho. E hoje, ela só viaja de avião.
De volta à nossa viagem, as montanhas de Santo Antão já estão mais próximas. Isto quer dizer que já estamos a aproximar do cais da cidade do Porto Novo.
Ouvi dizer, que choveu na ilha mas, parece que Porto Novo, não foi abençoado pelas chuvas, pois, as rochas continuam secas.
O marinheiro lançou o retinida (cabo com uma bola na ponta) e o homem no cais atou as amarras. O barco atracou. Desceram a rampa e os passageiros começaram a sair, numa grande azáfama, para poderem, rapidamente, apanhar um "hiace" para cedo poderem chegar às suas localidades.
Nós entramos no hiace de Tony "Cabe Esperança" e com um som no máximo, ouvíamos Dénis Graça cantando "Amor a primeira vista".
Começamos a viagem de carro na nova estrada, em direcção à Janela.
Passamos no primeiro túnel e de seguida, vemos a nossa frente, o farol Fontes Pereira de Melo (Farol de Boi) que fica na zona de Janela. Janela é uma localidade muito bonita.
O hiace parou e uma família inteira entrou no carro. Não sei como, mas todos coubemos dentro do hiace. Os condutores fazem milagres.
Continuamos a viagem, passamos a Praia de Gi e ao lado da estrada, deparamos com uma estátua, bem cuidada, em memória do papa, João Paulo II.
Chegámos ao Vale do Paul, um celeiro verdejante, cheio de água e de fartura de comida.
Atravessamos a cidade das Pombas, lugar de gente bonita e casas lindas.
Já em Povoação de Ribeira Grande, o condutor teve que fazer uma pausa para as pessoas descansarem e fazerem algumas compras, nas lojas, perto de Ponta de Lavada.
Hora de entrar no hiace e continuar a viagem, em direcção ao vale do Mocho. O motor do carro roncava tanto que, em poucos minutos, chegámos nas montanhas de Garça, onde encontramos um dos vales mais bonitos de Santo Antão.
Minutos depois passávamos pela linda vila de Chã de Igreja, lugar de gente simpática e de uma imponente igreja. Terra dos meus avós. Passar alí e não parar, deu-me um nó na garganta. Um nó de saudade.
Passamos o cemitério, e começamos a descer para a ribeira. A estrada tem uma curva, sem protecção, que fica literalmente, num precipício. De um lado, lá no fundo, vemos o mar a bater na rocha, com muito estrondo e ficamos com muito medo. Do outro lado, colocamos os olhos para o céu, para pedir apoio à Deus e vemos o cemitério literalmente, em cima de nós. Uma visão que nos enche de credos na boca.
Atravessámos a ribeira e a vila de Cruzinha ficou-nos mesmo a frente, com a sua linda baia, seu peixe fresco e um sol abrasador.
Prosseguimos a nossa viagem que, nos levaria à localidade de Mocho, agora, numa estrada de areia, esculpida nas rochas, pela ação do mar.
Uma estrada maltratante, com muitos pedregulhos, que desmotiva qualquer um, a fazer uma segunda visita. Uma estrada em condições péssimas, lá onde Judas danificou as suas botas. Já é uma necessidade urgente, uma estrada digna, para esta localidade.
Depois de muito balançar dentro do carro, parecendo um andar fusco e de termos ultrapassado a tortuosa e empoeirenta estrada, eis que entramos no lindo vale do Mocho.
Montanhas altivas, muitas plantações, mulheres fortes, homens de coragem, trabalhadores na agricultura, gente que gosta de tratar bem os visitantes. Um vale com dois furos de captação, onde a água não falta. Mandioca, batata doce, cana, tomate, cenoura, banana, manga e vários outros produtos são produzidos neste lindo vale, esquecido por muitos. Um vale que te faz esquecer o tempo e relaxar completamente.
Chegou a noite e o cheiro de um guisado de carne de porco era forte. De seguida, a voz da tia Joaninha ecoava na ribeira, nos convidando para o Jantar. Um caldo, nunca falta na mesa de um mochense, com muito orgulho.
O som dos grilos, dos sapos e das cagarras que elegeram as rochas do vale como a sua moradia, fez-nos logo embalar, numa boa e revigorante noite de sono.
No dia seguinte, levantamos cedinho, comemos muitas mangas e papaias. Os irmãos Pedro e João, convidaram-nos para comer uma cachupa guisada com omoletes de ovos de terra e fruta-pão frito. Um manjar dos deuses.
