quarta-feira, 29 de abril de 2020

HOMENAGEM À MINHA PRIMEIRA PROFESSORA, JOANA.


Estava eu prestes a completar 7 anos de idade. No dia anterior a minha mãe me tinha levado até a casa da professora Joana, que passaria a ser a minha professora. Eu estava muito ansioso. Era o meu primeiro dia de aulas. Eu me tinha preparado durante quase um mês para este dia.
Como a minha mãe não tinha dinheiro para comprar uma pasta nova, nem eu queria ir com um saco de plástico como pasta de escola, pedi ao meu primo Jorge Medina Miranda que me desse a pasta que ele tinha usado no ano passado. A pasta ainda estava em forma, apenas com alguns desenhos de Benfica feitos a caneta, mas nada que tirasse o brilho da pasta de couro, verde, escuro. A minha tia Joaninha que vivia em Angola, no verão nos tinha trazido alguns cadernos Sebenta e canetas Bic.

Naquele dia levantei-me bem cedo, a minha mãe deu-me um banho de água fria no quintal que não tinha maneira de ficar sem acordar. Vestiu-me uma camisola de riscas vermelhas e um shortinho de ganga que a minha madrinha Lurdes me tinha oferecido no Natal.

Tomei o pequeno almoço com uma caneca de chá de hortelã e uma brindeira e fui ter com a minha professora. A ansiedade era tanta que cheguei na casa dela na rua 9 em Ribeira Bote, às 6h30 e as aulas só iniciaram às 7h30. Entreguei uma encomenda que a minha mãe lhe tinha enviado, doce de côco. Ela foi arranjar-se e lá partimos em direção à minha escola, a escola de Ribeirinha.

No caminho, ela segurou-me a mão e como criança senti-me todo janota ao lado da professora mais bonita que eu conhecia. Para a minha mãe, era imperativo ir com a professora Joana para não me perder, mas para mim a intenção era outra, não podia perder aquela oportunidade de andar de mãos dadas com a minha professora pois, eu e o meu primo Silvio Miranda andávamos muito e Ribeirinha era o nosso quintal para todas as brincadeiras. Sabia o caminho de cor e salteado.

Quando chegamos na escola, sentei-me na terceira cadeira da fila do meio e a frente de mim lá estava a Edith Delgado a minha vizinha. A sala estava cheia de crianças que eu não conhecia e lá a professora começou a fazer a chamada: -"António, Nilton César Santos Soares, Naldino, Onildo, Otelindo Delgado, Maria da Luz, João, César... " mas eu não respondi porque eu estava a pasmar numa colega muito bonita, a Ivanilda. A professora deu-me um grito que logo respondi: "- Estou professora."
Na parede tinha várias letras e palavras coladas como é o caso de "A de Avião, F de faca, Q de queijo, I de Igreja, etc..." Eu estava animado para aprender.

No intervalo, fomos para a cantina tomar camoca, leite de saco e uma pera seca. Diziam que era para nos nutrir. No pátio enorme, fomos jogar futebol " mussim" contra "menininha". Escusado dizer quem ganhou.

Naquele tempo não tinha bullyng, tinha pasta na cabeça. Naquele tempo não tinha psicólogo, tinha lato. As crianças não eram mal educadas, mas gozavam com sr Julim que era um professor que tinha uma deficiência numa perna e coxeava. Gritavam em coro:"-Sr. Julim aquela cabra já pariu?" E ele respondia "-A cabra ainda não mas a tua mãe..." E vinha montes de palavrões. Ele tinha fama de ser rigoroso e bom professor.

Lembro-me certa vez que a minha professora Joana, pediu-nos que cada aluno fizesse um desenho a sua escolha porque iríamos participar numa exposição na escola. Fiz um tigre de riscas, talvez influenciado pelo filme indiano "Sandokhan". O desenho foi colocado no vidro da janela da sala e quem passava perguntava: " -Quem fez este desenho tão bonito?" E a minha professora respondia logo:"- É o meu aluno César." Sentia-me como um pavão.

Foi com a professora Joana que aprendi que o avião tem A, que a faca tem F e que o queijo tem Q. Foi com ela que aprendi a escrever "Amor" e que com amor podemos fazer um mundo melhor. Ainda hoje, passados muitos anos desde que ela partiu deste mundo para um mundo melhor, nutro um grande amor e respeito por ela.

Obrigado professora Joana pelas vezes que me corrigiu com palavras ou com a palmatória, quando foi necessário. Graças a ti, aprendi a ler, a escrever e a gostar de desenhar. Obrigado à todos os professores que eu tive até hoje. Com os maus professores, aprendi como é que não se deve fazer. Com os bons aprendi como se faz e segui os bons exemplos. Hoje sou um pouquinho de cada um de vocês.
Muito obrigado à todos.

FELIZ DIA DOS PROFESSORES.
(César Fortes 23/4/2019)

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