quarta-feira, 29 de abril de 2020

O SONHO NA QUARENTENA


2021, Um Ano Depois do "Covid 19" ter passado.
A pandemia passou.
Que alegria nas ruas.
Desci para passear na cidade do Mindelo e passei perto do Palácio do Povo, senti vontade de chupar um "drops". Encontrei uma senhora vendendo num balaio. Na hora de pagar, ela foi logo dizendo:-"mim m'ta recebé só com cartão. Tcham bai logo ta dzeb."
Ninguém já quer receber dinheiro. As coisas mudaram.

Fui para a rua de Lisboa e vi pessoas se abraçando como nunca tinham feito. Davam abraços apertados e davam mais e mais, só para matar saudades.
Os supermercados, de novo, estavam cheios de gente. Já ninguém queria saber mais de papel higiênico.
Passei perto do prédio da direção de trabalho, e percebi que estava cheio de processos disciplinares, porque alguns já não querem voltar para o trabalho.

Constatei que os nossos velhos já não querem sair de casa, pois, ficaram traumatizados com o corona.
Percebi que a China, agora é a maior potência do mundo. A América perdeu a sua hegemonia.
Foi reeditada a história de "Alibaba e os 40 ladrões" para simplesmente " Alibaba", em homenagem ao criador da loja online "Alibaba", Jack Ma. Pois, desta vez, nem os 27 e nem os 40 ladrões ajudaram. Todas as vendas online passaram a ser realizadas, unicamente, por esta loja online. As outras faliram.

Entrei numa farmácia e vi que já fazem promoção como "compra 1 paracetamol e leva 1 álcool-gel e 2 máscaras de graça". Antes, nunca tinham estes produtos disponíveis.

Na Morada, vi que o comércio se reinventou e surgiu novas casas comerciais, como por exemplo: "O Gelfalso"; "A Máscara" e "Alho 1000".
Nove meses depois da pandemia, nasceram muitas crianças com nomes estranhos, como por exemplo: Álcoolgelson de Oliveira e Covidson da Cruz.
Passei pelas bandas de Chã de Cemitério e vi que, também surgiram novas funerárias como a "Tude pa rápido" e " Bai bô sô".
Cansado de tanto andar, sentei-me numa pracinha de uma casa em Monte Sossego e através de uma janela, consegui ouvir um rádio que estava sintonizado na Rádio Nova, que dizia que a música do Jorge Neto " Sem ninguém" foi eleita a melhor música do ano, talvez porque o povo já estava muito tempo "sozinho e isolado".

Declarou-se também, que a palavra mais procurada no google este ano foi "Corona" e em segundo lugar foi "papel higiênico". Não se sabe o porquê.
Entrei num autocarro, e vi que já pouca gente anda nos transportes públicos, tudo por culpa da doença que arrasou o mundo.
Já não há "cassubody" porque se alguém vier assaltar-te é basta espirrar que ele foge.
Entrei na rua de " Matijim" e vi que já vendem um "grogue" engarrafado, que colocaram o nome de "Covid". Talvez pela sua má qualidade na produção que é capaz de matar.

Continuei a caminhada até Laginha, onde em pleno verão, estava deserta, sem ninguém. Todos ficam no calçadão, com receio de descer na praia.
As discotecas estão vazias. Fazem promoção, oferecendo cartão para um mês de entrada grátis, mas mesmo assim, ninguém vai.
Os namorados já não se abraçam. Beijos agora, dizem eles, só depois do casamento. Agora, até para casar, têm que fazer um acordo pré-nupcial, onde consta, obrigatoriamente, uma lista de vacinação.

Já ninguém vai para os enterros e ninguém dá pêsames. Agora guarda-se a distância social. Triste mesmo.
O festival da Baia foi suspenso logo no primeiro dia por falta de público. Ainda o povo tem medo de se juntar.
As escolas nunca mais foram abertas. As aulas, agora, são dadas todas, via internet.
Constatei que, o governo apostou forte na saúde e temos agora hospitais de ponta em África.

Muitas pessoas ficaram deprimidas por conta da quarentena. Muitos psicólogos, abriram agora mais clínicas.
Os cafés e restaurantes estão, de novo, cheios. Os turistas já, estão outra vez, nas nossas ruas, apreciando a nossa morabeza.
Os idosos, de mais de 65 anos de idade, já têm um estatuto especial para serem tratados em primeiro lugar, nos hospitais.
Os médicos foram condecorados com a ordem de "Amílcar Cabral" por terem sido uns heróis na luta contra o "Coronavirus" e passaram a receber igual a um jogador de futebol.

Hoje, passado um ano da epidemia do "Covid-19", o mundo está a começar a se erguer da recessão, causada pela crise que veio logo a seguir.
Verifiquei que muitas pessoas passaram a acreditar em Deus por terem superado a Covid. O que é bom.

Hoje, vejo um Cabo Verde melhor, que com uma população forte e dedicada, conseguiu lutar e ultrapassar o "Coronavirus".
Depois disto, nada ficou como dantes. Mas mesmo assim é continuar para frente.
E no confinamento, 3 grandes músicas me ajudaram a aguentar com fé e me fizeram preservar até que a crise do virus passasse. Foram elas:

1° "Sem Ninguém" (Jorge Neto) https://youtu.be/oVNQU1V2FfU
2° "Jerusaléma" (Master KG) https://youtu.be/fCZVL_8D048
e 3° "Bai"(Soraia e Lisandro)
https://m.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=sJ9Y2Un5VBQ

Ao ouvi-las fico arrepiado.
Ainda bem que o Coronavirus passou. "Bai" e nunca mais volte.

(César Fortes - 29/03/2020)

"AS RIQUEZAS DE MARLENE"


Marlene nasceu em Bela Vista, uma zona nos subúrbios de Mindelo. Morava numa casinha de tambor, humilde e aconchegante. A noite podia ver as estrelas nos buracos da chapa de zinco, que servia de teto. Ela cresceu na pobreza mas, com o objectivo de estudar e vencer na vida, porque um dia iria ajudar a mãe e os irmãos.

Ela cresceu e foi estudar no Liceu Ludgero Lima. No primeiro dia de aulas, ela foi com a bata branca que a irmã já tinha usado, anos atrás, no seu tempo de liceu. A mãe teve que descoser a bainha, para que pudesse adaptar ao tamanho da Marlene. Com muito esforço, a mãe conseguiu arranjar-lhe um chinelo de borracha, que vendiam na "loja Benvindo", para que ela não fosse descalça.

Marlene, um pouquinho tímida, sentou-se na mesma carteira que o Carlos, um rapaz de Ribeirinha, também ele, filho de pobreza mas com um ar feliz. Carlos cuidava da Marlene e brincavam muito no intervalo de cada aula.

Quando a Marlene, nas brincadeiras, era rejeitada pelas filhas de ricos, metidas a besta e arrogantes, nestas horas, lá estava sempre o Carlos para a consolar. Foram crescendo e cada um foi cursar num país diferente. Carlos foi para o Brasil e Marlene foi para Portugal. Os anos foram passando e nunca mais tiveram notícias um do outro.

De volta à ilha, Carlos ouviu dizer que, Marlene estudou Direito em Coimbra e hoje é uma advogada de renome na cidade. Um belo dia, os dois se encontraram num restaurante e o Carlos foi com os braços abertos a correr, cheio de alegria, para cumprimenta-la mas a Marlene já não o reconhecia. Por momentos, Carlos pensou, que a Marlene estava a brincar mas, ela estava mesmo a sério.

Carlos tentou ainda fazer-lhe recordar de alguns colegas que brincavam juntos no intervalo, mas ela somente lembrava dos filhos de pais ricos mas, os filhos de pais pobres, ela disse que nunca foram da mesma sala e que, de certeza que o Carlos estava equivocado e que nunca nem eles e nem o Carlos foram da mesma turma. Carlos sentiu-se humilhado e saiu de perto da Marlene. "Como era possível?" Pensava Carlos.

Ela estava crescida, enriquecida e apagou as memórias do passado da pobreza e principalmente da sua origem humilde, que ela escondia.

Como uma das melhores advogadas da cidade, ela agora ganhava muito bem, comprou um lindo carro e uma bela casa. Marlene nunca ajudou a mãe como disse que faria. Ela visitava a mãe, somente no Natal. Chegava perto da casa de tambor da mãe, em Bela Vista, telefonava-a para que ela fosse até o carro, para ir buscar a prenda que ela tinha para ela.

A mãe triste, tomava a prenda e pedia a Deus que abençoasse a filha e que mesmo assim, que a protegesse do mal. E quando a mãe começava a chorar, ela pedia a mãe que se afastasse do carro porque, ela tinha mais que fazer e tinha um jantar de gente de alta sociedade no hotel Porto Grande.

Tempos depois, com o frio que fazia na casa de tambor, a mãe apanhou uma pneumonia e foi internada no hospital Batista de Sousa. Marlene não foi visita-la no hospital, porque não gostava de entrar em hospitais. Mas, todos os domingos mandava a empregada leva-la um ramalhete de flores. De domingo a domingo, ela ficava a saber como a mãe estava a piorar. Um mês depois as coisas complicaram e a mãe morreu.