A tarde, passamos na casa da Andreza para comermos uns filhoses e beber um chá de belgata. De repente, a chuva amiga começou a cair suavemente e tivemos que voltar para a casa. E da janela, ficamos a observar, a tão esperada e linda dádiva de Deus, a chuva, beijando as plantas e deslizando na ribeira.
O verdejante vale do Mocho é mesmo um paraíso escondido na ilha de Santo Antão, que vale a pena ser visitado.
(César Fortes - 31/08/2020)
O NOSSO AMIGO NELSA D'IA.
Quando éramos crianças, em Ribeira Bote, brincávamos muito o "Hands up" ou mãos ao ar. Certo dia, com um sol a prometer ser escaldante, iniciamos a nossa brincadeira entre polícias e ladrões. Saímos em direção à ilha de madeira, a correr uns atrás dos outros.
As casas de lata, enfileiradas, davam muita ajuda para podermos ver a rua toda, de uma ponta à outra, facilitando assim, uma visão geral do nosso campo de batalha e dos nossos "inimigos".
Dividimos os grupos. Nelson, Didi, John de nha Terezinha, Renato e outros ficaram num grupo e eu, Sílvio, Jair, Ligim, Dicha e outros, ficamos noutro grupo.
O gupo do Nelson, foi esconder-se no meio das casas de tambor e enquanto nós, ficamos combinando uma estratégia. E de repente o Sílvio disse: -"Devemos tentar apanhar primeiro, os mais "moles". Certamente, já pensando no Nelsa d'ia.
Cada um de nós, saiu em direção à uma rua. Começamos a correr atrás dos nossos "inimigos" com gritos de guerra. E quando víamos um, gritávamos: - "Hands up".
Entre os mais moles estava o Nelsa d'ia, sem dúvida. Ele era o mais corpulento e logo, o mais fácil de encontrar.
Corremos atrás dele e logo nos primeiros minutos da nosssa brincadeira, gritámos:-"Hands up. Estás preso, Nelson". E ele suplicou-nos: -"Por favor "menis", bsot panhame mut cedo". Soltem-me para eu poder brincar mais um pouco. Va-lá".
É claro que nós não cedemos.
E ele, grande, como era, tivemos que ajuntarmo-nos nele, como formigas numa barata. Depois de o termos amarrado, levamo-lo para a rua 10 para exibi-lo. Amarramo-lo de costas num poste de eletricidade, mesmo em frente da casa de nha Maria de Lurdes.
Atamos as mãos e os pés dele. Depois de o termos bem amarrado, fomos para a ilha de madeira continuar a corrida atrás dos outros.
Passados algumas horas, tínhamos que terminar com a brincadeira, porque era hora de ir para a escola. Cada um foi para a sua casa, para arranjar-se.
Depois de almoçar e já no caminho para a escola, deparámos com o Nelson d'ia, ainda amarrado ao poste, já com a cara decaida e queimada pelo sol. Tínhamos esquecido dele amarrado ao poste. Ele também tinha que ir para a escola e estava muito atrasado e sem almoçar.
Ele viu-nos e gritou-nos:-"Ó meninos, por favor, libertem-me". E neste exato momento, apareceu o tio dele, vindo do trabalho que gritou: -"Nélson, o que estás a fazer amarrado à este poste? Para a casa, já!"
Ele não nos deu nem tempo de o libertar das cordas. Ele tirou o cinto, deu ao Nelson umas boas latadas a frente de todos nós.
Nelson não gritou. Só víamos as lágrimas rolarem cara abaixo. Sofriámos por dentro porque tudo aquilo, foi culpa nossa.
Esquecemos de desamarrar o nosso amigo, o primeiro preso. O tio, colocou-lhe a andar a frentre, enquanto ele, ia atrás com o cinto, batendo-o nas costas. Era uma cena dura de assistir. Lá fomos nós para a escola e o Nelson para casa.
Depois que saímos da escola, nós, os amigos do Nelsa d'ia, fomos visita-lo para ver como ele estava. Nas pernas, ainda podíamos ver as marcas do cinto mas, Nelson estava alegre como sempre. E Sílvio perguntou-lhe:-" Então "Patapouf", como estás?"
Este era o nome como nós, os amigos, o chamávamos.
Estávamos com medo da reação dele, pois, afinal, nós éramos os culpados da situação.
