quarta-feira, 29 de abril de 2020

A FUGA DO NATALINO DA PRISÃO DE RIBEIRINHA


Minha mãe tinha pedido à minha irmã Zenaida que fosse comprar arroz na loja de “Nhô Jon Blok”, que ficava frente-a-frente à nossa casa. “Nhô Jon blok” era um senhor de bom coração e muito nosso amigo e sempre que nós íamos lá comprar, ele deixava a balança de pratos, pender para o nosso lado, de modo a ajudar, e ele sempre colocava um pouco a mais, pois, sabia das necessidades das famílias da Ribeira Bote.

Zenaida comprou o arroz, colocou-o dentro de uma lata de leite, colocou a tampa e saiu em direção á nossa casa. Na rua, ela ouviu um barulho, viu para a esquerda, lá para os lados de "Nhá Alice de Nhô Jorge" e percebeu logo que era algo muito grave. Era uma multidão descendo em correria. E a minha irmã Zenaida, curiosa como era, foi logo em direção à multidão para saber o que estava a passar, mesmo sabendo que a minha mãe estava a espera dela, para fazer o almoço. Ela ficou num dilema: Seguir a multidão ou ir fazer o almoço? Eis a questão.
Questão essa, que foi logo resolvida, quando a multidão passou por ela com tanta pressa, que não teve nem tempo para perguntar à ninguém. Zenaida não era mulher de levar dúvidas para casa e lá foi atrás da multidão em debandada.

No meio da correria, encontrou a sua grande amiga, a Nanda de nhá Mari de Valentin e perguntou ainda a correr:
-“Ó Nanda, o quê ti tá passa, menina?” E ela como fiel amiga, atualizou a notícia: “ Como bô cá sabê? É o Natalino que fugiu da cadeia e a polícia está a correr atrás dele”.

A Zenaida e a Nanda, gostavam muito de estar informadas. Era assim mesmo, pois, naquela época ainda não tinha facebook, a notícia tinha que ser apanhada em direto, caso contrário, correrias o risco de ouvir a notícia, já acrescentado um ponto.
Lá foram as duas inseparáveis amigas atrás da multidão. O polícia estava de arma ao punho, apontando para o Natalino que corria como um cavalo. Neste instante, o Natalino sentindo o perigo, fez uma curva para a esquerda, passou em frente à casa de nhá Mari de Antunzim e foi direto para a Ilha de Madeira, que ele sabia que conhecia os cantos a casa e certamente lá conseguiria fintar o polícia. O povo também lá foi atrás, tendo a Zenaida na cauda com a sua lata de leite cheia de arroz, que supostamente era para o almoço.

A zona de "Ilha de Madeira" naquele tempo, tinha as casas de lata bem organizadas, em ruas e enfileiradas. Natalino correu e ficou no fim da rua de "nhá Mari Leiteira" a espreitar. O polícia apontava a pistola na direção dele e ele se escondia como num jogo de gato e rato. Enquanto isso, algumas mulheres do meio da multidão, gritavam: -“Ah senhor polícia, por favor, cá bocê matal”.

O povo lá ia assistindo a perseguição, digno de um filme do “Far West”. O polícia iniciou uma nova corrida atrás do Natalino e assim foram passando de rua em rua. Natalino, percebendo que em breve seria capturado, resolveu fazer uma inversão de marcha, metendo-se no meio da multidão voltando assim a direção da corrida. O povo se afastou para deixa-lo passar pois, ele tinha fama de ser o pior fugitivo da época.
Mas Zenaida, ainda não tinha dobrado a esquina da casa de "nhá Carola" e nem tinha visto que o Natalino já tinha mudado a direção da corrida. Natalino vinha a correr e chocou com tanta força na Zenaida que ela caiu no chão e a lata com o arroz foi para as alturas. Toda a multidão vendo para a lata no ar, rodopiando lentamente, como num filme de câmara lenta, até bater no chão, espalhando o arroz, grão a grão. A Zenaida gritou:-“Ó nhá mãe ohhhh! Mim nhá mãe ti tá ba dam de lote”.