Marlene ficou a saber da notícia através de uma vizinha. Ela tratou com uma agência funerária para que fizesse o enterro. Até enviou uma coroa de flores com uma fita com a seguinte frase: "Da tua filha com saudades." Ela não foi para o enterro porque não gostava de cemitérios.

Mais tarde, mandou fazer uma campa para a sua mãe, como aquela da Cesária e pagou uma fortuna, só para que o povo pudesse ver.

Alguns anos depois, o filho da Marlene, o keny, que ela tinha dado tudo na vida, tratado como um rei, veio do curso, formado em Gestão Financeira e com todo o conhecimento que ele tinha adquirido com a mãe, ele também estava ansioso para se enriquecer.

A primeira decisão que ele tomou foi interditar judicialmente a mãe alegando que a mãe não estava bem mentalmente. Colocou-a num lar e ficou com tudo o que era dela. Ia lá visitar a mãe, uma vez por ano e não entrava porque ele não gostava de casa de idosos. Só mandava flores com a frase: "Do filho com saudades." Parece que a história estava a repetir-se.

Marlene pediu que, pelo menos, pudesse ter no lar, umas paredes forradas com espelhos, onde ela pudesse ver a si própria sempre, talvez para alimentar o seu ego. Marlene foi-se envelhecendo dentro do lar, e agora, cada vez que via para uma parede de espelhos, já não via a si mesma mas, via exactamente a imagem da mãe. Com o tempo, o sofrimento, a solidão e a amargura, como que por praga, tomaram conta dela. A loucura chegou.

Certo dia, depois de se ter visto no espelho, ela entrou em pânico e gritou: "O espírito da minha mãe está cá no meu quarto. Por favor, me ajudem! Chamaram o dono do Lar e adivinhem quem era? Exactamente, o Carlos. Quando ele entrou na sala, ela de imediato o reconheceu e disse: - "Carlos, meu amigo de infância, meu colega de sala no Liceu Ludgero Lima. Filho de nhe Juninha, por favor, ajuda-me. Carlos, com a sua mansidão que o caracteriza, respondeu: -"Já lembraste de mim?".
- "Sim. Claro que me lembro sr. Diretor. Por favor, tira-me desta loucura."

Carlos pegou-lhe pela mão, meteu-lhe no carro e levou-a até o cemitério, exactamente na cova da sua mãe. Ela caiu de joelhos, em cima da campa da mãe Teresa, chorou muito. Pediu perdão por ter sentido vergonha dela, por não tê-la ajudada quando mais precisava, por não tê-la visitado no hospital quando ela estava doente, por não ter comparecido no funeral dela. Sabia que já era tarde. Sabia que não conseguiria dar o tempo para trás mas, podia concertar muita coisa.

No dia seguinte pediu ao agora amigo Carlos, que a levasse ao tribunal, porque iria meter uma acção contra o filho, para poder reaver todos os seus bens. Meses mais tarde, o tribunal deu-lhe direito à todos os seus bens.

Em memória da sua mãe, ela abriu um lar de idosos com o nome "Mãe Teresa". Ela recebia os idosos de graça na sua instituição. Até ela dava horas de serviço no lar, para poder ajudar os idosos e quem sabe, redimir-se um pouco.

Mais tarde criou também uma casa, onde recebia crianças desfavorecidas para ajuda-las com alimentação, estudos, mas principalmente, na transmissão de valores morais, ensinando-as a amar a si próprias mas principalmente a amar os seus familiares. Colocou a casa o nome de "Amor de mãe."

Marlene estava a sentir-se quase completa. Certo dia, chamou o Carlos para passearem no parque de "Nhô Roque". Lá, sentados numa cadeira, ela agradeceu o Carlos por ter-lhe mostrado o sentido da vida. Por ter-lhe ensinado que a vida é muito mais do que vaidades. Que a vida tem um propósito nobre, que é de sermos felizes junto com os nossos familiares e amigos, quer pobres ou ricos. Que não devemos desprezar ninguém.

-"E é por isso Carlos, que eu tenho um convite para ti." Disse ela.
-"Queres ser feliz? Queres casar comigo Carlos?"
Carlos desconfiado, fez-lhe a mesma pergunta que lhe tinha feito há muitos anos atrás no restaurante:
-" Lembraste de mim, Marlene?"
- Sim. É claro que lembro-me de ti Calú. "Bô també bô tem uns cosa, hein."

Marlene olhou-lhe bem nos olhos, com lágrimas, sorriu e deu-lhe um beijo demorado.

-"Casas comigo Calú?"

Carlos, com um ar aliviado, de quem tinha visto uma grande mudança de atitude na Marlene, respondeu-lhe:

- "Se fosse há uns anos atrás, eu diria que não. Mas hoje, eu digo Sim."

E Marlene, sorrindo disse:

- "Ó Calú, mosse, Bô é parv."

Levantaram-se e de mãos dadas, continuaram o passeio pela Avenida Marginal, agora, na esperança de uma vida longa e feliz.

(César Fortes - 12/12/2019)

A VINGANÇA DOS PNEUS FURADOS


Todos os dias, depois das aulas, nós os rapazes da rua 10, corríamos para casa, atirávamos a pasta para qualquer canto e saíamos à rua, para jogar futebol na calçada. Escusado será dizer que, de vez em quando, um de nós, tirava um "beef" do pé ou perdia uma unha durante uma jogada emocionante. Éramos tão “fominhas” para o futebol, que não seria um probleminha daquele tipo que nos iria parar.

Fomos animados para o nosso "estádio" em frente de Nhá Mari D'Lurdes." Tínhamos como balizas, os postes de luz e umas pedras. Uma baliza ficava mesmo em frentre da casa de Nhá Mari D'Lurdes, daí o nome, e a outra ficava em frente da casa de Nhá Sabina. Na rua não passava muitos carros, logo nós não tínhamos muitos problemas mas, mesmo assim colocávamos dois rapazes de plantão se caso aparecesse algum carro. Um ficava na ponta da casa de Nhá Montinha e o outro ficava, lá em baixo, na ponta da casa de Nhô Silvestre. Estes dois ficavam como suplentes mas, com a garantia que iriam jogar na segunda parte e seriam substituídos por outros dois que jogariam na primeira parte.

Eu, naquele dia, tinha a garantia que jogaria todo o jogo porque a bola era minha. Caso alguém pensasse substituir-me, seria um problema, pois, eu iria para casa e a minha bola iria comigo. Consequentemente o jogo terminaria logo alí.
Sempre que íamos jogar, tinha um vizinho que estava sempre pronto para ver o nosso jogo, Nhô Lela Testa. Era basta ele ouvir a nossa algazarra, que ele abria a janela do 1°andar da sua casa, colocava o seu radiozinho no ouvido, puxava a anteninha, sintonizava-o na RDP e enquanto ouvia o seu relato de Portugal, ia vendo o nosso na calçada. Ele era um amante do futebol. Diziam que na sua juventude, ele foi um grande jogador de futebol.

Tudo estava pronto para o jogo começar. Lançamos moeda ao ar para verificar quem iria ficar sem camisola e quem começaria o jogo. A bola já estava no centro, faltava apenas um árbitro. Foi aí que Nelson gritou: -" Ó Nhô Lela Testa, bocê podia pitá nôs esse jogo?" Ao que ele, de pronto aceitou. Era apenas para marcar o tempo e gritar quando fosse falta.
Demos início ao jogo. Didi passou a bola para Jair, Jair passou para Sílvio, Sílvio chutou com tanta força que a bola passou mesmo ao lado do poste. Bola para fora.

Mas neste exato momento, Nhô Lela Testa gritou: "goooolo". Os rapazes sem camisola começaram a barafustar, alegando que a bola tinha saído para fora, enquanto nós, felizes da vida, começamos a festejar. Todos nós fomos para debaixo da janela de Nhô Lela Testa e perguntamos:-" Afinal é golo ou não?" E ele respondeu:-"Calma rapazes, eu estava a gritar é golo mas em Portugal. Foi golo do Sporting. Li na bsot comp é ponta pé de saída. Bola saí fora. Bsot desculpame. Nô continuá."

Recomeçamos o jogo e o Renato de Poia chutou a bola com tanta força que ele rasgou a sola do pé numa pedra e a bola, por sua vez, foi cair dentro do quintal de Nhô "Custódio mau". Toda gente calou. Foi um silêncio total, pois sabíamos que quando uma bola caia no quintal daquele senhor, ele a devolvia em pedacinhos. Fui bater na porta da garagem dele. Nhô Custódio abriu a porta que guinchava como se de um filme de terror se tratasse.

Ele era um homem de baixa estatura, corpo quase gordinho e meio careca. O povo falava que ele tinha um filho no estrangeiro mas, realmente ele era um senhor amargurado e que vivia sozinho. Com o seu ar assustador, sorrindo, sinicamente, perguntou-me: -"Queres a tua bola rapazinho?"
-"Sim senhor. Por Favor."
Ele foi lá dentro e depois de alguns minutos ele abriu a porta e lançou para o ar, a minha bola em mil pedacinhos.

Nós, as crianças de rua 10, inofensivas, tentando praticar um desporto, e aparece-nos um homem fazendo-nos tal brincadeira?! Ele era mau. Eu comecei a chorar muito, pela minha bola novinha que a minha tia Rosa me tinha oferecido no Natal. Fui na porta da garagem dele, chorando, dando socos na porta, gritei:-" Bocê é mau Nhô Custódio. Bocê ca têm fel? O Senhor não tem filhos?"

