quarta-feira, 29 de abril de 2020

"AS RIQUEZAS DE MARLENE"


Marlene nasceu em Bela Vista, uma zona nos subúrbios de Mindelo. Morava numa casinha de tambor, humilde e aconchegante. A noite podia ver as estrelas nos buracos da chapa de zinco, que servia de teto. Ela cresceu na pobreza mas, com o objectivo de estudar e vencer na vida, porque um dia iria ajudar a mãe e os irmãos.

Ela cresceu e foi estudar no Liceu Ludgero Lima. No primeiro dia de aulas, ela foi com a bata branca que a irmã já tinha usado, anos atrás, no seu tempo de liceu. A mãe teve que descoser a bainha, para que pudesse adaptar ao tamanho da Marlene. Com muito esforço, a mãe conseguiu arranjar-lhe um chinelo de borracha, que vendiam na "loja Benvindo", para que ela não fosse descalça.

Marlene, um pouquinho tímida, sentou-se na mesma carteira que o Carlos, um rapaz de Ribeirinha, também ele, filho de pobreza mas com um ar feliz. Carlos cuidava da Marlene e brincavam muito no intervalo de cada aula.

Quando a Marlene, nas brincadeiras, era rejeitada pelas filhas de ricos, metidas a besta e arrogantes, nestas horas, lá estava sempre o Carlos para a consolar. Foram crescendo e cada um foi cursar num país diferente. Carlos foi para o Brasil e Marlene foi para Portugal. Os anos foram passando e nunca mais tiveram notícias um do outro.

De volta à ilha, Carlos ouviu dizer que, Marlene estudou Direito em Coimbra e hoje é uma advogada de renome na cidade. Um belo dia, os dois se encontraram num restaurante e o Carlos foi com os braços abertos a correr, cheio de alegria, para cumprimenta-la mas a Marlene já não o reconhecia. Por momentos, Carlos pensou, que a Marlene estava a brincar mas, ela estava mesmo a sério.

Carlos tentou ainda fazer-lhe recordar de alguns colegas que brincavam juntos no intervalo, mas ela somente lembrava dos filhos de pais ricos mas, os filhos de pais pobres, ela disse que nunca foram da mesma sala e que, de certeza que o Carlos estava equivocado e que nunca nem eles e nem o Carlos foram da mesma turma. Carlos sentiu-se humilhado e saiu de perto da Marlene. "Como era possível?" Pensava Carlos.

Ela estava crescida, enriquecida e apagou as memórias do passado da pobreza e principalmente da sua origem humilde, que ela escondia.

Como uma das melhores advogadas da cidade, ela agora ganhava muito bem, comprou um lindo carro e uma bela casa. Marlene nunca ajudou a mãe como disse que faria. Ela visitava a mãe, somente no Natal. Chegava perto da casa de tambor da mãe, em Bela Vista, telefonava-a para que ela fosse até o carro, para ir buscar a prenda que ela tinha para ela.

A mãe triste, tomava a prenda e pedia a Deus que abençoasse a filha e que mesmo assim, que a protegesse do mal. E quando a mãe começava a chorar, ela pedia a mãe que se afastasse do carro porque, ela tinha mais que fazer e tinha um jantar de gente de alta sociedade no hotel Porto Grande.

Tempos depois, com o frio que fazia na casa de tambor, a mãe apanhou uma pneumonia e foi internada no hospital Batista de Sousa. Marlene não foi visita-la no hospital, porque não gostava de entrar em hospitais. Mas, todos os domingos mandava a empregada leva-la um ramalhete de flores. De domingo a domingo, ela ficava a saber como a mãe estava a piorar. Um mês depois as coisas complicaram e a mãe morreu.

Marlene ficou a saber da notícia através de uma vizinha. Ela tratou com uma agência funerária para que fizesse o enterro. Até enviou uma coroa de flores com uma fita com a seguinte frase: "Da tua filha com saudades." Ela não foi para o enterro porque não gostava de cemitérios.

Mais tarde, mandou fazer uma campa para a sua mãe, como aquela da Cesária e pagou uma fortuna, só para que o povo pudesse ver.

Alguns anos depois, o filho da Marlene, o keny, que ela tinha dado tudo na vida, tratado como um rei, veio do curso, formado em Gestão Financeira e com todo o conhecimento que ele tinha adquirido com a mãe, ele também estava ansioso para se enriquecer.

