-"Como prenda posso oferecer-te uma história contada por mim e que aconteceu na minha zona?" Claro, amigo galo. Vá, conta a história.
O galo gaguejou um pouco e depois soltou a língua.
Nádia, meninha de Fonte Inês, estava prestes a completar os seus 15 anos. Foi eleita miss no seu Liceu. Embora os seus pais e professores já a tivessem alertada dos perigos da vida, mas ela, não queria ouvir, alegando saber tudo, porque estamos no século XXI e aprende-se tudo na internet. Nádia ficou grávida no primeiro dia que conheceu o Michel, filho de um grande empresário da rua de Lisboa. Na sua inocência, pensava que na primeira relação sexual não tinha nenhuma chance, de se engravidar. Ela culpando os outros, dizia:
"Ninguém me disse nada sobre isso antes".
O filho nasceu e colocaram-no o nome de Inocêncio. Coitado do menino. A mãe é que deveria ser chamada de "Inocência".
O pai Michel, não perdeu tempo e deixou a Nádia com a criança e foi atrás de uma outra miss que tinha exibido o seu corpinho no último concurso em Ribeirinha.
Chegou o dia para levar o Inocêncio ao PMI. A consulta era às 8h mas Nádia, como uma jovem sem responsabilidade, levantou-se às 10h30 e não conseguiu chegar a tempo na consulta. E ainda, com muita lábia, disse para a enfermeira:-"Credo ohm! Quel dotor cá podia esperá uns minutim?! Que país é esse que não valoriza os jovens?"
Creio que Nádia deveria ter como apelido, "Descarada".
O filho foi crescendo raquítico, porque Nádia nunca mais levou-o para o controlo e Planeamento Materno Infantil porque, segundo ela, "ela cá tá levá abuso de nenhum doutorin. Mim é "inteligenta" e msabé tma conta de nhá fidje mim só."
Dias depois, Nádia, com o filho na mão, passando na rua de Lisboa, teve um desgosto de ver o Michel, sentado com a recém-eleita, a miss de Bela Vista, que certamente, seria mais uma que iria enganar. Nádia fez o sinal da cruz e disse " Bô podê bai, quê pá frente é qué pá diante". Não entendi, foi nada. Mas mesmo assim, a Nádia decidiu que a partir daquele dia ela iria mudar a sua vida.
Em passos apressados, ela só parou na vitrine na loja do "Djibla". Leu ou soletrou todos os anúncios de emprego que estavam lá colados, mas num tom de troça, disse: "Rececionista, garçom, empregada doméstica, caixa?! Esses empregos de pobreza li? Mim nhá mãe parim pam ser grande na vida. Quem viver, viverá. Kkk".
E na saída, o papagaio do Djibla respondeu-lhe:-"Óh Nádia já bô cabá na Nada!"
Escusado será dizer a descompostura que ela atirou-se ao papagaio. Como todo o bom papagaio faz, ele repetiu tudo de volta. E a Nádia, afrontada, saiu do local em direção à "Ponte D'aga" para comprar um bilhete que lhe daria um livre acesso à festa de Branco e a todas as festas nos meses seguintes.
Ela, a cada noite pedia favores à familiares e vizinhos, para tomarem conta do filho, porque ela dizia que "a vida é uma festa e o momento é este." Deixava o filho para trás, nem se incomodava e ia feliz porque a festa prometia ser "daquel bom".
O tempo passou e era o primeiro dia de aulas para o filho. Nádia foi levá-lo à escola, entrou dentro da sala, sentou na cadeira junto do filho, tirou fotos para colocar no facebook:"#não consigo deixar o meu filhinho na escola, longe de mim. Como vou aguentar estas 4 horas? Não sei como vai reagir o meu bebé #." Disparate de Nádia, que na hora das festas que duravam a madrugada inteira, não ficava triste. Certamente, o filho comportar-se-á da mesma forma quando foste para a discoteca.
Cansada da vida, por não ter oportunidades por falta de competência, decidiu criar uma associação de alguns jovens do século XXI. Colocaram-no o nome de "O mundo está ao contrário".
Elegeram como hino a música " Ninguém cá tá mandá na mim."
De facto, era verdade. Ela tinha razão, já ninguém mandava chamar a polícia quando perturbavam na zona; ninguém mandava-lhes dormir na hora, estudar, raciocinar ou procurar trabalho. Os jovens achavam a vida difícil e se fossem contrariados, ameaçavam os pais com suicídio. Se alguém tentasse ensinar-lhes algo sobre valores ou caráter, os jovens caíam-lhe em cima. Já não queriam cuidar do próximo. Tudo o que faziam, tiravam uma "selfie" para alimentar o egocentrismo e mostrar ao mundo no facebook, o tão bom que eram. Falavam muito alto porque estavam sempre com auscultadores nos ouvidos para não ouvirem conselhos de ninguém.
Destruíam tudo o que é do estado porque, como dizem, tudo é nosso, esquecendo que é de todos mas não só deles.
Não gostavam da escola por não lhes dizer nada.
O radicalismo vendia-lhes o anarquismo como ideologia e como sonho tinham uma mão cheia de nada.
Não sabiam escrever, não entendiam nada de informática mas sim de Facebook e jogos "on-line". Mas se fossem pedidos para escreverem uma carta para pedir emprego, não sabiam usar o word, não sabiam encontrar o nome da empresa que colocou o anúncio de emprego. Não sabiam "scanear" um documento mas sabiam sacanear o colega. Não sabiam nem como imprimir uma folha.
Não sabiam onde tirar o bilhete de identidade, não sabiam onde era o registo, o cartório, a casa do cidadão, delegação do ministério da educação para procurarem uma bolsa de estudo. Nunca foram ao centro de emprego IEFP para procurar um emprego, porque os pais sempre lhes deu esses expedientes na vida.
Enfim, esses jovens dessa associação, eram Analfabetos no século XXI.
Drogas, doenças, prisão e morte chegaram como soluções.
Os jovens da associação "O mundo está ao contrário" e que tinham o lema "Ninguém cá tá mandá na mim", criticavam os políticos, os médicos e os professores. Criticavam tudo e todos mas, não tinham estofo para suportar as críticas dos outros e entraram todos em depressão. Frustraram-se.
Certo dia, quando Nádia estava com um turista nas traseiras do "Pelourinho de Peixe", eis que surgiu a sua professora da primária que lhe gritou:"óh menininha, largá esse vidinha da mon". E depois de uma longa conversa com a sua professora, Nádia resolveu acabar com a associação.
Reconciliou-se com os pais, foi consultar o filho e aproveitou para se matricular na escola de novo. Hoje já não critica ninguém. Já ouve conselhos dos mais experientes. Deixou as drogas, aceitou o primeiro emprego e agora quando passa na rua de Lisboa, o papagaio do Djibla grita-lhe:-" Óh Nádia bô era estanhadinha mas agora bô ta esticadinha hein?".
Kkk maldito papagaio.
No fim, o galo virou para mim, com um ar radiante e disse: - "Mas ainda bem que temos oportunidade de mudar. Que os menos experientes aceitem os conselhos dos mais experientes. Que possamos ajudar uns aos outros. Fazendo assim, todos nós sairemos a ganhar e a nossa sociedade melhorará, certamente."
Muito obrigado, querido amigo galo, por este presente de aniversário, por esta bela história da nossa realidade.
(César Fortes - 19/10/2019)



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