Eu soluçava de raiva. Foi quando o "Djão" chegou perto de mim para me consolar e disse-me: -"Podes ficar descansado porque vamos vinga-lo. Ele pode esperar para ver "o quê é que é bom pá tosse". E Djão traçou um plano. Fomos até a casa dele, apanhamos umas tábuas de 1 metro, colocamos muitos pregos e ficamos a espera para quando Nhô Custódio fosse tirar o carro da garagem. Ele iria ter uma grande surpresa.
Depois de algumas horas de plantão, um dos rapazes assobiou-nos e o outro gritou:
-"Olil tá trá corre de garagem!" Todos nós saímos a correr com as quatro tábuas, cheias de pregos. "Ele não sabe com quem ele se meteu." Dizia o Djão, enquanto caminhávamos em direção à porta da garagem. Ele abriu a porta e nós escondemos. Ele entrou no seu carro de caixa, uma Volkswagen kombi de 1950. Ele tirava o carro da garagem, sempre de ré. E isso era perfeito para nós porque assim, ele não nos podia ver.
E assim foi. Metemos em baixo do carro e fomos em cada roda, colocamos uma tábua cheia de pregos. Ele começou a descer a rampa da garagem e ouvimos quatro barulhos em simultâneo:-"fzzzzz". Parecia música para os nossos ouvidos. As quatro rodas do carro estavam furadas. Ele ouviu o barulho, parou o carro, desceu e foi ver o estrago. Viu para os pneus, olhou para nós, sorriu, como alguém que queria dizer:-" Depois eu vos apanho, seus pestinhas. E nós assobiávamos para o lado como se não soubéssemos o que estava a passar.
Ele entrou no carro e colocou-o dentro da garagem de novo. E nós, lá fora, rimos até cair no chão de tanta alegria. Tínhamos-lhe feito sentir o sabor amargo da derrota. Mas, sabíamos perfeitamente que, a partir daquele dia, tínhamos aberta uma guerra com o Nhô "Custódio mau".
A guerra durou muito tempo. Sempre que íamos jogar futebol na rua e se uma bola caísse no seu quintal, minutos depois ele arremessava os picadinhos da bola. E nós ansiosamente, ficávamos a espera, quando ele fosse tirar o carro da garagem.

Para nós, uma bola era difícil de se obter mas, para ele, a despesa dos pneus era muito maior. Nós não tínhamos dor dele porque, ele também, não tinha dor de nós, as crianças da rua. A guerra com o Nhô "Custódio mau", parecia que nunca chegaria ao fim, até que um dia, para o nosso espanto, estávamos a jogar lá perto da sua garagem, quando "Nelsa de Ya" foi colocar uma bola em jogo e com tanta força, ele chutou a bola tão alto que ela caiu dentro da garagem de Nhô "Custódio mau". Todos nós, começamos a roer as unhas, tristes, porque era mais uma bola que iríamos perder.

Mas, tal foi o nosso espanto, quando ele abriu a porta da garagem, vendo para nós, com um ar tranquilo, atirou-nos a bola impecável e inteira. Foi uma grande festa. Nem queríamos acreditar no que estava a acontecer. Creio que ele, pensando nos seus pneus, resolveu fazer as pazes connosco. A partir daquele dia, sempre que uma bola caia na garagem dele, ficávamos a ver para cima da parede da garagem porque, sabíamos que ele, com certeza iria arremessar-nos a bola para o campo, outra vez. E batíamos palmas cada vez que ele nos devolvia uma bola e em uníssono gritávamos:
-"Muito obrigado Nhô Custódio".

E nós, da nossa parte, como sinal de paz, até o ajudávamos a fazer as manobras, na hora de tirar o carro da garagem. Ficamos muito felizes, pela paz conseguida. Nós todos, saímos a ganhar. Agora, durávamos mais tempo com uma bola e o carro de Nhô Custódio durava mais tempo com os seus pneus.

Assim aprendemos que, não devemos tratar mal as crianças e nem as crianças devem tratar mal os idosos.

(César Fortes- 8/12/2019)

O GALO E A GERAÇÃO DE VIDRO


Hoje encontrei o galo com uma caixa e uma fita vermelha, tentando fazer-me uma prenda para me oferecer no meu aniversário. Depois de muitas tentativas, ele desistiu. Com um ar carinhoso, disse-me:
-"Como prenda posso oferecer-te uma história contada por mim e que aconteceu na minha zona?" Claro, amigo galo. Vá, conta a história.
O galo gaguejou um pouco e depois soltou a língua.

Nádia, meninha de Fonte Inês, estava prestes a completar os seus 15 anos. Foi eleita miss no seu Liceu. Embora os seus pais e professores já a tivessem alertada dos perigos da vida, mas ela, não queria ouvir, alegando saber tudo, porque estamos no século XXI e aprende-se tudo na internet. Nádia ficou grávida no primeiro dia que conheceu o Michel, filho de um grande empresário da rua de Lisboa. Na sua inocência, pensava que na primeira relação sexual não tinha nenhuma chance, de se engravidar. Ela culpando os outros, dizia:
"Ninguém me disse nada sobre isso antes".

O filho nasceu e colocaram-no o nome de Inocêncio. Coitado do menino. A mãe é que deveria ser chamada de "Inocência".
O pai Michel, não perdeu tempo e deixou a Nádia com a criança e foi atrás de uma outra miss que tinha exibido o seu corpinho no último concurso em Ribeirinha.

Chegou o dia para levar o Inocêncio ao PMI. A consulta era às 8h mas Nádia, como uma jovem sem responsabilidade, levantou-se às 10h30 e não conseguiu chegar a tempo na consulta. E ainda, com muita lábia, disse para a enfermeira:-"Credo ohm! Quel dotor cá podia esperá uns minutim?! Que país é esse que não valoriza os jovens?"
Creio que Nádia deveria ter como apelido, "Descarada".

O filho foi crescendo raquítico, porque Nádia nunca mais levou-o para o controlo e Planeamento Materno Infantil porque, segundo ela, "ela cá tá levá abuso de nenhum doutorin. Mim é "inteligenta" e msabé tma conta de nhá fidje mim só."

Dias depois, Nádia, com o filho na mão, passando na rua de Lisboa, teve um desgosto de ver o Michel, sentado com a recém-eleita, a miss de Bela Vista, que certamente, seria mais uma que iria enganar. Nádia fez o sinal da cruz e disse " Bô podê bai, quê pá frente é qué pá diante". Não entendi, foi nada. Mas mesmo assim, a Nádia decidiu que a partir daquele dia ela iria mudar a sua vida.

Em passos apressados, ela só parou na vitrine na loja do "Djibla". Leu ou soletrou todos os anúncios de emprego que estavam lá colados, mas num tom de troça, disse: "Rececionista, garçom, empregada doméstica, caixa?! Esses empregos de pobreza li? Mim nhá mãe parim pam ser grande na vida. Quem viver, viverá. Kkk".
E na saída, o papagaio do Djibla respondeu-lhe:-"Óh Nádia já bô cabá na Nada!"
Escusado será dizer a descompostura que ela atirou-se ao papagaio. Como todo o bom papagaio faz, ele repetiu tudo de volta. E a Nádia, afrontada, saiu do local em direção à "Ponte D'aga" para comprar um bilhete que lhe daria um livre acesso à festa de Branco e a todas as festas nos meses seguintes.

Ela, a cada noite pedia favores à familiares e vizinhos, para tomarem conta do filho, porque ela dizia que "a vida é uma festa e o momento é este." Deixava o filho para trás, nem se incomodava e ia feliz porque a festa prometia ser "daquel bom".

O tempo passou e era o primeiro dia de aulas para o filho. Nádia foi levá-lo à escola, entrou dentro da sala, sentou na cadeira junto do filho, tirou fotos para colocar no facebook:"#não consigo deixar o meu filhinho na escola, longe de mim. Como vou aguentar estas 4 horas? Não sei como vai reagir o meu bebé #." Disparate de Nádia, que na hora das festas que duravam a madrugada inteira, não ficava triste. Certamente, o filho comportar-se-á da mesma forma quando foste para a discoteca.

Cansada da vida, por não ter oportunidades por falta de competência, decidiu criar uma associação de alguns jovens do século XXI. Colocaram-no o nome de "O mundo está ao contrário".
Elegeram como hino a música " Ninguém cá tá mandá na mim."
De facto, era verdade. Ela tinha razão, já ninguém mandava chamar a polícia quando perturbavam na zona; ninguém mandava-lhes dormir na hora, estudar, raciocinar ou procurar trabalho. Os jovens achavam a vida difícil e se fossem contrariados, ameaçavam os pais com suicídio. Se alguém tentasse ensinar-lhes algo sobre valores ou caráter, os jovens caíam-lhe em cima. Já não queriam cuidar do próximo. Tudo o que faziam, tiravam uma "selfie" para alimentar o egocentrismo e mostrar ao mundo no facebook, o tão bom que eram. Falavam muito alto porque estavam sempre com auscultadores nos ouvidos para não ouvirem conselhos de ninguém.

Destruíam tudo o que é do estado porque, como dizem, tudo é nosso, esquecendo que é de todos mas não só deles.
Não gostavam da escola por não lhes dizer nada.
O radicalismo vendia-lhes o anarquismo como ideologia e como sonho tinham uma mão cheia de nada.

