quarta-feira, 29 de abril de 2020

A VINGANÇA DOS PNEUS FURADOS


Todos os dias, depois das aulas, nós os rapazes da rua 10, corríamos para casa, atirávamos a pasta para qualquer canto e saíamos à rua, para jogar futebol na calçada. Escusado será dizer que, de vez em quando, um de nós, tirava um "beef" do pé ou perdia uma unha durante uma jogada emocionante. Éramos tão “fominhas” para o futebol, que não seria um probleminha daquele tipo que nos iria parar.

Fomos animados para o nosso "estádio" em frente de Nhá Mari D'Lurdes." Tínhamos como balizas, os postes de luz e umas pedras. Uma baliza ficava mesmo em frentre da casa de Nhá Mari D'Lurdes, daí o nome, e a outra ficava em frente da casa de Nhá Sabina. Na rua não passava muitos carros, logo nós não tínhamos muitos problemas mas, mesmo assim colocávamos dois rapazes de plantão se caso aparecesse algum carro. Um ficava na ponta da casa de Nhá Montinha e o outro ficava, lá em baixo, na ponta da casa de Nhô Silvestre. Estes dois ficavam como suplentes mas, com a garantia que iriam jogar na segunda parte e seriam substituídos por outros dois que jogariam na primeira parte.

Eu, naquele dia, tinha a garantia que jogaria todo o jogo porque a bola era minha. Caso alguém pensasse substituir-me, seria um problema, pois, eu iria para casa e a minha bola iria comigo. Consequentemente o jogo terminaria logo alí.
Sempre que íamos jogar, tinha um vizinho que estava sempre pronto para ver o nosso jogo, Nhô Lela Testa. Era basta ele ouvir a nossa algazarra, que ele abria a janela do 1°andar da sua casa, colocava o seu radiozinho no ouvido, puxava a anteninha, sintonizava-o na RDP e enquanto ouvia o seu relato de Portugal, ia vendo o nosso na calçada. Ele era um amante do futebol. Diziam que na sua juventude, ele foi um grande jogador de futebol.

Tudo estava pronto para o jogo começar. Lançamos moeda ao ar para verificar quem iria ficar sem camisola e quem começaria o jogo. A bola já estava no centro, faltava apenas um árbitro. Foi aí que Nelson gritou: -" Ó Nhô Lela Testa, bocê podia pitá nôs esse jogo?" Ao que ele, de pronto aceitou. Era apenas para marcar o tempo e gritar quando fosse falta.
Demos início ao jogo. Didi passou a bola para Jair, Jair passou para Sílvio, Sílvio chutou com tanta força que a bola passou mesmo ao lado do poste. Bola para fora.

Mas neste exato momento, Nhô Lela Testa gritou: "goooolo". Os rapazes sem camisola começaram a barafustar, alegando que a bola tinha saído para fora, enquanto nós, felizes da vida, começamos a festejar. Todos nós fomos para debaixo da janela de Nhô Lela Testa e perguntamos:-" Afinal é golo ou não?" E ele respondeu:-"Calma rapazes, eu estava a gritar é golo mas em Portugal. Foi golo do Sporting. Li na bsot comp é ponta pé de saída. Bola saí fora. Bsot desculpame. Nô continuá."

Recomeçamos o jogo e o Renato de Poia chutou a bola com tanta força que ele rasgou a sola do pé numa pedra e a bola, por sua vez, foi cair dentro do quintal de Nhô "Custódio mau". Toda gente calou. Foi um silêncio total, pois sabíamos que quando uma bola caia no quintal daquele senhor, ele a devolvia em pedacinhos. Fui bater na porta da garagem dele. Nhô Custódio abriu a porta que guinchava como se de um filme de terror se tratasse.

Ele era um homem de baixa estatura, corpo quase gordinho e meio careca. O povo falava que ele tinha um filho no estrangeiro mas, realmente ele era um senhor amargurado e que vivia sozinho. Com o seu ar assustador, sorrindo, sinicamente, perguntou-me: -"Queres a tua bola rapazinho?"
-"Sim senhor. Por Favor."
Ele foi lá dentro e depois de alguns minutos ele abriu a porta e lançou para o ar, a minha bola em mil pedacinhos.

