quarta-feira, 29 de abril de 2020


A AVENTURA DO GALO NA CAPITAL DE CABO VERDE – PRAIA
Chegou o grande dia para levar o galo para visitar a capital de Cabo Verde. Entramos no táxi do senhor Eliseu e ele cuidadoso que é, perguntou-nos se tínhamos todos os documentos em mãos para que não tivéssemos nenhum percalço na viagem. E lá fomos nós, rumo ao aeroporto de São Pedro. Fomos com muita velocidade porque já faltavam poucos minutos para fecharem o vôo. Fizemos o "check-in" e rapidamente, fomos para a sala de embarque.

Quando passamos no controlo de segurança o alarme disparou exatamente quando o galo ia passar. Ele ficou aflito e começou a cacarejar bem alto. Foram apalpa-lo e detectaram a anilha de identificação na pata dele. Quando passaram a anilha pelo computador conseguiram ver a identificação: (Galo "mussim" de R.Bote) e depressa mandaram-no passar. Não há quem resista à um galo de Ribeira Bote. Já na sala de embarque, ouvimos a senhora do microfone anunciar, com aquela voz suave: -"Vamos dar início ao voo 3B 819 da Binter. Passageiros com crianças, idosos e galos, têm prioridade." Fomos os primeiros a passar em direcção ao avião.

Atravessamos a pista toda, a pé, até chegar no avião. O vento estava forte e levantava as saias das senhoras. O galo estava a ser arrastado pelo vento. As asas abriam, dificultando a caminhada. E o galo perguntou:- "Porquê é que neste aeroporto já não transportam as pessoas de autocarro?"
Eu já estava a achar demorado as perguntas do galo.
- "Bom galo, é o seguinte, ouvi dizer que a distância é tão pouca e que nem todos os vôos coincidem com a hora de trabalho do condutor. Ouvi dizer também, que o vento já é um produto turístico de São Pedro e como tal, deve ser sentido na chegada e na partida dos viajantes inclusive pelos nacionais."

Entramos no avião e fomos para os nossos assentos 1E e 1F. Eu, particularmente, não gosto nada de sentar nestes lugares porque ficamos de costas para os pilotos e de cara para todos os passageiros. O avião, assim como a maioria das casas nesses dias de verão, estava com muitas moscas. Tive a sorte de ficar de caras com o meu amigo Gu, que não via há muito tempo. O piloto parecia estar com pressa, percorreu a pista, fez a curva no fim da pista, e sem parar, continuou acelerando e quando atingiu a velocidade necessária, decolamos.

De lá de cima, dava para ver a nossa casa. O dia estava lindo e o vôo estava perfeito. Já perto da cidade da Praia, o comandante de bordo interrompeu a música: -"Senhores passageiros, dentro de momentos, vamos dar início a descida para a cidade da Praia."
Nesse mesmo instante, a porta da cabine abriu-se e saiu um co-piloto que foi em direção à casa de banho. E o galo perguntou-me: - "Ó humano, nestas horas, não é suposto que o co-piloto esteja auxiliando o comandante?"
E eu tentando acalmar o galo, respondi-lhe:-"Ó galo, ele deve estar com diarreia. Nestes dias de calor, quase toda gente está com diarreia. E pilotos também são gente."

O avião começou a dar saltos, perdendo altitude. O galo, com medo, perguntou: - "César, agora, fiquei com uma dúvida. O comandante disse que iriam iniciar a descida ou era uma caída para a cidade da Praia?"
Neste momento de aflição, em que todos já estavam suando de medo, e certamente, os que estavam com diarreia, já teriam feito outra coisa no assento, eis que sai da casa de banho, o co-piloto com ar assustado, com uma garrafa nas mãos, que certamente seria água de oralite e com passos apressados foi para a cabine.

De cinco em cinco minutos descíamos ou caíamos alguns metros. Foi alí que o galo fez mais uma pergunta: - "César, achas que é possível estar um piloto estagiário lá na cabine?" E eu, para acalma-lo, respondi: -"Acho que não. Podes ficar descansado. Tudo vai correr bem".
Bom, só não lhe disse, se seria "bem mal ou bem bom. Eu já estava a ficar assustado também.

Começamos a ver a pista e animamos. Fomos aproximando cada vez mais da pista e o galo perguntou: - "César, a esta altura já não deveriam ter descido o trem de aterragem?"
E eu para tranquiliza-lo respondi-lhe:
"Hoje em dia, tudo está automaticamente controlado. Podes ficar descansado." Mas para falar a verdade, eu também não ouvi o trem de aterragem descer. Comecei a ficar com medo.

Fomos descendo, descendo, até ficar a menos de 10 metros da pista, pois, já estávamos a altura dos pavilhões do aeroporto. A aeromoça já estava sentada ao lado de nós. Já todos estavam com as mãos preparadas para quando avião aterrasse, para darem palmas. Tal foi o nosso espanto, o avião começou a acelerar pois decidiram abortar a aterragem. Aceleraram com toda a potência do avião mas nada adiantava. De onde eu estava, eu via a cara assustada de todos os passageiros.

O silêncio tomou conta do avião. O galo, com a crista levantada, tinha perdido a fala. O meu amigo Gu segurou a mão da sua esposa e olhou para ela como quem estava a despedir-se. Eu era o único no avião que estava a sorrir, pois, eu já passei por tantos problemas nos aviões que pouco ou quase nada já me assusta. Mas por instantes pensei. É agora que vamos cair. E ainda mais, estando no lugar n°1, eu seria dos primeiros a partir desta para melhor.