Não sabiam escrever, não entendiam nada de informática mas sim de Facebook e jogos "on-line". Mas se fossem pedidos para escreverem uma carta para pedir emprego, não sabiam usar o word, não sabiam encontrar o nome da empresa que colocou o anúncio de emprego. Não sabiam "scanear" um documento mas sabiam sacanear o colega. Não sabiam nem como imprimir uma folha.

Não sabiam onde tirar o bilhete de identidade, não sabiam onde era o registo, o cartório, a casa do cidadão, delegação do ministério da educação para procurarem uma bolsa de estudo. Nunca foram ao centro de emprego IEFP para procurar um emprego, porque os pais sempre lhes deu esses expedientes na vida.
Enfim, esses jovens dessa associação, eram Analfabetos no século XXI.
Drogas, doenças, prisão e morte chegaram como soluções.

Os jovens da associação "O mundo está ao contrário" e que tinham o lema "Ninguém cá tá mandá na mim", criticavam os políticos, os médicos e os professores. Criticavam tudo e todos mas, não tinham estofo para suportar as críticas dos outros e entraram todos em depressão. Frustraram-se.

Certo dia, quando Nádia estava com um turista nas traseiras do "Pelourinho de Peixe", eis que surgiu a sua professora da primária que lhe gritou:"óh menininha, largá esse vidinha da mon". E depois de uma longa conversa com a sua professora, Nádia resolveu acabar com a associação.

Reconciliou-se com os pais, foi consultar o filho e aproveitou para se matricular na escola de novo. Hoje já não critica ninguém. Já ouve conselhos dos mais experientes. Deixou as drogas, aceitou o primeiro emprego e agora quando passa na rua de Lisboa, o papagaio do Djibla grita-lhe:-" Óh Nádia bô era estanhadinha mas agora bô ta esticadinha hein?".

Kkk maldito papagaio.

No fim, o galo virou para mim, com um ar radiante e disse: - "Mas ainda bem que temos oportunidade de mudar. Que os menos experientes aceitem os conselhos dos mais experientes. Que possamos ajudar uns aos outros. Fazendo assim, todos nós sairemos a ganhar e a nossa sociedade melhorará, certamente."

Muito obrigado, querido amigo galo, por este presente de aniversário, por esta bela história da nossa realidade.
(César Fortes - 19/10/2019)

A AVENTURA DO GALO NA CAPITAL DE CABO VERDE – PRAIA
Chegou o grande dia para levar o galo para visitar a capital de Cabo Verde. Entramos no táxi do senhor Eliseu e ele cuidadoso que é, perguntou-nos se tínhamos todos os documentos em mãos para que não tivéssemos nenhum percalço na viagem. E lá fomos nós, rumo ao aeroporto de São Pedro. Fomos com muita velocidade porque já faltavam poucos minutos para fecharem o vôo. Fizemos o "check-in" e rapidamente, fomos para a sala de embarque.

Quando passamos no controlo de segurança o alarme disparou exatamente quando o galo ia passar. Ele ficou aflito e começou a cacarejar bem alto. Foram apalpa-lo e detectaram a anilha de identificação na pata dele. Quando passaram a anilha pelo computador conseguiram ver a identificação: (Galo "mussim" de R.Bote) e depressa mandaram-no passar. Não há quem resista à um galo de Ribeira Bote. Já na sala de embarque, ouvimos a senhora do microfone anunciar, com aquela voz suave: -"Vamos dar início ao voo 3B 819 da Binter. Passageiros com crianças, idosos e galos, têm prioridade." Fomos os primeiros a passar em direcção ao avião.

Atravessamos a pista toda, a pé, até chegar no avião. O vento estava forte e levantava as saias das senhoras. O galo estava a ser arrastado pelo vento. As asas abriam, dificultando a caminhada. E o galo perguntou:- "Porquê é que neste aeroporto já não transportam as pessoas de autocarro?"
Eu já estava a achar demorado as perguntas do galo.
- "Bom galo, é o seguinte, ouvi dizer que a distância é tão pouca e que nem todos os vôos coincidem com a hora de trabalho do condutor. Ouvi dizer também, que o vento já é um produto turístico de São Pedro e como tal, deve ser sentido na chegada e na partida dos viajantes inclusive pelos nacionais."

Entramos no avião e fomos para os nossos assentos 1E e 1F. Eu, particularmente, não gosto nada de sentar nestes lugares porque ficamos de costas para os pilotos e de cara para todos os passageiros. O avião, assim como a maioria das casas nesses dias de verão, estava com muitas moscas. Tive a sorte de ficar de caras com o meu amigo Gu, que não via há muito tempo. O piloto parecia estar com pressa, percorreu a pista, fez a curva no fim da pista, e sem parar, continuou acelerando e quando atingiu a velocidade necessária, decolamos.

De lá de cima, dava para ver a nossa casa. O dia estava lindo e o vôo estava perfeito. Já perto da cidade da Praia, o comandante de bordo interrompeu a música: -"Senhores passageiros, dentro de momentos, vamos dar início a descida para a cidade da Praia."
Nesse mesmo instante, a porta da cabine abriu-se e saiu um co-piloto que foi em direção à casa de banho. E o galo perguntou-me: - "Ó humano, nestas horas, não é suposto que o co-piloto esteja auxiliando o comandante?"
E eu tentando acalmar o galo, respondi-lhe:-"Ó galo, ele deve estar com diarreia. Nestes dias de calor, quase toda gente está com diarreia. E pilotos também são gente."

O avião começou a dar saltos, perdendo altitude. O galo, com medo, perguntou: - "César, agora, fiquei com uma dúvida. O comandante disse que iriam iniciar a descida ou era uma caída para a cidade da Praia?"
Neste momento de aflição, em que todos já estavam suando de medo, e certamente, os que estavam com diarreia, já teriam feito outra coisa no assento, eis que sai da casa de banho, o co-piloto com ar assustado, com uma garrafa nas mãos, que certamente seria água de oralite e com passos apressados foi para a cabine.

De cinco em cinco minutos descíamos ou caíamos alguns metros. Foi alí que o galo fez mais uma pergunta: - "César, achas que é possível estar um piloto estagiário lá na cabine?" E eu, para acalma-lo, respondi: -"Acho que não. Podes ficar descansado. Tudo vai correr bem".
Bom, só não lhe disse, se seria "bem mal ou bem bom. Eu já estava a ficar assustado também.

Começamos a ver a pista e animamos. Fomos aproximando cada vez mais da pista e o galo perguntou: - "César, a esta altura já não deveriam ter descido o trem de aterragem?"
E eu para tranquiliza-lo respondi-lhe:
"Hoje em dia, tudo está automaticamente controlado. Podes ficar descansado." Mas para falar a verdade, eu também não ouvi o trem de aterragem descer. Comecei a ficar com medo.

Fomos descendo, descendo, até ficar a menos de 10 metros da pista, pois, já estávamos a altura dos pavilhões do aeroporto. A aeromoça já estava sentada ao lado de nós. Já todos estavam com as mãos preparadas para quando avião aterrasse, para darem palmas. Tal foi o nosso espanto, o avião começou a acelerar pois decidiram abortar a aterragem. Aceleraram com toda a potência do avião mas nada adiantava. De onde eu estava, eu via a cara assustada de todos os passageiros.

O silêncio tomou conta do avião. O galo, com a crista levantada, tinha perdido a fala. O meu amigo Gu segurou a mão da sua esposa e olhou para ela como quem estava a despedir-se. Eu era o único no avião que estava a sorrir, pois, eu já passei por tantos problemas nos aviões que pouco ou quase nada já me assusta. Mas por instantes pensei. É agora que vamos cair. E ainda mais, estando no lugar n°1, eu seria dos primeiros a partir desta para melhor.

Normalmente, as aeromoças, nestes casos, ficam calmas e sorridentes, como quem quer dizer:
"Não se preocupe, vamos cair , vamos morrer, mas em segurança, tudo vai correr bem, não se preocupe." Mas não era o caso da aeromoça que estava do meu lado. Vi para ela e ainda estava com o cabelo em pé e assustada, como se tivesse visto um "Canelinha".

O avião lá conseguiu atingir uma boa altitude. Já no ar e fora de perigo, ouvimos uma voz que interrompeu o estado de filme de medo e pânico que se tinha instalado no avião. -"Senhores passageiros, daqui vos fala o comandante, J.Soulé. Tivemos que abortar a aterragem porque havia um pássaro sentado na pista. Muito obrigado."

Quando o galo conseguiu recuperar a voz, ele gritou bem alto: - "Um Pássaro na pista, sr. Comandante?! Só se for um Pardal, hein? Pois àquela altura que nós já estávamos, as hélices destruiriam qualquer pássaro. Sem esquecer que o maior pássaro que ainda temos são as garças brancas. Com todo o respeito sr comandante, mas esta desculpa cheira-me a bosta do pássaro. Vocês esqueceram é de descer o trem de aterragem. Porquê não falam a verdade?" Tentei acalma-lo mas ele não queria saber.

