Fechamos os olhos e ficamos a espera do ataque final. Mas para a nossa surpresa começaram a lamber-nos. "Pára, pára!" Gritamos nós. Perguntei porquê faziam aquilo, e um cão respondeu-me:-"É que estávamos a deambular pelas ruas da cidade e sentimos o cheiro de grelhado do "Festival de Cavala Fresk" mas os fiscais não nos deixaram entrar nos espaços onde vendiam os petiscos, dizendo que o pitéu é só para quem pode. Então nós, não podendo, saímos tristes do espaço reservado, na rua da praia. Saímos para tentar a sorte por outras bandas mais acessíveis. Foi quando vocês apareceram e animamos. Mas galo sem ser grelhado, não tem piada e carne humana deve ser "crutch" quanto mais com uma certa idade, sem ofensa senhor."
Já safos, o galo perguntou:
- “O que fazem tantos animais abandonados na rua?" Foi alí que cada um esclareceu-nos a razão de viver na rua:
1-O Boby, um cão, Pastor alemão, disse:
-" Meu dono comprou-me num criador por 40 mil escudos. Levou-me para casa, fez-me uma casota e eu estava mesmo feliz. Nos primeiros anos ele levava-me para todos os lugares só para exibir junto dos amigos. Era toda hora na Laginha. Mas depois de alguns anos apanhei uma doença de pele, fiquei cheio de "coceira" e ele já não tinha mais interesse em cuidar de mim e colocou-me na rua.
2- O gato Siamês, Pxinha:
- "Minha dona cuidava de mim com muito carinho. Eu era o biblô da família. Certo dia ela perdeu o emprego e o dinheiro começou a faltar lá em casa e as coisas começaram a complicar-se. Não ter mais dinheiro para cuidar de mim, foi a desculpa que ela encontrou para colocar-me na rua."
3- Papagaio, Pipi:
-" Sou um papagaio comprado no mesmo lugar que Djibla "tá comprá kes de seu". No princípio eu era bem tratado. Ensinaram-me a falar. Colocavam-me na sala, num alpendre, para quando as crianças fossem lá visitar para que eu pudesse ser o bobo da festa. Até aí tudo bem. Mas certo dia, o meu dono levou uma mulher diferente lá para casa e vi o que não devia ter visto. Como sabem, papagaio não consegue ficar calado. E naquele dia fiquei só a repetir "braçame pertode Neusa"; "Bejame forte John". E não é que Neusa era comadre da minha dona!! Ferrei tudo. Meu dono, o John, amarrou-me uma pedra no pé e atirou-me do Furtim. Minha sorte é que no exato momento, lá em baixo, estava a passar um caminhão cheio de milho que ia para o Silo da Moave. Fiquei com um pé amputado. Hoje vivo com os pombos em cima da Moave. É lá que sou feliz, longe do John."
4-Vira-lata, Tarzan:
-"Colocaram-me o nome de Tarzam porque eu estava sempre a uivar e a saltar. Quebrei muita coisa em casa. Quando pequeno, eu era o cão mais bonito da rua. Tinham-me oferecido como prenda de aniversário para a filha da minha dona. Ela tratava-me como brinquedo. Assim como todas as crianças, ela cedo se fartou de mim. Começou a atirar-me pedras e paus. Antes, metiam-me no carro, levavam-me para passear na Baia aos domingos. Eu era um cãozinho de sala. Meu primo PitBull tinha-me ensinado alguns truques de guerra. Certo dia mordi a filha da minha dona por ela estar a maltratar-me com um pau. Ela não gostou muito.
Nasceu outro bebé na família e colocaram-me a parte. Eu já não era amado mais. Foram procurar outro apartamento para viver e eu já não fazia mais parte dos seus planos. Foi uma tristeza! Deixaram-me para trás e eu sentado no meio da rua, vi o carro com a minha antiga família perder-se no horizonte. Mais tarde ainda, um senhor, o Manel, levou-me para morar com ele lá para a zona de Alto de S.Nicolau. Ele morava sozinho, com um coração cheio de amor mas com um bolso vazio de dinheiro e com um corpo sem saúde. Meses mais tarde, ele veio a falecer. Eu dormia todos dias na porta da casa dele na esperança que ele voltasse para cuidar de mim. Mas no sétimo dia, os familiares fizeram um tipo de festa em homenagem ao Manel. Depois da festa, trancaram a porta com um cadeado. Foi ali que compreendi que eu, mais uma vez, tinha que tomar o meu rumo. E estou na rua desde daquele tempo."
O Galo com lágrimas nos olhos disse:
-" Lindas e tristes histórias. Não é, humano?
- Sim, sem dúvida.
- Óh humano César. Se vocês gostam tanto dos animais, como dizem, eu não compreendo o porquê maltratam tanto os animais?! Quando são pequeninos e fofinhos, vocês estão com eles para cima e para baixo mas, quando começam a ficar doentes e velhos vocês os abandonam.
É por isso que vocês humanos, estão assim, com tantos problemas na vossa sociedade. Como tratam os animais, mostra como vocês também tratam as pessoas. Querem é exibir e dar o show quando tudo está bem. Quando surge o primeiro problema abandonam tudo. Vocês abandonam as vossas crianças nas ruas de Cabo Verde. As praças estão cheias de velhos abandonados pelos próprios filhos que, por ganância de riquezas, colocam os pais na rua ou num lar abandonados. Que sociedade é esta óh humano César?!
Muitos cães que antes serviam para dar show, hoje estão abandonados na rua. Assim como um pai abandona seu filho é responsabilizado, ou pelo menos deveria ser, também quem abandona um animal de estimação na rua, deveria ser responsabilizado.
Ter um animal de estimação é um acto de responsabilidade e não deve ser feito de uma forma impusilva ou leviana. Se tens um cão ou qualquer animal doente ou velho, cuida dele. A associação "Sima bô" pode ajudar nisto. Assim como deves cuidar dos teus entes queridos também.
Sabes, César. Eu tenho vergonha de alguns humanos.
E já agora, quando eu ficar um galo velho, quando eu já não puder mais cantar como antes, vais abandonar-me na rua?
-"É claro que não! Ninguém abandona um galo como tu. Já fazes parte de mim. Os amigos são para toda a vida."
-"Quem fala assim não é galo, digo, gago. Vamos para casa porque já senti vontade de comer um pouco de milho. Até a próxima, amigos. Assim como pessoas não devem viver na rua, os animais também não."
Infelizmente estamos a ver muitos animais nas ruas de Cabo Verde.
(César Fortes - 13/7/2019)








Sem comentários:
Enviar um comentário