Normalmente, as aeromoças, nestes casos, ficam calmas e sorridentes, como quem quer dizer:
"Não se preocupe, vamos cair , vamos morrer, mas em segurança, tudo vai correr bem, não se preocupe." Mas não era o caso da aeromoça que estava do meu lado. Vi para ela e ainda estava com o cabelo em pé e assustada, como se tivesse visto um "Canelinha".

O avião lá conseguiu atingir uma boa altitude. Já no ar e fora de perigo, ouvimos uma voz que interrompeu o estado de filme de medo e pânico que se tinha instalado no avião. -"Senhores passageiros, daqui vos fala o comandante, J.Soulé. Tivemos que abortar a aterragem porque havia um pássaro sentado na pista. Muito obrigado."

Quando o galo conseguiu recuperar a voz, ele gritou bem alto: - "Um Pássaro na pista, sr. Comandante?! Só se for um Pardal, hein? Pois àquela altura que nós já estávamos, as hélices destruiriam qualquer pássaro. Sem esquecer que o maior pássaro que ainda temos são as garças brancas. Com todo o respeito sr comandante, mas esta desculpa cheira-me a bosta do pássaro. Vocês esqueceram é de descer o trem de aterragem. Porquê não falam a verdade?" Tentei acalma-lo mas ele não queria saber.

O avião fez a volta para fazer uma segunda tentativa. Na descida, outra vez, todos estavam apreensivos e com medo. Para completar o ambiente sombrio, nos altifalantes do avião, ouvíamos o Ildo Lobo a cantar a música " na dispidida..." e logo a seguir colocam Mário Lúcio a cantar "bai bai". As músicas não estavam a ajudar. O galo ainda assustado, diz para a aeromoça: - "Por amor de Deus, vocês devem trocar estas músicas fúnebres, que vocês colocam em todos os voos, na hora de aterragem. Devem colocar uma música alegre, que inspira confiança. Porquê não colocam um "Kutchi pó"?" E todos o aplaudiram.

Desta vez sim, ouvimos o trem de aterragem descer. O avião bateu com as rodas na pista com tanta força que assustou os passageiros. Rapidamente travaram como se estivessem com medo de ultrapassar a pista. E o galo gritou: - "Agora, puxaram até o travão de mão." E todos riram.

Depois de tantos problemas, chegámos a maravilhosa cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Entramos num táxi e no caminho o galo gritou: -"Com tantos táxis novos e bonitos, tínhamos que entrar exatamente neste esburacado e velho?!"
Mais tarde fomos passear na Achada de Santo António mas, o galo não gostou muito por ver tantos lugares de churrasco a cada 5 metros, nos passeios. Por ser um galo, dá para compreender. Ao que ele me disse: - "Irias gostar de uma local onde estivessem a grelhar humanos a toda hora? Pois, eu sinto-me ameaçado e a qualquer momento posso acabar numa grelha."
-"Compreendo-te galo, mas para mim, Achada de Santo António é um dos bairros mais interessantes de Cabo Verde, claro, só depois de Montsú."

O galo ficou fascinado com o pequeno parque infantil montado perto da Presidência da República. Tem quase tudo. Não encontramos igual em S.Vicente, onde montam estes parques com carrinhos e insufláveis somente no dia 1 de Junho e no Natal. "Porquê?" Pergunta o galo.

O galo ficou ainda mais fascinado quando entramos nos autocarros da "Sol Atlântico" que têm até elevador de cadeiras de roda para dar acesso aos cadeirantes. Disto também, ainda não vi em São Vicente.
Passamos pelo Praia Shopping, onde tem até cinema que podemos assistir filmes em 3D. Outro “level”.
Palmarejo é espetacular, Tarrafal um regalo e Assomada é um encanto. Mas por outro lado, visitamos a zona de Bela Vista, Alto da Glória embora a crescer, ainda precisa de muita coisa.
Era hora de voltar para Mindelo. Na viagem de volta, tudo correu às mil maravilhas.
Mas como sempre, atento como é, o galo fez as seguintes observações:

1-Praia está cheio de carros como nas grandes cidades. O trânsito está a ficar saturado.
2- Praia ainda tem táxis-clã a vontade;
3-Porquê é que as senhoras de limpeza nos aeroportos, nas horas de vôo, estão sempre colocando sinais de interdição de entrar nas casas de banho, porque vão fazer a limpeza das mesmas?
4- O aviso de "não abandonar a bagagem" no aeroporto da Praia, é emitida de 20 em 20 minutos nos altifalantes. É excessivo. Imagina quando os vôos atrasam.
5- Já se pode andar nas ruas da Praia sem problema de segurança;
6-Porquê um pacote bolacha que custa 50$00 na mercearia, no bar do aeroporto da Praia custa 300$00? “Cá dimaz”? Todos os produtos estão com preços exagerados;
7-Porquê que na maior parte dos restaurantes, hiaces e táxis não têm recibos? Sempre dizem: -"recibo cá stá."
8 - Porquê as escadas rolantes só funcionam na chegada e não na partida? É só para agradar a quem chega? Ou é poupança de energia?
9-Porquê que os balcões de “check-in”, sempre têm uma pessoa só, no atendimento?
10- Porquê um táxi é mais barato na Praia do que em Mindelo? E porquê autocarro é mais caro?
11- Porquê não colocam tampas ou grades em cima das valas laterais, na estrada ao lado do Praia Shopping? Qualquer dia um carro pode cair dentro dela.
Independentemente de tudo isso, eu, o galo "mussin" de Ribeira Bote, afirmo sem dúvidas que Praia é "ote Level", sim senhor. É assim ou não é assim, César?
- "É assim, sim."

(César Fortes - 2/10/2019)

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