O avião fez a volta para fazer uma segunda tentativa. Na descida, outra vez, todos estavam apreensivos e com medo. Para completar o ambiente sombrio, nos altifalantes do avião, ouvíamos o Ildo Lobo a cantar a música " na dispidida..." e logo a seguir colocam Mário Lúcio a cantar "bai bai". As músicas não estavam a ajudar. O galo ainda assustado, diz para a aeromoça: - "Por amor de Deus, vocês devem trocar estas músicas fúnebres, que vocês colocam em todos os voos, na hora de aterragem. Devem colocar uma música alegre, que inspira confiança. Porquê não colocam um "Kutchi pó"?" E todos o aplaudiram.

Desta vez sim, ouvimos o trem de aterragem descer. O avião bateu com as rodas na pista com tanta força que assustou os passageiros. Rapidamente travaram como se estivessem com medo de ultrapassar a pista. E o galo gritou: - "Agora, puxaram até o travão de mão." E todos riram.

Depois de tantos problemas, chegámos a maravilhosa cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Entramos num táxi e no caminho o galo gritou: -"Com tantos táxis novos e bonitos, tínhamos que entrar exatamente neste esburacado e velho?!"
Mais tarde fomos passear na Achada de Santo António mas, o galo não gostou muito por ver tantos lugares de churrasco a cada 5 metros, nos passeios. Por ser um galo, dá para compreender. Ao que ele me disse: - "Irias gostar de uma local onde estivessem a grelhar humanos a toda hora? Pois, eu sinto-me ameaçado e a qualquer momento posso acabar numa grelha."
-"Compreendo-te galo, mas para mim, Achada de Santo António é um dos bairros mais interessantes de Cabo Verde, claro, só depois de Montsú."

O galo ficou fascinado com o pequeno parque infantil montado perto da Presidência da República. Tem quase tudo. Não encontramos igual em S.Vicente, onde montam estes parques com carrinhos e insufláveis somente no dia 1 de Junho e no Natal. "Porquê?" Pergunta o galo.

O galo ficou ainda mais fascinado quando entramos nos autocarros da "Sol Atlântico" que têm até elevador de cadeiras de roda para dar acesso aos cadeirantes. Disto também, ainda não vi em São Vicente.
Passamos pelo Praia Shopping, onde tem até cinema que podemos assistir filmes em 3D. Outro “level”.
Palmarejo é espetacular, Tarrafal um regalo e Assomada é um encanto. Mas por outro lado, visitamos a zona de Bela Vista, Alto da Glória embora a crescer, ainda precisa de muita coisa.
Era hora de voltar para Mindelo. Na viagem de volta, tudo correu às mil maravilhas.
Mas como sempre, atento como é, o galo fez as seguintes observações:

1-Praia está cheio de carros como nas grandes cidades. O trânsito está a ficar saturado.
2- Praia ainda tem táxis-clã a vontade;
3-Porquê é que as senhoras de limpeza nos aeroportos, nas horas de vôo, estão sempre colocando sinais de interdição de entrar nas casas de banho, porque vão fazer a limpeza das mesmas?
4- O aviso de "não abandonar a bagagem" no aeroporto da Praia, é emitida de 20 em 20 minutos nos altifalantes. É excessivo. Imagina quando os vôos atrasam.
5- Já se pode andar nas ruas da Praia sem problema de segurança;
6-Porquê um pacote bolacha que custa 50$00 na mercearia, no bar do aeroporto da Praia custa 300$00? “Cá dimaz”? Todos os produtos estão com preços exagerados;
7-Porquê que na maior parte dos restaurantes, hiaces e táxis não têm recibos? Sempre dizem: -"recibo cá stá."
8 - Porquê as escadas rolantes só funcionam na chegada e não na partida? É só para agradar a quem chega? Ou é poupança de energia?
9-Porquê que os balcões de “check-in”, sempre têm uma pessoa só, no atendimento?
10- Porquê um táxi é mais barato na Praia do que em Mindelo? E porquê autocarro é mais caro?
11- Porquê não colocam tampas ou grades em cima das valas laterais, na estrada ao lado do Praia Shopping? Qualquer dia um carro pode cair dentro dela.
Independentemente de tudo isso, eu, o galo "mussin" de Ribeira Bote, afirmo sem dúvidas que Praia é "ote Level", sim senhor. É assim ou não é assim, César?
- "É assim, sim."

(César Fortes - 2/10/2019)

AS AVENTURAS DO GALO NA ILHA DE S.NICOLAU


Neste verão, resolvi levar o meu amigo galo à ilha de S. Nicolau, para visitar a terra do famoso "Chiquinho". A nossa viagem começou conturbada. Há quase quinze dias a espera de confirmação do bilhete pois, tínhamos confirmação para ir, mas para voltar não tínhamos. No dia da viagem, a última da hora, a senhora da agência mandou-nos ir para tentar encontrar uma vaga.

Depois do "check in" fechar, fomos ver se tinha lugar para nós mas, nada. Agora, só viajaríamos de noite. Pensámos: "As coisas estão a começar mal, mas temos confiança que tudo o que começa mal termina muito bem."
A noite lá fomos nós. Entramos num avião ATR, sentamos e logo, uma comissária de bordo da Binter, bonita, com a voz rouca e com um português aéreo, meio alfacinha e de boca escancarada, anunciou: "Senhaaares passageeeeiros, sajam bam-vindos ao nosso ATR....blá, blá, blá, a nossa viagem com destino à S. Nicolau, via Praia, durará algumas horinhas. Avisamos ainda que é proibido o galo cantar durante a viagem. Moooito obrigáaaada.Boa viaaagem".

Distribuíram um copinho de água e umas bolachas de Soncente. Trinta segundos depois colocaram uma aviso dizendo que já iriam recolher o copo e os desperdícios. Ou seja, queriam dizer-nos: -" Bsot despatchá bsot bibé esse aga e cmé ess bolachinha por que nô tá com pressa de bá guardá es cosa, ohm. Obrigaada". E assim fizemos.

Chegamos na cidade da Praia e a noite fomos dormir na casa de um amigo. Não foi possível dormir a noite inteira porque os mosquitos nos picavam, uma coisa por demais. Cobríamos a cabeça e até parece que eles faziam trabalho de grupo em que uns seguravam o pano, enquanto os outros entravam para picar. Depois da noite sem dormir, fomos para o aeroporto às 9h45 para irmos fazer a conexão com S.Nicolau.

A cada hora anunciavam que o voo estava a ser adiado para uma hora mais tarde. As14h30 levaram-nos para almoçar no restaurante do aeroporto. Estava a ser servido um prato principal, um sumo e uma sobremesa. Mas quando chegámos ao balcão, a senhora amavelmente nos disse que a sobremesa tinha acabado exatamente antes de nós.

Voltámos para sala de embarque. O tempo não estava a melhorar. Outra vez, a cada hora iam adiando o voo. Quando era 16h45 meteram-nos num avião. Ficámos contentes. Era agora. Levantámos voo. E lá fomos contentes a caminho de S.Nicolau. Mas a alegria era de pouca dura. Passados 10 minutos de voo, mandaram-nos voltar para Praia, porque o tempo tinha piorado na ilha de S.Nicolau. Já em terra, fomos levados para um hotel para passarmos a noite.

No dia seguinte fomos para o aeroporto às 5h de manhã. Quando era 7h, adiaram o voo para uma hora mais tarde. Às 8h chamaram-nos para o embarque. Um minuto depois, mandam-nos sentar e aguardar mais uma vez. Nem deu para sentar e já estavam a chamar-nos de novo para o avião. O galo já estava a ficar impaciente.

Dentro do avião, começaram a dar-nos as instruções de segurança, que deveriam ser dadas em terra e deixar cada passageiro fazer uma prática para verificar se realmente funciona. Já imaginaram se der um caso e alguém for encher o seu colete e deparar que tem um furo? O que iria dizer? "Sra aeromoça, esse colete de meu li ta frod. O quê que mte fazê?" Ela agora diria -"Agora, literalmente, dá braçada".

Em fim, levantámos voo. Éramos só 9 pessoas e um galo, dentro do avião. Já lá em cima, quis ver para a janela para apreciar as belas paisagens da ilha de Santiago mas dei com um cemitério numa localidade montanhosa. Imagem nada animadora durante um voo.
No lugar 17, onde sentei-me, tinha um braço da cadeira quebrado, certamente por alguém que estava cheio de medo durante a viagem anterior.

A comissária de bordo, pediu desculpas pelo ligeiro atraso de 24h, kkk. A aterragem em S.Nicolau, por segundos nos deu medo, porque vimos só uma montanha na nossa frente. Mas no final, tivemos uma das melhores aterragens da minha vida. A gare do aeroporto nos dá a idéia de uma tenda eletrónica gigante. Ao sair apanhámos um hiace e fomos para a Vila de Ribeira Brava.
O galo estava com muita vontade de conhecer as galinhas de mato de S.Nicolau, cuja fama ele já tinha ouvido falar, desde S.Vicente. De dentro do carro, do alto da zona do Morro, vimos a linda cidade que ainda é chamada amavelmente de Vila de Ribeira Brava. Casas com uma mistura de arquitetura colonial e o moderno, todas pintadas de cores bonitas que dá prazer em ver.
Já dentro da pensão S.Francisco, foi-nos servido um pequeno-almoço tradicional. De repente entra um pardal e suavemente, foi conviver connosco. Parece que ele queria participar do banquete que estava muito bom. Passamos dois dias visitando as localidades de Fajã, Caleijão e muitas outras belas localidades da ilha. Depois de termos completado a volta a ilha e com muita chuva a mistura, era hora de voltar. Mas nós não tivemos a sorte de encontrar nenhuma galinha de mato. O galo estava furioso.

