Era algo maravilhoso. Começávamos a limpar desde da ponta da casa de Nhá Montinha até a ponta de “Fí”. Íamos apanhando o lixo e colocando em sacos de larau. A campanha era uma grande oportunidade de todas as crianças da rua estarem juntas. O nosso grupo era grande. Da casa de Nhá Montinha tínhamos o Nelson e Tiny, embora mais crescidos, participavam também. Depois tínhamos Zé e Didi, que já eram da nossa geração.
Os meus primos, os gémeos, Paulo e Jorge, Sílvio da tia Rosa, Jair de Nhá Maria de Lourdes, Valdemar de Nhá Alice, Djão de Nhá Linda, Nelson de Ya, companheiros de todas as jornadas, de todas as brincadeiras. Ainda tínhamos o Rogério de Lídia, os netos de Nhá Sabina, o Johnny da Nhá Memente, Paulo e Mayuka de Nhô Jon Block. Todos eles, eram os nossos colegas de brincadeiras na rua 10. Eu, César de Nhá Maria de Vinha, meu irmão Joselito, as minhas irmãs Zenaida e Vanda, não podíamos faltar.
Ajuntávamos o lixo na rua e esperávamos agora que Nhô Toy de Nhá Montinha fosse buscar o seu caminhão, um Opel Blitz de 1972, para ser carregado com todo o lixo da rua. O divertimento era pegar os sacos e atirá-los para cima do caminhão. Depois de termos carregado todo o lixo, ele mandava todas as crianças subirem para o caminhão e nós, todos felizes, lá íamos a cantar "olê, olê, olê, olê", batendo palmas à caminho da lixeira. E assim proporcionava-nos, um grande passeio uma vez em cada mês.
Na lixeira, meu primo Jorge de Mana, que tinha vindo de Santo Antão havia pouco tempo, encontrou um bule e levantando-o para o ar perguntou bem alto, na língua de Sintanton:
- "quem cré kefê?"
Todos começaram a rir e Zé de nhá Montinha começou a gozar com ele. Jorge de Mana não gostou da brincadeira e iniciou uma briga com o Zé. O Zé descarado como era, continuou a gozar gritando "Jorge kefê , Jorge Kefê". Lá surgiu o nome pelo qual o Jorge ficou conhecido até hoje.
A lixeira de Ribeira de Julião ficava longe e era um bom passeio de carro. Para nós, era uma alegria, pois, não era todos os dias que andávamos de carro. Respeitávamos muito Nhô Toy por isso, e ele compreendia-nos como crianças. Na vinda para casa, ele fazia agora um trajeto um bocadinho longo, só para dar-nos um passeio de carro. Quando chegávamos na rua 10, tínhamos agora a parte final da brincadeira que era lavar o caminhão.
Nhô Toy ligava a mangueira da casa dele e dava para um de nós segurar. Era uma disputa para segurar a mangueira, porque quem ficasse com a mangueira, atirava água para cima do caminhão e para as pessoas que estivessem por perto, de propósito, claro. Desde que o caminhão ficasse brilhando, Nhô Toy não se importava, quanto mais nós! No fim, ele metia o seu caminhão na garagem e nós voltávamos para casa todos molhados mas felizes. Para nós, rua 10 era um parque de diversão onde divertíamos muito e tínhamos um espírito de solidariedade.
O dia de campanha de limpeza na zona de Ribeira Bote, principalmente na rua 10, era uma alegria geral.
(César Fortes - 15/01/2019)


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