Mas a multidão não parou e pisando no arroz que estava no chão, lá foi correndo atrás do polícia que por sua vez perseguia o Natalino. Escusado dizer que o arroz que antes era branco agora estava castanho, tamanha foi a mistura com a terra. Algumas pessoas lá foram ajudando a Zenaida a separar o arroz da terra e coloca-lo na lata de novo. Todos pensaram que ela agora, iria direto para a casa.
Mas enganaram-se. Ela era determinada e não iria perder uma perseguição daquelas por nada deste mundo, quanto mais por uma lata de arroz. E lá continuou correndo ao lado da sua amiga Nanda, para ver qual seria o desfecho da perseguição.
Lá em casa, a minha mãe vendo a água para o arroz a ferver, começou a se preocupar. Saiu, foi até a loja de “nhô Jon Blok” à procura da Zenaida mas “nem fumo nem mandado dela”.
Natalino já estava cansado mas não parava. Viu para a direita e o portão do quintal da casa de “nhá Mari de Valentim” estava aberto. Ele ofegante, correndo, atravessou o quintal e foi sair na porta da frente, que dava para a rua 10, mesmo em frente à loja de “nhô Jon Blok”.
“Nhá Mari de Valentim”, com o seu canhato na boca, ouviu o barulho de alguém a correr dentro do seu quintal e gritou:
-“Quem é bô criston de Deus?” e o polícia que vinha logo atrás respondeu: “É um fugitivo da cadeia, o Natalino”.
Lá foi ele, saindo pela porta da frente, enquanto ela perguntava de novo:

“Quem bocê dzê?”.
E neste momento, quem já estava a invadir a sua casa era a multidão que também não parou e atravessou pelo quintal. E Nanda, juntamente com a Zenaida, no fim da multidão, sem parar respondeu:

“Ó mãe é o Natalino, que fugiu de cadeia. ”

E lá foi a multidão, atravessando a casa e saindo na porta da frente. "Nhá Mari de Valentim", incrédula, ficou algum tempo com a boca aberta e o canhato caiu no chão. Quando recuperou o fôlego, gritou:

“Ó nhá filha Nanda, bô conde m’petobe mon, bô ti tá bem oiá boi.” Mas Nanda não parou.
Quando a Zenaida atravessou todo o quintal e saiu na porta da frente, encontrou logo o polícia algemando o Natalino, mesmo em frente da loja de “nhô Jon Blok”. A Zenaida voltou exatamente ao ponto de partida. Tudo tinha terminado. O barulho na rua era ensurdecedor. O povo batia palmas de alegria.

Desta vez, o polícia saiu vencedor. Quem saiu perdedora foi a Zenaida que, com a sua latinha de arroz, debaixo do braço, lembrou que tinha ido comprar o arroz para o almoço há quase uma hora atrás. Neste exato momento, com os olhos na direção da nossa casa, viu a porta se abrir e a nossa mãe aparecer com um lato de três pernas de cabedal. Ela já sabia o que lhe esperava. Puxando a Zenaida pelo braço, meteu-a dentro de casa. Lá dentro, parecia um baile. Minha mãe batendo com o lato e a Zenaida saltando, fazendo piruetas, tentando fugir do lato.
Depois das latadas a Zenaida subiu para o terraço chorando e nós, eu e a Vanda, fomos atrás dela tentando consola-la e também para saber mais detalhes da perseguição. E cansada, vendo para as marcas que o lato deixou nas suas pernas, sorriu, contente e disse:

“Ó que perseguição infrontode, mas sabe prop, sabe pá fronta. M’podê atê tomá de lato, mas vi tudo ao vivo. Ninguém me contou. Eu estava lá.
Óh que sabura!”

(César Fortes - 02/06/2018)

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