Voamos para a cidade da Praia para fazermos conexão para Mindelo.
No aeroporto da Praia, ouvimos 1001 vez o aviso sobre bagagem abandonada que se repete a cada 20 minutos nos altifalantes do aeroporto. Imagina agora, a tortura de quem a viagem é adiada e tem que ficar mais algumas horas ouvindo o aviso "Atenção srs passageiros, bagagem abandonada blá bla..."?!

Quis pagar um bolo e um sumo para o galo mas a senhora disse-me o preço e quase que caí de costas. Credo, minha senhora! Um suminho 250$00 e uma fatia de bolo 150$00. Ainda falam de cassiubody nas ruas? O roubo, agora, acontece é nos bares dos aeroportos da Praia. O sumo e o bolo são banhados a ouro? Só pode!

Entramos no avião com destino à S.Vicente. A música que ouvíamos era da Élida Almeida "se bu levam cu bô, mta bá cu bô."
Normalmente no verão, os pilotos da Binter, brindam os clientes com uma aterragem, antecedida de um passeio por cima da linda cidade do Mindelo. Hoje, os nossos jovens pilotos, fazem-nos gostar das viagens de avião.
O avião aterrou suavemente no aeroporto de São Pedro.

No fim, quando saímos do aeroporto, o galo ainda chateado, e com os olhos na estátua de Cesária Évora, disse-me: -"Eu gostei muito das aventuras na ilha de S.Nicolau, mas tenho algumas perguntas as quais, eu gostaria que mas respondesses:

1- O que quer dizer "Tchabatche"?
2- Porquê chamam a cidade principal de Vila da R. Brava; Vila e Estancha?
3- O que é "Bi"?
4- O que é "Loa assinha"?
5- Porquê não vemos muitos jovens nas ruas como nas outras ilhas?
6- Porquê que maior parte das pessoas que têm altas responsabilidades públicas na ilha, vivem na cidade da Praia?
7- Porquê é que os ricos de S.Nicolau, que vivem e investem nas outras ilhas, ou até mesmo no estrangeiro, não investem num barco para a sua ilha?
8- Porquê a praça da Vila não tem cadeiras na parte central?
9- Porquê não é restaurada a casa de Baltasar Lopes da Silva que está a cair aos pedaços?
10- O que significa 4G?

Bom, na minha pouca inteligência, consegui respondê-lo à apenas a última pergunta. 4G significa 4 Gotas de internet. É do mesmo sistema de gota-gota. Usa-se pouca água (gotas) para rega, mas obtém-se grandes rendimentos na agricultura. Com o novo sistema 4G na internet é a mesma coisa, usa-se pouca internet (4 gotas) mas obtém-se grandes rendimentos para a Telecom.

Espero ter-te esclarecido galo.

Acho que sim. Disse o galo.
E ainda acrescentou:

-" Apesar de não ter visto nenhuma galinha de mato, para mim, S. Nicolau é uma das ilhas mais lindas de Cabo Verde.

Quanto às outras perguntas, tu não sabes respondê-las, mas talvez quem é de S.Nicolau possa nos ajudar.

Até breve ilha de S.Nicolau.
(César Fortes - 4/9/2019)

O DESABAFO DOS ANIMAIS


Hoje saí para passear com o galo pelas ruas da cidade, deparamos com uma situação um pouquinho preocupante. Vários cães, gatos, pombos, um papagaio e um piriquito, tentaram nos atacar. Fugimos até chegar numa rua sem saída, chamada de Tapadinha. Pensamos logo: - é a nossa morte. Eu virei para o galo, já em tom de confissão: "Galo, perdoe-me pelas muitas vezes que pensei fazer-te um grelhado." E ele segurando as minhas mãos disse:"- Perdoe-me pelas muitas noites que eu cantava alto de propósito só para poderes ficar acordado e assim ter um companheiro de noitada."

Fechamos os olhos e ficamos a espera do ataque final. Mas para a nossa surpresa começaram a lamber-nos. "Pára, pára!" Gritamos nós. Perguntei porquê faziam aquilo, e um cão respondeu-me:-"É que estávamos a deambular pelas ruas da cidade e sentimos o cheiro de grelhado do "Festival de Cavala Fresk" mas os fiscais não nos deixaram entrar nos espaços onde vendiam os petiscos, dizendo que o pitéu é só para quem pode. Então nós, não podendo, saímos tristes do espaço reservado, na rua da praia. Saímos para tentar a sorte por outras bandas mais acessíveis. Foi quando vocês apareceram e animamos. Mas galo sem ser grelhado, não tem piada e carne humana deve ser "crutch" quanto mais com uma certa idade, sem ofensa senhor."

Já safos, o galo perguntou:
- “O que fazem tantos animais abandonados na rua?" Foi alí que cada um esclareceu-nos a razão de viver na rua:

1-O Boby, um cão, Pastor alemão, disse:
-" Meu dono comprou-me num criador por 40 mil escudos. Levou-me para casa, fez-me uma casota e eu estava mesmo feliz. Nos primeiros anos ele levava-me para todos os lugares só para exibir junto dos amigos. Era toda hora na Laginha. Mas depois de alguns anos apanhei uma doença de pele, fiquei cheio de "coceira" e ele já não tinha mais interesse em cuidar de mim e colocou-me na rua.

2- O gato Siamês, Pxinha:
- "Minha dona cuidava de mim com muito carinho. Eu era o biblô da família. Certo dia ela perdeu o emprego e o dinheiro começou a faltar lá em casa e as coisas começaram a complicar-se. Não ter mais dinheiro para cuidar de mim, foi a desculpa que ela encontrou para colocar-me na rua."

3- Papagaio, Pipi:
-" Sou um papagaio comprado no mesmo lugar que Djibla "tá comprá kes de seu". No princípio eu era bem tratado. Ensinaram-me a falar. Colocavam-me na sala, num alpendre, para quando as crianças fossem lá visitar para que eu pudesse ser o bobo da festa. Até aí tudo bem. Mas certo dia, o meu dono levou uma mulher diferente lá para casa e vi o que não devia ter visto. Como sabem, papagaio não consegue ficar calado. E naquele dia fiquei só a repetir "braçame pertode Neusa"; "Bejame forte John". E não é que Neusa era comadre da minha dona!! Ferrei tudo. Meu dono, o John, amarrou-me uma pedra no pé e atirou-me do Furtim. Minha sorte é que no exato momento, lá em baixo, estava a passar um caminhão cheio de milho que ia para o Silo da Moave. Fiquei com um pé amputado. Hoje vivo com os pombos em cima da Moave. É lá que sou feliz, longe do John."

4-Vira-lata, Tarzan:
-"Colocaram-me o nome de Tarzam porque eu estava sempre a uivar e a saltar. Quebrei muita coisa em casa. Quando pequeno, eu era o cão mais bonito da rua. Tinham-me oferecido como prenda de aniversário para a filha da minha dona. Ela tratava-me como brinquedo. Assim como todas as crianças, ela cedo se fartou de mim. Começou a atirar-me pedras e paus. Antes, metiam-me no carro, levavam-me para passear na Baia aos domingos. Eu era um cãozinho de sala. Meu primo PitBull tinha-me ensinado alguns truques de guerra. Certo dia mordi a filha da minha dona por ela estar a maltratar-me com um pau. Ela não gostou muito.

Nasceu outro bebé na família e colocaram-me a parte. Eu já não era amado mais. Foram procurar outro apartamento para viver e eu já não fazia mais parte dos seus planos. Foi uma tristeza! Deixaram-me para trás e eu sentado no meio da rua, vi o carro com a minha antiga família perder-se no horizonte. Mais tarde ainda, um senhor, o Manel, levou-me para morar com ele lá para a zona de Alto de S.Nicolau. Ele morava sozinho, com um coração cheio de amor mas com um bolso vazio de dinheiro e com um corpo sem saúde. Meses mais tarde, ele veio a falecer. Eu dormia todos dias na porta da casa dele na esperança que ele voltasse para cuidar de mim. Mas no sétimo dia, os familiares fizeram um tipo de festa em homenagem ao Manel. Depois da festa, trancaram a porta com um cadeado. Foi ali que compreendi que eu, mais uma vez, tinha que tomar o meu rumo. E estou na rua desde daquele tempo."

O Galo com lágrimas nos olhos disse:
-" Lindas e tristes histórias. Não é, humano?

- Sim, sem dúvida.

- Óh humano César. Se vocês gostam tanto dos animais, como dizem, eu não compreendo o porquê maltratam tanto os animais?! Quando são pequeninos e fofinhos, vocês estão com eles para cima e para baixo mas, quando começam a ficar doentes e velhos vocês os abandonam.
É por isso que vocês humanos, estão assim, com tantos problemas na vossa sociedade. Como tratam os animais, mostra como vocês também tratam as pessoas. Querem é exibir e dar o show quando tudo está bem. Quando surge o primeiro problema abandonam tudo. Vocês abandonam as vossas crianças nas ruas de Cabo Verde. As praças estão cheias de velhos abandonados pelos próprios filhos que, por ganância de riquezas, colocam os pais na rua ou num lar abandonados. Que sociedade é esta óh humano César?!