Ele viu para nós e disse: -"Seus "estapores". E depois ele soltou umas gargalhadas e abraçou-nos, batendo amigavelmente nas nossas cabeças. Ele tinha feito as pazes connosco.
Nelson estava vestido somente um "trusse", umas cuecas brancas de algodão, pois, ainda estava de castigo, imposto pelo tio, assim não saia de casa. Tínhamos que ir lá, todos os dias, brincar com ele.
Nelson, apesar de grandão em relação à nós, ele tinha um bom coração. Era sim, muito azarado, pois, todas as coisas erradas aconteciam sempre com ele.
Ele era a criança mais alegre e o melhor a fazer saltos acrobáticos, entre nós.
"Patapouf" é um grande companheiro.
(César Fortes - 02/08/2020)
Vencedor do concurso Literário nos Estados Unidos "Mórmon Lit Blitz"
🥇🥇🥇🏆🏆🏆🏆🥇🥇🥇
Caros amigos, sirvo desta para vos informar que venci o Concurso de literatura "Mormon Lit Blitz" (Nos Estados Unidos da América). Gostaria de agradecer à todos que votaram no meu conto. O teu voto foi muito importante.
Assim foi a classificação:
https://lit.mormonartist.net/.../2020-mormon-lit-blitz.../
"Audience Choice Award
The four audience favorite finalists this year were:
4th place: “Perfection is a Fullness” by Jeanine Bee
3rd place: “Part Heaven” by Madison Beckstrand
2nd place: “In the Locker Room at the Temple” by Darlene Young
and for 1st place, an essay from Cape Verde:
“O Nosso Cão Stromberg” (“Our Dog Stromberg“) by César Augusto Medina Fortes
TERRORISMO DE OPINIÃO TÓXICA.
Sou criança e um dia adulto serei.
Que tipo de adulto serei, quando ouço na rádio do nosso país, tantos programas de opinião pública que deixam as mesmas pessoas participarem, com a mesma opinião corrosiva, todos os dias, de manhã à noite, lançando caboverdianos contra caboverdianos? Isto é terrorismo comunicacional.
Sou criança e um dia adulto serei.
Que tipo de adulto serei, quando vejo no facebook, pessoas a incentivarem a revolta, o assassinato de políticos; o bairrismo entre São Vicente e Santiago? Isto é terrorismo de opinião tóxica.
Sou criança e um dia adulto serei.
Que tipo de adulto serei, quando leio nos "jornais(pasquins)" tanta "fake news", com o único propósito de tomar o poder? Esse não é jornalismo. É terrorismo no jornalismo.
Sou criança e um dia adulto serei.
Que tipo de adulto serei, quando vejo, todos dias, pessoas que criticam só por criticar, apontam o dedo para o Sol, para Lá e nunca para Si? Nunca estão dispostos à ajudar para mudar o rumo das coisas. Que tipo de gente é esta? Esses são terroristas de opinião tóxica.
Sou criança e um dia adulto serei.
Que tipo de adulto serei, quando vejo líderes políticos a corromper o povo e o povo a corromper os líderes políticos? Isto é corrupção. Terrorismo social.
Sou criança e um dia adulto serei.
Que tipo de adulto serei, quando vejo a educação, a saúde e a segurança, a custarem os olhos da cara? Isto é terrorismo contra os pobres.
Sou criança e um dia adulto serei.
Que tipo de adulto serei, quando vejo alunos sujando as escola, pichando os transportes públicos e desrespeitando os mais velhos? Isto é terrorismo contra o nosso património.
Sou criança e um dia adulto serei.
Que tipo de adulto serei, quando vejo uma taxa de desemprego elevada mas, mesmo assim, vejo pessoas negando ofertas de emprego? Isto é terrorismo da preguiça.
Vamos parar de fomentar o ódio e o racismo; a pobreza; a preguiça; a dependência e a corrupção.
Vamos promover a educação; o emprego; a saúde; o respeito e o amor pelo próximo.
Se fizessem um inquérito credível, iriam ver que a maioria das pessoas de São Vicente não é contra Santiago e nem a maioria das pessoas de Santiago são contra as pessoas de São Vicente. Nós amamos uns aos outros.
Vivamos em união para que eu, como Criança de hoje, possa ser, um bom Adulto amanhã .
Se os "Bons" não levantarem a voz para defenderem o Bem, a voz dos "Maus" continuará a prevalecer e a criar estragos na nossa sociedade.
