quarta-feira, 29 de abril de 2020

AS MINHAS PRIMEIRAS FÉRIAS EM SANTO ANTÃO



CAPÍTULO 1 – A VIAGEM PARA SANTO ANTÃO

As aulas terminaram no dia 10 de Junho. E para a nossa alegria, as férias tinham começado. Santo Antão seria o nosso destino. Os meus irmãos Autelindo e Joselito já tinham ido para a ilha de Santo Antão uns dias antes e nós, eu e as minhas irmãs Zenaida e Vanda, como éramos mais novos, ficamos para trás para irmos com a nossa mãe.
Saímos de casa bem cedinho, logo às 6:30 de manhã e fomos para o cais de São Vicente. Lembro-me que apanhamos o táxi de nhô Custódio, um táxi Mercedes-Benz, branco, cadeiras de couro, perfumado, com um cãozinho de plástico no tablier, que mexia a cabeça à medida que o carro andava. O carro estava novinho em folha. Por ser tão bonito, todos o solicitavam para transportar os noivos. Nós, as crianças da zona, carinhosamente apelidamos o táxi de “carro de casamento”. Como podem imaginar, eu estava muito feliz por ter a oportunidade de andar na viatura mais solicitada pelos noivos da ilha. Durante o trajeto para o caís, eu não parava quieto, observando como nhô Custódio girava o volante e trocava a mudança. Era algo admirável.
Quando chegamos no Porto Grande, tinha uma multidão esperando na fila para entrar no ferry-boat “Porto Novo”. Pude ver também, os barcos Arca Verde I e II. O mar estava um pouco revolto, tinha muito vento naquele dia. Os barcos já estavam a dançar atracados no cais, imagina no alto mar como será? Pensava eu. Mesmo assim lá fomos nós. O barco, mais conhecido por “ferry-boat”, tinha fama que fazia enjoar até as malas, quanto mais pessoas! Tinha gente, que só de ouvir o nome do barco já ficava enjoada, como é o caso da Ti Jona. O barco subia e descia as ondas, sem termos certeza se voltava para a superfície outra vez. Pessoas gritavam:

- “Óh nhá mãe! Mar cá tem Figueira, ondê que mim tá bai segurá, se esse barco bai pá funde? Esse barco li é pá andá é na rio e não nesse canal de Sintanton”.

Mas nós crianças, estávamos animadas de qualquer forma para chegar à Santo Antão. Depois de uma hora de viagem turbulenta, chegamos em Santo Antão. Lembro-me que o cais de Porto Novo tinha um calor infernal e não tinha nenhum sítio para se esconder do sol abrasador. Era tanta gente que a azáfama era grande. Uns descendo e outros preparavam-se para entrar no barco em direção à ilha de São Vicente. O cais era pequeno para tanta gente e tantos carros. Segurando as nossas tralhas, caminhamos em direção ao camião que nos levaria à Chã de Igreja. O Bedford de 1958, de cor verde, que pertencia à nhe Cuca, já estava a nossa espera.

Lá iniciamos a viagem de carro que demoraria umas três horas. No cais, víamos pessoas a vender “sucrinha” em forma de cone, marmelo, maçã, queijo e muitas outras coisas tradicionais da ilha. O carro fazia muito fumo que prometia fazer-nos enjoar mais uma vez. Os adultos sentaram nas cadeiras e nós, as crianças sentámos no fundo da caixa, juntamente com as malas. Saímos do cais, fizemos a curva e entramos na estrada principal.
Iniciamos a subida para a zona de Lombo da Figueira. A estrada parecia ter 104 curvas e contracurvas, o que nos fazia enjoar ainda mais. Depois de passar mal no barco agora era a vez de passar mal no carro até ao paraíso, Chã de Igreja. Chegando lá em cima, na zona de Lombo de Figueira, deparamos com um frio intenso. A floresta de pinheiros, por momentos, fazia-nos pensar que estávamos na Europa. Este era o momento que a nossa mãe nos dava um casaco para nos agasalhar melhor.
Do alto da montanha, contemplando o mar, víamos o barco lá em baixo. Coitados dos que vão fazer a travessia agora, pensava eu.


CAPÍTULO 2 – A VILA DE CHÃ DE IGREJA

Chegámos na zona de "Delgadinho" e de repente o silêncio tomou conta do camião. O lugar mete medo com os precipícios dos dois lados da estrada. Fechamos os olhos e só respiramos depois de termos atravessado aquela parte perigosa da estrada. Depois de longas horas de viagem, de termos percorrido toda a Ribeira Grande, chegámos na Garça. E depois da Ponte de Garça descemos para a ribeira que nos levava enfim, para Chã de Igreja. Era sinal que já estávamos perto. Desengana-se. Na ribeira, o velho Bedford, ia devagar, pois andava em cima de pedregulhos e levava agora, muito tempo até chegar em Chã de Igreja.

Começamos a galgar a subida para Tchã de Riba. Aquela subida era íngreme que até sentíamos medo do carro rolar para baixo. Chegámos no Tanque de Cruz e de lá já podíamos ver a torre da igreja. Como “mussim de soncente”, estava ansioso para tomar um banho de tanque. A alegria era enorme. Já estávamos a chegar no nosso paraíso de férias.