Muitos cães que antes serviam para dar show, hoje estão abandonados na rua. Assim como um pai abandona seu filho é responsabilizado, ou pelo menos deveria ser, também quem abandona um animal de estimação na rua, deveria ser responsabilizado.
Ter um animal de estimação é um acto de responsabilidade e não deve ser feito de uma forma impusilva ou leviana. Se tens um cão ou qualquer animal doente ou velho, cuida dele. A associação "Sima bô" pode ajudar nisto. Assim como deves cuidar dos teus entes queridos também.
Sabes, César. Eu tenho vergonha de alguns humanos.
E já agora, quando eu ficar um galo velho, quando eu já não puder mais cantar como antes, vais abandonar-me na rua?

-"É claro que não! Ninguém abandona um galo como tu. Já fazes parte de mim. Os amigos são para toda a vida."

-"Quem fala assim não é galo, digo, gago. Vamos para casa porque já senti vontade de comer um pouco de milho. Até a próxima, amigos. Assim como pessoas não devem viver na rua, os animais também não."

Infelizmente estamos a ver muitos animais nas ruas de Cabo Verde.
(César Fortes - 13/7/2019)

AS MINHAS PRIMEIRAS FÉRIAS EM SANTO ANTÃO



CAPÍTULO 1 – A VIAGEM PARA SANTO ANTÃO

As aulas terminaram no dia 10 de Junho. E para a nossa alegria, as férias tinham começado. Santo Antão seria o nosso destino. Os meus irmãos Autelindo e Joselito já tinham ido para a ilha de Santo Antão uns dias antes e nós, eu e as minhas irmãs Zenaida e Vanda, como éramos mais novos, ficamos para trás para irmos com a nossa mãe.
Saímos de casa bem cedinho, logo às 6:30 de manhã e fomos para o cais de São Vicente. Lembro-me que apanhamos o táxi de nhô Custódio, um táxi Mercedes-Benz, branco, cadeiras de couro, perfumado, com um cãozinho de plástico no tablier, que mexia a cabeça à medida que o carro andava. O carro estava novinho em folha. Por ser tão bonito, todos o solicitavam para transportar os noivos. Nós, as crianças da zona, carinhosamente apelidamos o táxi de “carro de casamento”. Como podem imaginar, eu estava muito feliz por ter a oportunidade de andar na viatura mais solicitada pelos noivos da ilha. Durante o trajeto para o caís, eu não parava quieto, observando como nhô Custódio girava o volante e trocava a mudança. Era algo admirável.
Quando chegamos no Porto Grande, tinha uma multidão esperando na fila para entrar no ferry-boat “Porto Novo”. Pude ver também, os barcos Arca Verde I e II. O mar estava um pouco revolto, tinha muito vento naquele dia. Os barcos já estavam a dançar atracados no cais, imagina no alto mar como será? Pensava eu. Mesmo assim lá fomos nós. O barco, mais conhecido por “ferry-boat”, tinha fama que fazia enjoar até as malas, quanto mais pessoas! Tinha gente, que só de ouvir o nome do barco já ficava enjoada, como é o caso da Ti Jona. O barco subia e descia as ondas, sem termos certeza se voltava para a superfície outra vez. Pessoas gritavam:

- “Óh nhá mãe! Mar cá tem Figueira, ondê que mim tá bai segurá, se esse barco bai pá funde? Esse barco li é pá andá é na rio e não nesse canal de Sintanton”.

Mas nós crianças, estávamos animadas de qualquer forma para chegar à Santo Antão. Depois de uma hora de viagem turbulenta, chegamos em Santo Antão. Lembro-me que o cais de Porto Novo tinha um calor infernal e não tinha nenhum sítio para se esconder do sol abrasador. Era tanta gente que a azáfama era grande. Uns descendo e outros preparavam-se para entrar no barco em direção à ilha de São Vicente. O cais era pequeno para tanta gente e tantos carros. Segurando as nossas tralhas, caminhamos em direção ao camião que nos levaria à Chã de Igreja. O Bedford de 1958, de cor verde, que pertencia à nhe Cuca, já estava a nossa espera.

Lá iniciamos a viagem de carro que demoraria umas três horas. No cais, víamos pessoas a vender “sucrinha” em forma de cone, marmelo, maçã, queijo e muitas outras coisas tradicionais da ilha. O carro fazia muito fumo que prometia fazer-nos enjoar mais uma vez. Os adultos sentaram nas cadeiras e nós, as crianças sentámos no fundo da caixa, juntamente com as malas. Saímos do cais, fizemos a curva e entramos na estrada principal.
Iniciamos a subida para a zona de Lombo da Figueira. A estrada parecia ter 104 curvas e contracurvas, o que nos fazia enjoar ainda mais. Depois de passar mal no barco agora era a vez de passar mal no carro até ao paraíso, Chã de Igreja. Chegando lá em cima, na zona de Lombo de Figueira, deparamos com um frio intenso. A floresta de pinheiros, por momentos, fazia-nos pensar que estávamos na Europa. Este era o momento que a nossa mãe nos dava um casaco para nos agasalhar melhor.
Do alto da montanha, contemplando o mar, víamos o barco lá em baixo. Coitados dos que vão fazer a travessia agora, pensava eu.


CAPÍTULO 2 – A VILA DE CHÃ DE IGREJA

Chegámos na zona de "Delgadinho" e de repente o silêncio tomou conta do camião. O lugar mete medo com os precipícios dos dois lados da estrada. Fechamos os olhos e só respiramos depois de termos atravessado aquela parte perigosa da estrada. Depois de longas horas de viagem, de termos percorrido toda a Ribeira Grande, chegámos na Garça. E depois da Ponte de Garça descemos para a ribeira que nos levava enfim, para Chã de Igreja. Era sinal que já estávamos perto. Desengana-se. Na ribeira, o velho Bedford, ia devagar, pois andava em cima de pedregulhos e levava agora, muito tempo até chegar em Chã de Igreja.

Começamos a galgar a subida para Tchã de Riba. Aquela subida era íngreme que até sentíamos medo do carro rolar para baixo. Chegámos no Tanque de Cruz e de lá já podíamos ver a torre da igreja. Como “mussim de soncente”, estava ansioso para tomar um banho de tanque. A alegria era enorme. Já estávamos a chegar no nosso paraíso de férias.

Chã de Igreja é uma pequena e bela vila, mas que parece uma cidade em miniatura. Terra de pessoas educadas, com ruas limpas e organizadas, com muita cana à volta, altos coqueiros, com um cheiro de manga por todo o lado. No centro da vila existe uma bonita igreja, a qual dá o nome à vila de Chã da Igreja.

Vi o fumo saindo de uma padaria. Lá estava nhá Cevília, na porta da sua casa. Pude sentir o cheiro das saborosas broas que só ela sabia fazer. Na rua de Papinha, pude sentir o cheiro dos donetes quentes que a nossa prima Kika fazia para vender.

Descemos e passamos ao lado da casa de nhá Puntcha e lá estava o Tojê na varanda, como sempre, a fumar o seu cigarro. Fomos para a “rua de Baixo” e o chafariz estava cheio de gente na fila de água.
Dobramos a esquina e logo chegámos na casa da minha avó Ludovina “Vinha”. Todos os nossos familiares saíram para cumprimentar-nos e ajudar com as malas. A Fátima estava a pentear o cabelo da “Ti Tuda” uma vizinha idosa e muito amável. Era uma alegria total. Entrei em casa da minha avó e fui direto beber a água fresca do “Pote de barro”.
Abraçamos a nossa avó Vinha, o avô Saturnino, os nossos primos e as nossas tias. Parecia que a nossa família inteira estava em Chã de Igreja. O pequeno-almoço já estava preparado para nos receber. Na mesa tinha mandioca frita, chá de hortelã, cachupa guisada e omeletes. O cheiro era irresistível.
Do quintal da casa da nossa avó, contemplámos uma enorme montanha que separa Mocho e Chã Igreja. Parecia que ia cair-nos em cima. A casa da minha avozinha tinha duas partes, uma parte com casas de pedra, cobertas de palha e outra parte com uma casa de primeiro andar com um alçapão e uma cave na parte de baixo. Da varanda, dava para ver o quintal onde tinha os outros quartos, a cozinha e a sala de jantar. Tinha um curral com cabras, galinhas e um enorme pé de Fruta-Pão. Lembro-me perfeitamente que eu e a minha mãe ficámos juntos num quarto.
No dia seguinte, de manhã cedo, quando eu levantei apanhei uma caneca de folha de latão e chamei o Aldevino, meu primo mais velho e pedi-lhe um favor especial:

- “Ó Aldevino, bô podia trazeme um bocadim de leite de burro, de favor?”
Eu, como “boys de Soncente” e na minha santa ignorância, pensava que todos os animais davam leite, até o burro. Mas lá foi o Aldevino e voltando com a caneca cheia de leite, disse-me:

- “Tmá bô leite de burro, é bom e faz crescer”.

Bebi o leite todo e até fiquei com um bigode de espuma. As férias estavam a começar da melhor forma.