#Vamos lutar juntos para o "Bem" na nossa sociedade#
(César Fortes - 08/06/2020)
quarta-feira, 6 de maio de 2020
"AS AMARGURAS DO JOÃO".

João nasceu de uma família pobre.
Não conseguiu terminar o ensino secundário.
Iniciou cedo a trabalhar como carpinteiro.
Apaixonou-se por Stefany Benoliel, uma engenheira recém formada na melhor universidade do país. Pouco tempo depois casaram-se e um ano mais tarde tiveram um filho.
Stefany era muito cobiçada pelos outros amigos ricos que ela tinha. A mãe dela, a juíza Mary Benoliel, nunca gostou do João e várias vezes tinha dito que não sabia onde é que a filha estava com a cabeça, para casar com um pé rapado, sem eira nem beira, como o João. O coitado, engolia tudo isto sem ninguém para o ajudar.

Certo dia, numa discussão de casal, Stefany atirou na cara do João que, ele era mal sucedido na vida, que quem sustentava a casa era ela e que agora, dava razão a mãe. E que também deveria ter seguido o conselho da sua amiga de trabalho, a Gorety Vera-Cruz, quando ela disse que deveria ter arranjado alguém da sua classe. E ainda gritou:-"Aqui quem manda sou eu." João mais uma vez, triste, pegou no seu filho e foi para o seu quarto, chorar em silêncio.
Stefany não perdeu tempo. No dia seguinte, bem cedo, ela levantou, fez a mala e saiu. João levantou e foi correndo na rua atrás dela, gritando em lágrimas, que por favor, não o abandonasse. Porque sem ela, a sua vida ficava sem sentido. De joelhos no chão e ainda em lágrimas viu a Stefany entrar no seu carro e partir. Ele de rastos, entrou para casa e encontrou um bilhete que a Stefany tinha-o deixado, que dizia assim:- "João, o nosso caso chegou ao fim. Não podia ficar mais contigo, porque tenho outros planos e que tu, como um carpinteiro, não podias dar. Cuida do nosso filho."

João não aguentou e mais uma vez, abraçou o seu filho e juntos choraram. João agora, era um homem abandonado, e com uma criança para criar sozinho. Ele agora, era pai e mãe ao mesmo tempo. O sofrimento do João era grande.
Os vizinhos com pena, lá foram ajudando com a comida. Embora de vez em quando, aparecia uma mulher gritando da janela:-"É bem feito. Para aprenderes que, com as mulheres não se brinca". Mas ele não ligava.
João estava a ter problemas no trabalho, porque muitas vezes, pedia para sair mais cedo para cuidar do bebé. A sua chefe não queria entender a situação.
Ele era discriminado no trabalho, unicamente, por ser homem.
Quando aparecia uma oportunidade de subir na carreira não davam uma oportunidade para ele, porque a chefe sempre dizia: - "Agora é o tempo das mulheres".
Ele era assediado pela sua chefe todos os dias mas ele negava.
A chefe até propôs aumentar o salário se ele ficasse com ela. Caso contrário era despedido.
E várias vezes, dizia-lhe em alta voz:-"Aqui os homens não mandam."
Até que um dia, ele não aguentou mais e disse basta. E foi despedido.
A chefe fingiu ter sido atacada pelo João, chamou a polícia e vieram duas polícias da proteção da mulher e não quiseram nem ouvi-lo e levaram-no preso, arrastado pelo chão. E uma delas disse-lhe:- "Não é preciso nem dizer nada. Vocês homens, querem só maltratar-nos. Vais pagar bem caro por isso. Não tens safa. Vamos fazer de tudo, para que encontres aquela juíza que tem raiva de homens".
Desempregado, com um filho para criar, a situação ficou mais complicada.
No tribunal, dito e feito, encontrou a juíza Pancrécia, que tratou do caso com rigor e castigou-lhe severamente com 3 anos de prisão efetiva, ordenou que doassem o filho ao Instituto de menores e ainda no fim, ela acrescentou: "Comigo é assim. Agora é a vez das mulheres".
João ainda gritou:- "Sra. Juíza, por favor, eu sou pai, sou mãe. Suplico-lhe, tenha piedade de mim. Mas a juíza foi implacável.
Colocaram-no numa prisão, onde a diretora era uma mulher e que mandou que ele fosse cuidado com braço de ferro. De vez em quando, ele era espancado dentro da prisão e ia queixar na diretora e ela dizia: -"Pareces uma mulher, só a fazer queixinhas. Aqui não meu amigo, os homens sentem o que é a mão forte da mulher. Agora é a vez das mulheres." E ria.