A primeira decisão que ele tomou foi interditar judicialmente a mãe alegando que a mãe não estava bem mentalmente. Colocou-a num lar e ficou com tudo o que era dela. Ia lá visitar a mãe, uma vez por ano e não entrava porque ele não gostava de casa de idosos. Só mandava flores com a frase: "Do filho com saudades." Parece que a história estava a repetir-se.

Marlene pediu que, pelo menos, pudesse ter no lar, umas paredes forradas com espelhos, onde ela pudesse ver a si própria sempre, talvez para alimentar o seu ego. Marlene foi-se envelhecendo dentro do lar, e agora, cada vez que via para uma parede de espelhos, já não via a si mesma mas, via exactamente a imagem da mãe. Com o tempo, o sofrimento, a solidão e a amargura, como que por praga, tomaram conta dela. A loucura chegou.

Certo dia, depois de se ter visto no espelho, ela entrou em pânico e gritou: "O espírito da minha mãe está cá no meu quarto. Por favor, me ajudem! Chamaram o dono do Lar e adivinhem quem era? Exactamente, o Carlos. Quando ele entrou na sala, ela de imediato o reconheceu e disse: - "Carlos, meu amigo de infância, meu colega de sala no Liceu Ludgero Lima. Filho de nhe Juninha, por favor, ajuda-me. Carlos, com a sua mansidão que o caracteriza, respondeu: -"Já lembraste de mim?".
- "Sim. Claro que me lembro sr. Diretor. Por favor, tira-me desta loucura."

Carlos pegou-lhe pela mão, meteu-lhe no carro e levou-a até o cemitério, exactamente na cova da sua mãe. Ela caiu de joelhos, em cima da campa da mãe Teresa, chorou muito. Pediu perdão por ter sentido vergonha dela, por não tê-la ajudada quando mais precisava, por não tê-la visitado no hospital quando ela estava doente, por não ter comparecido no funeral dela. Sabia que já era tarde. Sabia que não conseguiria dar o tempo para trás mas, podia concertar muita coisa.

No dia seguinte pediu ao agora amigo Carlos, que a levasse ao tribunal, porque iria meter uma acção contra o filho, para poder reaver todos os seus bens. Meses mais tarde, o tribunal deu-lhe direito à todos os seus bens.

Em memória da sua mãe, ela abriu um lar de idosos com o nome "Mãe Teresa". Ela recebia os idosos de graça na sua instituição. Até ela dava horas de serviço no lar, para poder ajudar os idosos e quem sabe, redimir-se um pouco.

Mais tarde criou também uma casa, onde recebia crianças desfavorecidas para ajuda-las com alimentação, estudos, mas principalmente, na transmissão de valores morais, ensinando-as a amar a si próprias mas principalmente a amar os seus familiares. Colocou a casa o nome de "Amor de mãe."

Marlene estava a sentir-se quase completa. Certo dia, chamou o Carlos para passearem no parque de "Nhô Roque". Lá, sentados numa cadeira, ela agradeceu o Carlos por ter-lhe mostrado o sentido da vida. Por ter-lhe ensinado que a vida é muito mais do que vaidades. Que a vida tem um propósito nobre, que é de sermos felizes junto com os nossos familiares e amigos, quer pobres ou ricos. Que não devemos desprezar ninguém.

-"E é por isso Carlos, que eu tenho um convite para ti." Disse ela.
-"Queres ser feliz? Queres casar comigo Carlos?"
Carlos desconfiado, fez-lhe a mesma pergunta que lhe tinha feito há muitos anos atrás no restaurante:
-" Lembraste de mim, Marlene?"
- Sim. É claro que lembro-me de ti Calú. "Bô també bô tem uns cosa, hein."

Marlene olhou-lhe bem nos olhos, com lágrimas, sorriu e deu-lhe um beijo demorado.

-"Casas comigo Calú?"

Carlos, com um ar aliviado, de quem tinha visto uma grande mudança de atitude na Marlene, respondeu-lhe:

- "Se fosse há uns anos atrás, eu diria que não. Mas hoje, eu digo Sim."

E Marlene, sorrindo disse:

- "Ó Calú, mosse, Bô é parv."

Levantaram-se e de mãos dadas, continuaram o passeio pela Avenida Marginal, agora, na esperança de uma vida longa e feliz.

(César Fortes - 12/12/2019)

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