CAPÍTULO 3 - OS RATOS DO ALÇAPÃO

A casa da nossa avó “Vinha” tinha um alçapão, ou seja, uma cave onde ela guardava todas as encomendas, como bolos, sacos de bolachas que os filhos dela mandavam de São Vicente. Ela guardava tudo o que era coisa boa, desde latas de atum, aguardente, tambores de milho de colheitas dos anos anteriores, etc…

Certa vez, a nossa avó "Vinha" entrou no Alçapão para buscar algum arranjo para o almoço e o Humberto, filho da tia Rosa, foi atrás dela e escondeu-se atrás da porta. A nossa avó Vinha foi, apanhou o que tinha que apanhar lá dentro, saiu e fechou a porta à chave, mas o Humberto ficou lá dentro escondido. O Humberto, depois disso, começou a apanhar coisas no alçapão. Apanhou pão, bolacha, bolo, drops e dava para os outros primos que estavam na parte de fora, através de uma janela que tinha uma grade e para mais tarde irmos comer às escondidas. Ele fazia aquilo com muita rapidez pois, a nossa avó era esperta e a qualquer momento podia aparecer e colocar todo o processo do transbordo da mercadoria em perigo.
Nós as crianças tomávamos as latas de conservas e corríamos para escondê-las debaixo da cama para comermos tudo, logo à noite.
Depois de escondermos uma boa quantidade de produtos, o Sílvio, como era o mais ligeiro e também ninguém desconfiava dele, foi buscar a chave na nossa avó Vinha de uma forma escondida para libertarmos o Humberto.

Com o Humberto em liberdade, ele próprio tomou a chave e foi coloca-la no avental da avó Vinha, onde guardava o seu “canhato” e o tabaco torcido, sem que ela soubesse, pois, ele era o seu neto predileto, o seu braço direito e ela não desconfiava nunca dele.
Mas a nossa avó “Vinha” depois, ficou desconfiada e ficou a ter mais atenção. E então, sempre que ela ia fechar a porta, já não deixava ninguém entrar atrás dela. Agora a estratégia tinha que ser mudada. A janela tinha dois ferros cruzados tipo grade, para que ninguém entrasse no alçapão, mas como o meu primo Sílvio, era mais pequeno e muito flexível, os meus irmãos e os meus primos maiores, seguravam nos pés dele e ajudavam-no a entrar lá dentro da cave, através daquela janela. O Sílvio era mais rápido do que o Humberto, e ele agora trazia mais produtos. Agora, a noite fazíamos um banquete real com muito mais produtos. E assim íamos enganando a nossa avó.

Certo dia, ela foi buscar coisas para fazer o almoço e encontrou restos de bolo no chão e disse: “Os ratos andam a comer os bolos e as bolachas. Vou ter que arranjar um gato para carregar daqui esses ratos, porque esses são diferentes e até levam latas de atum. Felizmente, ela nunca desconfiou que esses ratos eram os próprios netos.
As tardes eram passadas a jogar na pracinha; a ver os jogos de futebol entre “Nô pintcha” e “Carvon” no campo atrás da igreja ou ainda os jogos entre “Bordera” e rua de “Papinha” no campo da ribeira. Autelindo, Jon d’ipóldo, Calú e outros eram considerados os craques destas equipas.
Caçar pardais para assar no fogão de lenha era um dos nossos passatempos preferidos. Eu, Sílvio e o Didi, fazíamos disputas para ver quem caçava mais. É claro que o Didi ganhava sempre visto que, ele cresceu em Santo Antão.

Pardal assado com um pouquinho de sal a mistura era um manjar dos deuses. Podem até achar que um pardal não tem quase nada para comer, mas dez ou mais pardais juntos, dá um almoço fabuloso. À tarde, nós religiosamente íamos lá para casa de Ti Marco só para ver a Kika fazer donetes, e claro, nós comíamos os primeiros que saíam.
E assim passávamos os dias das nossas férias.

CAPÍTULO 4 – A BANANA DO JORGE DE MANA

As tias levantavam bem cedo para tratar do pequeno-almoço e nós, as crianças, saíamos para rua e só voltávamos para as refeições. Numa dessas saídas fomos para o Tanque de Cruz e os meus primos mais crescidos tomaram banho no tanque, mas nós, nem molhamos os pés porque tínhamos medo de apanhar do nosso avô que nos aconselhava a não cair no tanque. E eles como eram mais crescidos e destemidos desobedeceram.

Quando chegámos em casa, lá estava o nosso avô Saturnino à nossa espera, com um lato de três pernas que ele apelidou de “banana”. Ele chamou todos os netos, um por um, e quem estava molhado, foi castigado. “Toma, toma, a tua banana.” Quem saía da sala chamava o próximo para receber a sua “banana”. Nós, como não tínhamos tomado banho no tanque, não fomos castigados e escapamos da sova.
Todos tinham levado uma surra, mas, ficou a faltar o Jorge de Mana, porque no caminho ele tinha parado na casa da avó materna, a “Mana”. Piduca e Paulo voltaram para busca-lo. E para engana-lo, disseram:

- “Jorge, o vovô Saturnino mandou-nos chamar-te e ele disse para ires tomar uma banana. Nós todos já comemos a nossa banana, agora falta só tu para tomares a tua”.

Jorge era manco de uma perna, desde nascença e coxeava, mas para tomar a banana ele foi rapidamente que parecia um carro de corrida. E no caminho ia repetindo:

- “Vou tomar a minha banana sim, e vou a correr.”

Ele chegou, bateu na porta, entrou e disse:

- “Vovô Saturnino, vim tomar a minha banana. Os meus primos disseram que tens uma banana para mim.”

E o nosso avô, de lá dentro, gritou:

- “Sim podes entrar e vem cá tomar a tua banana.”

E Jorge, todo contente, entrou naquela sala e o avô Saturnino segurou-lhe nos braços e com o cinto bateu-lhe três vezes:

- “Toma a tua banana. Esta é que é a banana que eu tinha para ti.”
E ele, chorando, saiu triste daquela sala e os outros primos, agora encostados na parede, riram-se muito dele. Até dava pena ver as marcas do lato nas pernas dele.

Mas mesmo assim todos os dias nós íamos para o tanque de Cruz nadar, escondidos do nosso avô. E Jorge de Mana estava sempre na linha da frente. O tanque era grande e tinha muita água. Era uma delícia nadar naquele tanque.

Nunca mais esquecemos deste episódio e hoje sempre que falamos de banana lembramos de Jorge de Mana e a sua banana.

CAPITULO 5 - A VIAGEM DE VOLTA PARA SÃO VICENTE

O mês de Outubro chegou ao fim. As férias terminaram. Era tempo de voltar para São Vicente. E nós, na véspera da partida, ficamos até tarde, a falar das maravilhosas férias que tivemos. No dia seguinte, amigos de Chã de Igreja foram nos despedir. Quando o carro já ia dobrar a esquina, voltamos a cara para trás, com um nó na garganta e quase chorando, com a mão bem alto, fizemos adeus para a nossa avó Ludovina, a nossa querida “Vinha”. Ela, com uma cara triste, ficou a acenar-nos até o carro desaparecer no fim da rua.

Dentro do caminhão o cheiro do fumo era intenso. Já com alguns minutos na estrada, começamos a dormir. Quando chegamos no cais do Porto Novo, tinha um calor que parecia que o chão estava pegando fogo. Era uma confusão em cima do cais com o negócio de verduras. E lembrar que íamos no mesmo barco, começávamos a ficar enjoados. Podíamos até vomitar, mas estávamos muito felizes a caminho de São Vicente depois de termos passado umas boas férias.

Só não sabia eu, que a minha mãe nos tinha levado para essas “maravilhosas férias” com o intuito de deixar-nos com a nossa avó e depois partir para a Itália, porque a vida em São Vicente não estava fácil. Anos mais tarde, ela contou-nos toda a história, explicando que desistiu da viagem porque, enquanto de dia, nós ríamos de alegria, ela, à noite, chorava de tristeza de ter que deixar os filhos para trás, para serem criados por outras pessoas. Ela já tinha até o bilhete de passagem comprado, mas sentiu pena de nós e não viajou. Deixou o sonho de ter uma vida melhor para ter a realidade e a alegria de viver com os filhos. Creio que ela não se arrependeu da decisão que tomou naquele dia. Nós agradecemos a nossa mãe por esta sábia decisão até hoje.

Foram as melhores férias da nossa infância.

(César Fortes - 28/5/2019)


Este conto participou do 8º concurso de literatura mórmon, ficou no 4º lugar no concurso "Mormon Lit Blitz de 11 de Julho de 2019"

“As minhas férias na ilha de Santo Antão,” César Augusto Medina Fortes
https://lit.mormonartist.net/2019/07/my-vacation-on-the-island-of-santo-antao-by-cesar-augusto-medina-fortes/
https://lit.mormonartist.net/2019/07/as-minhas-ferias-na-ilha-de-santo-antao-cesar-augusto-medina-fortes/?fbclid=IwAR1QIa4RAE7T6YYK9zuTIXeMPhb8t6b8-ym5j71W9OCIL9pMZ-iTY2uQj3g

Mormon Lit Blitz
11 de julho de 2019 •
“As minhas férias na ilha de Santo Antão":
https://lit.mormonartist.net/…/as-minhas-ferias-na-ilha-de…/