quarta-feira, 29 de abril de 2020

A PAIXÃO DO SARAMPO


(Em Homenagem à nossa amiga Lutcha Mendes)
Em 1982, Cabo Verde foi assolado por um surto de Sarampo e como eu não era de ferro, também eu, contraí a doença.
Certo dia de manhã, eu estava com febre alta, comecei a vomitar e minha mãe detetou logo que era Sarampo. Ela apressou-se para levar-me ao hospital. A fila de espera era grande, pois, quase todas as crianças estavam a apanhar a doença. Eu entrava na escola às 8 horas e quando era 9 horas ainda estávamos sem ser atendidos. Como criança, fiquei logo contente, pois, naquele dia eu iria faltar as aulas e teria o dia todo livre só para brincadeiras. Só fui atendido por volta do meio-dia. Quando a médica chamou o meu nome e entrando ela aplicou-me logo uma injeção. Foi ali que eu lembrei do texto do nosso livro de escola "Ngunga tem medo de agulhas".

Eu era franzino e não tinha muita carne. E a médica, com uns braços fortes, não teve dó de mim. Senti a agulha entrar e bater no osso. Saí do consultório a coxear de tanta dor.
Do hospital até a nossa casa em Ribeira Bote, não demorávamos mais de 15 minutos, mas naquele dia estava difícil. Minha mãe tentou carregar-me nas costas por alguns minutos, até chegarmos na sentina " mesa d'aga doce" perto de ponta de "Fi".
Ela cansada, colocou-me no chão para poder descansar. Quando vimos no relógio já era 12h45. Os alunos do liceu já tinham saído e muitos estavam a passar por nós, a caminho de casa. E neste exato momento eis que passa por nós a Lutcha de nhá Linda, uma das raparigas mais lindas da nossa rua. Ela virou e disse para a minha mãe: -"Ó nhá Maria, a senhora gostaria que eu carregasse o César nas minhas costas?". A minha mãe agradeceu e lá fui eu para as costas da Lutcha. Abraceia-a forte para não cair. Ela perguntou-me se eu estava bem. Respondi num simples "sim". Mas dentro de mim, a resposta era:"Como não estar bem? Estou a ser carregado por uma das meninas mais lindas da rua 10, por quem a maioria dos rapazes mais velhos, era apaixonado."

E eu uma criança de 8 anos, também apaixonado por ela, embora a nossa grande diferença de idade , pois, eu estava na primária e ela já andava no liceu. Naquele momento tinha conseguido um grande feito de abraça-la. Algo que os outros rapazes dariam o mundo para conseguir. Pensava eu.
Quando chegamos na nossa casa, no número 309, ela ainda ofereceu-se para dar-me uma canja de galinha que a minha mãe tinha preparada para mim. Eu não gostava muito de canja, mas vinda das mãos da Lutcha, comi a canja toda. Embora estivesse doente com Sarampo, naquele dia eu estava muito feliz.

Lutcha era irmã de Djão que era o nosso companheiro de jornada de brincadeiras. O pai deles, o senhor Sátir, era imigrante. Quando vinha de férias, trazia sacos de rebuçados "drops" que distribuía às crianças que passavam em frente a casa dele, mas com uma condição: tinham que cumprimenta-lo. Eu e o meu primo Sílvio, como já sabíamos desta regra, passávamos lá muitas vezes e dizíamos:
-"Bom dia, sr Sátir".

E ele, de lá da janela da sua casa, metia a mão no saco de "drops" e oferecia-nos alguns. E lá íamos muito felizes. Ele sempre dizia: "Vocês dois são muito educados". Também, pudera, passávamos muitas vezes ao dia, cumprimentávamos só para tomarmos os "drops".
Ele gostava de nós e nós as crianças da rua, gostávamos muito da família dele, principalmente da Lutcha.
(César Fortes - 27/5/2018)

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