Ele chamou a representante dos direitos humanos e quem veio foi uma mulher, que também não fez caso do seu problema. Mais uma vez, ele foi discriminado, unicamente por ser homem. Preso e julgado injustamente, João viu para o céu e deu um grito de angústia:- "Que culpa tenho eu de ter nascido homem neste mundo, meu Deus?" Caiu de joelhos e chorou amargamente.
Cumprido exatamente 3 anos, João saiu da prisão. Primeira coisa que fez foi visitar o seu filho no Instituto de menores. Deu-lhe um beijo e um abraço demorado.
João decidiu que iria procurar um novo emprego. Várias vezes, nas entrevistas de emprego, sempre esbarrava com a frase: -"Desculpe. Temos uma vaga sim, mas estamos a procura de uma mulher". Ele viu que não iria ser fácil contornar esta situação de discriminação.
João não conseguiu honrar os seus compromissos com o banco e perdeu a casa. Sem dinheiro, sem trabalho, sem casa e com um filho para criar, tudo estava a complicar.
João fugiu num barco grego e foi parar na Singapura. Lá trabalhou arduamente e conseguiu enriquecer.
Anos mais tarde, o magnata João voltou para a sua terra. Comprou a empresa onde anteriormente trabalhava, e deixou todos os trabalhadores lá e chamou a gerente que antes o tinha despedido e perguntou-lhe:-"O que achas, quem eu devo colocar a tomar conta da minha empresa? E a senhora disse:- "Eu acho que..." e o João a interrompeu logo, dizendo: - "Eu acho...eu acho que a senhora deveria era ter vergonha de discriminar as pessoas. Vai já é para a rua. Vou colocar aqui alguém que seja capaz, independentemente se é homem ou mulher".
João arranjou um amigo que lhe servisse de intermediário, para contactar a empresa de construção onde a sua antiga esposa, a Stefany, trabalhava, para construír a sua mansão na zona mais cara da cidade, sem que ninguém soubesse que era dele. E que fosse construida pela engenheira Stefany. E assim foi.
Enquanto construiam a mansão, João meteu uma petição para tomar o filho. Entrou com queixas-crime contra todas que lhe tinham discriminado.
No dia da inauguração da mansão, João mandou convite para todas as pessoas importantes da cidade, inclusive a Stefany e a sua família, a sua antiga chefe, a juíza, a diretora da prisão e a representante dos Direitos Humanos.
A festa da inauguração estava excelente e todos estavam ansiosos para conhecer o dono da casa. O mestre de cerimónia pediu palmas e que todos ficassem de pé porque, agora iria entrar o magnata, o dono da mansão, João Lopes. Todos ficaram de boca aberta. Houve um silêncio ensurdecedor na sala. João, com a sua calma, pediu aos convidados que o seguissem lá fora, para o descerramento da placa. Lá fora, João segurou uma corda de um lado e o seu filho segurava a outra corda, no outro lado. Puxaram o pano, e na placa dizia: - "Nunca discrimine niguém, por causa do seu género, raça, cor, religião ou "status" social."
Podem imaginar, a cara que os outros ficaram.
Por muitos dias, João era o tema de conversa na cidade.
João mais tarde casou com uma outra mulher, que o ajudou a criar o seu filho. Ele levou o resto da sua vida cuidando dos seus familiares, amigos e de quem passava por problemas idênticos ao dele.

(FIM)
(César Fortes 05/05/2020)
Moral da história:
Não faça aos outros aquilo que não gostarias que fizessem a ti.
Ouça a música que se segue. Clica no link:https://youtu.be/umjq7zD0Jj0
quarta-feira, 29 de abril de 2020
O SONHO NA QUARENTENA
A pandemia passou.
Que alegria nas ruas.
Desci para passear na cidade do Mindelo e passei perto do Palácio do Povo, senti vontade de chupar um "drops". Encontrei uma senhora vendendo num balaio. Na hora de pagar, ela foi logo dizendo:-"mim m'ta recebé só com cartão. Tcham bai logo ta dzeb."
Ninguém já quer receber dinheiro. As coisas mudaram.
Fui para a rua de Lisboa e vi pessoas se abraçando como nunca tinham feito. Davam abraços apertados e davam mais e mais, só para matar saudades.