Nós, as crianças de rua 10, inofensivas, tentando praticar um desporto, e aparece-nos um homem fazendo-nos tal brincadeira?! Ele era mau. Eu comecei a chorar muito, pela minha bola novinha que a minha tia Rosa me tinha oferecido no Natal. Fui na porta da garagem dele, chorando, dando socos na porta, gritei:-" Bocê é mau Nhô Custódio. Bocê ca têm fel? O Senhor não tem filhos?"

Eu soluçava de raiva. Foi quando o "Djão" chegou perto de mim para me consolar e disse-me: -"Podes ficar descansado porque vamos vinga-lo. Ele pode esperar para ver "o quê é que é bom pá tosse". E Djão traçou um plano. Fomos até a casa dele, apanhamos umas tábuas de 1 metro, colocamos muitos pregos e ficamos a espera para quando Nhô Custódio fosse tirar o carro da garagem. Ele iria ter uma grande surpresa.
Depois de algumas horas de plantão, um dos rapazes assobiou-nos e o outro gritou:
-"Olil tá trá corre de garagem!" Todos nós saímos a correr com as quatro tábuas, cheias de pregos. "Ele não sabe com quem ele se meteu." Dizia o Djão, enquanto caminhávamos em direção à porta da garagem. Ele abriu a porta e nós escondemos. Ele entrou no seu carro de caixa, uma Volkswagen kombi de 1950. Ele tirava o carro da garagem, sempre de ré. E isso era perfeito para nós porque assim, ele não nos podia ver.
E assim foi. Metemos em baixo do carro e fomos em cada roda, colocamos uma tábua cheia de pregos. Ele começou a descer a rampa da garagem e ouvimos quatro barulhos em simultâneo:-"fzzzzz". Parecia música para os nossos ouvidos. As quatro rodas do carro estavam furadas. Ele ouviu o barulho, parou o carro, desceu e foi ver o estrago. Viu para os pneus, olhou para nós, sorriu, como alguém que queria dizer:-" Depois eu vos apanho, seus pestinhas. E nós assobiávamos para o lado como se não soubéssemos o que estava a passar.
Ele entrou no carro e colocou-o dentro da garagem de novo. E nós, lá fora, rimos até cair no chão de tanta alegria. Tínhamos-lhe feito sentir o sabor amargo da derrota. Mas, sabíamos perfeitamente que, a partir daquele dia, tínhamos aberta uma guerra com o Nhô "Custódio mau".
A guerra durou muito tempo. Sempre que íamos jogar futebol na rua e se uma bola caísse no seu quintal, minutos depois ele arremessava os picadinhos da bola. E nós ansiosamente, ficávamos a espera, quando ele fosse tirar o carro da garagem.

Para nós, uma bola era difícil de se obter mas, para ele, a despesa dos pneus era muito maior. Nós não tínhamos dor dele porque, ele também, não tinha dor de nós, as crianças da rua. A guerra com o Nhô "Custódio mau", parecia que nunca chegaria ao fim, até que um dia, para o nosso espanto, estávamos a jogar lá perto da sua garagem, quando "Nelsa de Ya" foi colocar uma bola em jogo e com tanta força, ele chutou a bola tão alto que ela caiu dentro da garagem de Nhô "Custódio mau". Todos nós, começamos a roer as unhas, tristes, porque era mais uma bola que iríamos perder.

Mas, tal foi o nosso espanto, quando ele abriu a porta da garagem, vendo para nós, com um ar tranquilo, atirou-nos a bola impecável e inteira. Foi uma grande festa. Nem queríamos acreditar no que estava a acontecer. Creio que ele, pensando nos seus pneus, resolveu fazer as pazes connosco. A partir daquele dia, sempre que uma bola caia na garagem dele, ficávamos a ver para cima da parede da garagem porque, sabíamos que ele, com certeza iria arremessar-nos a bola para o campo, outra vez. E batíamos palmas cada vez que ele nos devolvia uma bola e em uníssono gritávamos:
-"Muito obrigado Nhô Custódio".

E nós, da nossa parte, como sinal de paz, até o ajudávamos a fazer as manobras, na hora de tirar o carro da garagem. Ficamos muito felizes, pela paz conseguida. Nós todos, saímos a ganhar. Agora, durávamos mais tempo com uma bola e o carro de Nhô Custódio durava mais tempo com os seus pneus.

Assim aprendemos que, não devemos tratar mal as crianças e nem as crianças devem tratar mal os idosos.

(César Fortes- 8/12/2019)

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