A pandemia passou.
Que alegria nas ruas.
Desci para passear na cidade do Mindelo e passei perto do Palácio do Povo, senti vontade de chupar um "drops". Encontrei uma senhora vendendo num balaio. Na hora de pagar, ela foi logo dizendo:-"mim m'ta recebé só com cartão. Tcham bai logo ta dzeb."
Ninguém já quer receber dinheiro. As coisas mudaram.
Fui para a rua de Lisboa e vi pessoas se abraçando como nunca tinham feito. Davam abraços apertados e davam mais e mais, só para matar saudades.
Os supermercados, de novo, estavam cheios de gente. Já ninguém queria saber mais de papel higiênico.
Passei perto do prédio da direção de trabalho, e percebi que estava cheio de processos disciplinares, porque alguns já não querem voltar para o trabalho.
Constatei que os nossos velhos já não querem sair de casa, pois, ficaram traumatizados com o corona.
Percebi que a China, agora é a maior potência do mundo. A América perdeu a sua hegemonia.
Foi reeditada a história de "Alibaba e os 40 ladrões" para simplesmente " Alibaba", em homenagem ao criador da loja online "Alibaba", Jack Ma. Pois, desta vez, nem os 27 e nem os 40 ladrões ajudaram. Todas as vendas online passaram a ser realizadas, unicamente, por esta loja online. As outras faliram.
Entrei numa farmácia e vi que já fazem promoção como "compra 1 paracetamol e leva 1 álcool-gel e 2 máscaras de graça". Antes, nunca tinham estes produtos disponíveis.
Na Morada, vi que o comércio se reinventou e surgiu novas casas comerciais, como por exemplo: "O Gelfalso"; "A Máscara" e "Alho 1000".
Nove meses depois da pandemia, nasceram muitas crianças com nomes estranhos, como por exemplo: Álcoolgelson de Oliveira e Covidson da Cruz.
Passei pelas bandas de Chã de Cemitério e vi que, também surgiram novas funerárias como a "Tude pa rápido" e " Bai bô sô".
Cansado de tanto andar, sentei-me numa pracinha de uma casa em Monte Sossego e através de uma janela, consegui ouvir um rádio que estava sintonizado na Rádio Nova, que dizia que a música do Jorge Neto " Sem ninguém" foi eleita a melhor música do ano, talvez porque o povo já estava muito tempo "sozinho e isolado".
Declarou-se também, que a palavra mais procurada no google este ano foi "Corona" e em segundo lugar foi "papel higiênico". Não se sabe o porquê.
Entrei num autocarro, e vi que já pouca gente anda nos transportes públicos, tudo por culpa da doença que arrasou o mundo.
Já não há "cassubody" porque se alguém vier assaltar-te é basta espirrar que ele foge.
Entrei na rua de " Matijim" e vi que já vendem um "grogue" engarrafado, que colocaram o nome de "Covid". Talvez pela sua má qualidade na produção que é capaz de matar.
Continuei a caminhada até Laginha, onde em pleno verão, estava deserta, sem ninguém. Todos ficam no calçadão, com receio de descer na praia.
As discotecas estão vazias. Fazem promoção, oferecendo cartão para um mês de entrada grátis, mas mesmo assim, ninguém vai.
Os namorados já não se abraçam. Beijos agora, dizem eles, só depois do casamento. Agora, até para casar, têm que fazer um acordo pré-nupcial, onde consta, obrigatoriamente, uma lista de vacinação.
Já ninguém vai para os enterros e ninguém dá pêsames. Agora guarda-se a distância social. Triste mesmo.
O festival da Baia foi suspenso logo no primeiro dia por falta de público. Ainda o povo tem medo de se juntar.
As escolas nunca mais foram abertas. As aulas, agora, são dadas todas, via internet.
Constatei que, o governo apostou forte na saúde e temos agora hospitais de ponta em África.
Muitas pessoas ficaram deprimidas por conta da quarentena. Muitos psicólogos, abriram agora mais clínicas.
Os cafés e restaurantes estão, de novo, cheios. Os turistas já, estão outra vez, nas nossas ruas, apreciando a nossa morabeza.
Os idosos, de mais de 65 anos de idade, já têm um estatuto especial para serem tratados em primeiro lugar, nos hospitais.
Os médicos foram condecorados com a ordem de "Amílcar Cabral" por terem sido uns heróis na luta contra o "Coronavirus" e passaram a receber igual a um jogador de futebol.
Hoje, passado um ano da epidemia do "Covid-19", o mundo está a começar a se erguer da recessão, causada pela crise que veio logo a seguir.
Verifiquei que muitas pessoas passaram a acreditar em Deus por terem superado a Covid. O que é bom.
Hoje, vejo um Cabo Verde melhor, que com uma população forte e dedicada, conseguiu lutar e ultrapassar o "Coronavirus".
Depois disto, nada ficou como dantes. Mas mesmo assim é continuar para frente.
E no confinamento, 3 grandes músicas me ajudaram a aguentar com fé e me fizeram preservar até que a crise do virus passasse. Foram elas:
1° "Sem Ninguém" (Jorge Neto) https://youtu.be/oVNQU1V2FfU
2° "Jerusaléma" (Master KG) https://youtu.be/fCZVL_8D048
e 3° "Bai"(Soraia e Lisandro)
https://m.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=sJ9Y2Un5VBQ
Ao ouvi-las fico arrepiado.
Ainda bem que o Coronavirus passou. "Bai" e nunca mais volte.
(César Fortes - 29/03/2020)

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