Os supermercados, de novo, estavam cheios de gente. Já ninguém queria saber mais de papel higiênico.
Passei perto do prédio da direção de trabalho, e percebi que estava cheio de processos disciplinares, porque alguns já não querem voltar para o trabalho.
Constatei que os nossos velhos já não querem sair de casa, pois, ficaram traumatizados com o corona.
Percebi que a China, agora é a maior potência do mundo. A América perdeu a sua hegemonia.
Foi reeditada a história de "Alibaba e os 40 ladrões" para simplesmente " Alibaba", em homenagem ao criador da loja online "Alibaba", Jack Ma. Pois, desta vez, nem os 27 e nem os 40 ladrões ajudaram. Todas as vendas online passaram a ser realizadas, unicamente, por esta loja online. As outras faliram.
Entrei numa farmácia e vi que já fazem promoção como "compra 1 paracetamol e leva 1 álcool-gel e 2 máscaras de graça". Antes, nunca tinham estes produtos disponíveis.
Na Morada, vi que o comércio se reinventou e surgiu novas casas comerciais, como por exemplo: "O Gelfalso"; "A Máscara" e "Alho 1000".
Nove meses depois da pandemia, nasceram muitas crianças com nomes estranhos, como por exemplo: Álcoolgelson de Oliveira e Covidson da Cruz.
Passei pelas bandas de Chã de Cemitério e vi que, também surgiram novas funerárias como a "Tude pa rápido" e " Bai bô sô".
Cansado de tanto andar, sentei-me numa pracinha de uma casa em Monte Sossego e através de uma janela, consegui ouvir um rádio que estava sintonizado na Rádio Nova, que dizia que a música do Jorge Neto " Sem ninguém" foi eleita a melhor música do ano, talvez porque o povo já estava muito tempo "sozinho e isolado".
Declarou-se também, que a palavra mais procurada no google este ano foi "Corona" e em segundo lugar foi "papel higiênico". Não se sabe o porquê.
Entrei num autocarro, e vi que já pouca gente anda nos transportes públicos, tudo por culpa da doença que arrasou o mundo.
Já não há "cassubody" porque se alguém vier assaltar-te é basta espirrar que ele foge.
Entrei na rua de " Matijim" e vi que já vendem um "grogue" engarrafado, que colocaram o nome de "Covid". Talvez pela sua má qualidade na produção que é capaz de matar.
Continuei a caminhada até Laginha, onde em pleno verão, estava deserta, sem ninguém. Todos ficam no calçadão, com receio de descer na praia.
As discotecas estão vazias. Fazem promoção, oferecendo cartão para um mês de entrada grátis, mas mesmo assim, ninguém vai.
Os namorados já não se abraçam. Beijos agora, dizem eles, só depois do casamento. Agora, até para casar, têm que fazer um acordo pré-nupcial, onde consta, obrigatoriamente, uma lista de vacinação.
Já ninguém vai para os enterros e ninguém dá pêsames. Agora guarda-se a distância social. Triste mesmo.
O festival da Baia foi suspenso logo no primeiro dia por falta de público. Ainda o povo tem medo de se juntar.
As escolas nunca mais foram abertas. As aulas, agora, são dadas todas, via internet.
Constatei que, o governo apostou forte na saúde e temos agora hospitais de ponta em África.
Muitas pessoas ficaram deprimidas por conta da quarentena. Muitos psicólogos, abriram agora mais clínicas.
Os cafés e restaurantes estão, de novo, cheios. Os turistas já, estão outra vez, nas nossas ruas, apreciando a nossa morabeza.
Os idosos, de mais de 65 anos de idade, já têm um estatuto especial para serem tratados em primeiro lugar, nos hospitais.
Os médicos foram condecorados com a ordem de "Amílcar Cabral" por terem sido uns heróis na luta contra o "Coronavirus" e passaram a receber igual a um jogador de futebol.
Hoje, passado um ano da epidemia do "Covid-19", o mundo está a começar a se erguer da recessão, causada pela crise que veio logo a seguir.
Verifiquei que muitas pessoas passaram a acreditar em Deus por terem superado a Covid. O que é bom.
Hoje, vejo um Cabo Verde melhor, que com uma população forte e dedicada, conseguiu lutar e ultrapassar o "Coronavirus".
Depois disto, nada ficou como dantes. Mas mesmo assim é continuar para frente.
E no confinamento, 3 grandes músicas me ajudaram a aguentar com fé e me fizeram preservar até que a crise do virus passasse. Foram elas:
1° "Sem Ninguém" (Jorge Neto) https://youtu.be/oVNQU1V2FfU
2° "Jerusaléma" (Master KG) https://youtu.be/fCZVL_8D048
e 3° "Bai"(Soraia e Lisandro)
https://m.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=sJ9Y2Un5VBQ
Ao ouvi-las fico arrepiado.
Ainda bem que o Coronavirus passou. "Bai" e nunca mais volte.
(César Fortes - 29/03/2020)
"AS RIQUEZAS DE MARLENE"
Ela cresceu e foi estudar no Liceu Ludgero Lima. No primeiro dia de aulas, ela foi com a bata branca que a irmã já tinha usado, anos atrás, no seu tempo de liceu. A mãe teve que descoser a bainha, para que pudesse adaptar ao tamanho da Marlene. Com muito esforço, a mãe conseguiu arranjar-lhe um chinelo de borracha, que vendiam na "loja Benvindo", para que ela não fosse descalça.
Marlene, um pouquinho tímida, sentou-se na mesma carteira que o Carlos, um rapaz de Ribeirinha, também ele, filho de pobreza mas com um ar feliz. Carlos cuidava da Marlene e brincavam muito no intervalo de cada aula.
Quando a Marlene, nas brincadeiras, era rejeitada pelas filhas de ricos, metidas a besta e arrogantes, nestas horas, lá estava sempre o Carlos para a consolar. Foram crescendo e cada um foi cursar num país diferente. Carlos foi para o Brasil e Marlene foi para Portugal. Os anos foram passando e nunca mais tiveram notícias um do outro.
De volta à ilha, Carlos ouviu dizer que, Marlene estudou Direito em Coimbra e hoje é uma advogada de renome na cidade. Um belo dia, os dois se encontraram num restaurante e o Carlos foi com os braços abertos a correr, cheio de alegria, para cumprimenta-la mas a Marlene já não o reconhecia. Por momentos, Carlos pensou, que a Marlene estava a brincar mas, ela estava mesmo a sério.
Carlos tentou ainda fazer-lhe recordar de alguns colegas que brincavam juntos no intervalo, mas ela somente lembrava dos filhos de pais ricos mas, os filhos de pais pobres, ela disse que nunca foram da mesma sala e que, de certeza que o Carlos estava equivocado e que nunca nem eles e nem o Carlos foram da mesma turma. Carlos sentiu-se humilhado e saiu de perto da Marlene. "Como era possível?" Pensava Carlos.
Ela estava crescida, enriquecida e apagou as memórias do passado da pobreza e principalmente da sua origem humilde, que ela escondia.
Como uma das melhores advogadas da cidade, ela agora ganhava muito bem, comprou um lindo carro e uma bela casa. Marlene nunca ajudou a mãe como disse que faria. Ela visitava a mãe, somente no Natal. Chegava perto da casa de tambor da mãe, em Bela Vista, telefonava-a para que ela fosse até o carro, para ir buscar a prenda que ela tinha para ela.
A mãe triste, tomava a prenda e pedia a Deus que abençoasse a filha e que mesmo assim, que a protegesse do mal. E quando a mãe começava a chorar, ela pedia a mãe que se afastasse do carro porque, ela tinha mais que fazer e tinha um jantar de gente de alta sociedade no hotel Porto Grande.
Tempos depois, com o frio que fazia na casa de tambor, a mãe apanhou uma pneumonia e foi internada no hospital Batista de Sousa. Marlene não foi visita-la no hospital, porque não gostava de entrar em hospitais. Mas, todos os domingos mandava a empregada leva-la um ramalhete de flores. De domingo a domingo, ela ficava a saber como a mãe estava a piorar. Um mês depois as coisas complicaram e a mãe morreu.
Marlene ficou a saber da notícia através de uma vizinha. Ela tratou com uma agência funerária para que fizesse o enterro. Até enviou uma coroa de flores com uma fita com a seguinte frase: "Da tua filha com saudades." Ela não foi para o enterro porque não gostava de cemitérios.
Mais tarde, mandou fazer uma campa para a sua mãe, como aquela da Cesária e pagou uma fortuna, só para que o povo pudesse ver.
Alguns anos depois, o filho da Marlene, o keny, que ela tinha dado tudo na vida, tratado como um rei, veio do curso, formado em Gestão Financeira e com todo o conhecimento que ele tinha adquirido com a mãe, ele também estava ansioso para se enriquecer.
A primeira decisão que ele tomou foi interditar judicialmente a mãe alegando que a mãe não estava bem mentalmente. Colocou-a num lar e ficou com tudo o que era dela. Ia lá visitar a mãe, uma vez por ano e não entrava porque ele não gostava de casa de idosos. Só mandava flores com a frase: "Do filho com saudades." Parece que a história estava a repetir-se.
Marlene pediu que, pelo menos, pudesse ter no lar, umas paredes forradas com espelhos, onde ela pudesse ver a si própria sempre, talvez para alimentar o seu ego. Marlene foi-se envelhecendo dentro do lar, e agora, cada vez que via para uma parede de espelhos, já não via a si mesma mas, via exactamente a imagem da mãe. Com o tempo, o sofrimento, a solidão e a amargura, como que por praga, tomaram conta dela. A loucura chegou.
Certo dia, depois de se ter visto no espelho, ela entrou em pânico e gritou: "O espírito da minha mãe está cá no meu quarto. Por favor, me ajudem! Chamaram o dono do Lar e adivinhem quem era? Exactamente, o Carlos. Quando ele entrou na sala, ela de imediato o reconheceu e disse: - "Carlos, meu amigo de infância, meu colega de sala no Liceu Ludgero Lima. Filho de nhe Juninha, por favor, ajuda-me. Carlos, com a sua mansidão que o caracteriza, respondeu: -"Já lembraste de mim?".
- "Sim. Claro que me lembro sr. Diretor. Por favor, tira-me desta loucura."
Carlos pegou-lhe pela mão, meteu-lhe no carro e levou-a até o cemitério, exactamente na cova da sua mãe. Ela caiu de joelhos, em cima da campa da mãe Teresa, chorou muito. Pediu perdão por ter sentido vergonha dela, por não tê-la ajudada quando mais precisava, por não tê-la visitado no hospital quando ela estava doente, por não ter comparecido no funeral dela. Sabia que já era tarde. Sabia que não conseguiria dar o tempo para trás mas, podia concertar muita coisa.
No dia seguinte pediu ao agora amigo Carlos, que a levasse ao tribunal, porque iria meter uma acção contra o filho, para poder reaver todos os seus bens. Meses mais tarde, o tribunal deu-lhe direito à todos os seus bens.
Em memória da sua mãe, ela abriu um lar de idosos com o nome "Mãe Teresa". Ela recebia os idosos de graça na sua instituição. Até ela dava horas de serviço no lar, para poder ajudar os idosos e quem sabe, redimir-se um pouco.
Mais tarde criou também uma casa, onde recebia crianças desfavorecidas para ajuda-las com alimentação, estudos, mas principalmente, na transmissão de valores morais, ensinando-as a amar a si próprias mas principalmente a amar os seus familiares. Colocou a casa o nome de "Amor de mãe."
Marlene estava a sentir-se quase completa. Certo dia, chamou o Carlos para passearem no parque de "Nhô Roque". Lá, sentados numa cadeira, ela agradeceu o Carlos por ter-lhe mostrado o sentido da vida. Por ter-lhe ensinado que a vida é muito mais do que vaidades. Que a vida tem um propósito nobre, que é de sermos felizes junto com os nossos familiares e amigos, quer pobres ou ricos. Que não devemos desprezar ninguém.
-"E é por isso Carlos, que eu tenho um convite para ti." Disse ela.
-"Queres ser feliz? Queres casar comigo Carlos?"
Carlos desconfiado, fez-lhe a mesma pergunta que lhe tinha feito há muitos anos atrás no restaurante:
-" Lembraste de mim, Marlene?"
- Sim. É claro que lembro-me de ti Calú. "Bô també bô tem uns cosa, hein."
Marlene olhou-lhe bem nos olhos, com lágrimas, sorriu e deu-lhe um beijo demorado.
-"Casas comigo Calú?"
Carlos, com um ar aliviado, de quem tinha visto uma grande mudança de atitude na Marlene, respondeu-lhe:
- "Se fosse há uns anos atrás, eu diria que não. Mas hoje, eu digo Sim."
E Marlene, sorrindo disse:
- "Ó Calú, mosse, Bô é parv."
Levantaram-se e de mãos dadas, continuaram o passeio pela Avenida Marginal, agora, na esperança de uma vida longa e feliz.
(César Fortes - 12/12/2019)
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