Chã de Igreja é uma pequena e bela vila, mas que parece uma cidade em miniatura. Terra de pessoas educadas, com ruas limpas e organizadas, com muita cana à volta, altos coqueiros, com um cheiro de manga por todo o lado. No centro da vila existe uma bonita igreja, a qual dá o nome à vila de Chã da Igreja.

Vi o fumo saindo de uma padaria. Lá estava nhá Cevília, na porta da sua casa. Pude sentir o cheiro das saborosas broas que só ela sabia fazer. Na rua de Papinha, pude sentir o cheiro dos donetes quentes que a nossa prima Kika fazia para vender.

Descemos e passamos ao lado da casa de nhá Puntcha e lá estava o Tojê na varanda, como sempre, a fumar o seu cigarro. Fomos para a “rua de Baixo” e o chafariz estava cheio de gente na fila de água.
Dobramos a esquina e logo chegámos na casa da minha avó Ludovina “Vinha”. Todos os nossos familiares saíram para cumprimentar-nos e ajudar com as malas. A Fátima estava a pentear o cabelo da “Ti Tuda” uma vizinha idosa e muito amável. Era uma alegria total. Entrei em casa da minha avó e fui direto beber a água fresca do “Pote de barro”.
Abraçamos a nossa avó Vinha, o avô Saturnino, os nossos primos e as nossas tias. Parecia que a nossa família inteira estava em Chã de Igreja. O pequeno-almoço já estava preparado para nos receber. Na mesa tinha mandioca frita, chá de hortelã, cachupa guisada e omeletes. O cheiro era irresistível.
Do quintal da casa da nossa avó, contemplámos uma enorme montanha que separa Mocho e Chã Igreja. Parecia que ia cair-nos em cima. A casa da minha avozinha tinha duas partes, uma parte com casas de pedra, cobertas de palha e outra parte com uma casa de primeiro andar com um alçapão e uma cave na parte de baixo. Da varanda, dava para ver o quintal onde tinha os outros quartos, a cozinha e a sala de jantar. Tinha um curral com cabras, galinhas e um enorme pé de Fruta-Pão. Lembro-me perfeitamente que eu e a minha mãe ficámos juntos num quarto.
No dia seguinte, de manhã cedo, quando eu levantei apanhei uma caneca de folha de latão e chamei o Aldevino, meu primo mais velho e pedi-lhe um favor especial:

- “Ó Aldevino, bô podia trazeme um bocadim de leite de burro, de favor?”
Eu, como “boys de Soncente” e na minha santa ignorância, pensava que todos os animais davam leite, até o burro. Mas lá foi o Aldevino e voltando com a caneca cheia de leite, disse-me:

- “Tmá bô leite de burro, é bom e faz crescer”.

Bebi o leite todo e até fiquei com um bigode de espuma. As férias estavam a começar da melhor forma.

CAPÍTULO 3 - OS RATOS DO ALÇAPÃO

A casa da nossa avó “Vinha” tinha um alçapão, ou seja, uma cave onde ela guardava todas as encomendas, como bolos, sacos de bolachas que os filhos dela mandavam de São Vicente. Ela guardava tudo o que era coisa boa, desde latas de atum, aguardente, tambores de milho de colheitas dos anos anteriores, etc…

Certa vez, a nossa avó "Vinha" entrou no Alçapão para buscar algum arranjo para o almoço e o Humberto, filho da tia Rosa, foi atrás dela e escondeu-se atrás da porta. A nossa avó Vinha foi, apanhou o que tinha que apanhar lá dentro, saiu e fechou a porta à chave, mas o Humberto ficou lá dentro escondido. O Humberto, depois disso, começou a apanhar coisas no alçapão. Apanhou pão, bolacha, bolo, drops e dava para os outros primos que estavam na parte de fora, através de uma janela que tinha uma grade e para mais tarde irmos comer às escondidas. Ele fazia aquilo com muita rapidez pois, a nossa avó era esperta e a qualquer momento podia aparecer e colocar todo o processo do transbordo da mercadoria em perigo.
Nós as crianças tomávamos as latas de conservas e corríamos para escondê-las debaixo da cama para comermos tudo, logo à noite.
Depois de escondermos uma boa quantidade de produtos, o Sílvio, como era o mais ligeiro e também ninguém desconfiava dele, foi buscar a chave na nossa avó Vinha de uma forma escondida para libertarmos o Humberto.

Com o Humberto em liberdade, ele próprio tomou a chave e foi coloca-la no avental da avó Vinha, onde guardava o seu “canhato” e o tabaco torcido, sem que ela soubesse, pois, ele era o seu neto predileto, o seu braço direito e ela não desconfiava nunca dele.
Mas a nossa avó “Vinha” depois, ficou desconfiada e ficou a ter mais atenção. E então, sempre que ela ia fechar a porta, já não deixava ninguém entrar atrás dela. Agora a estratégia tinha que ser mudada. A janela tinha dois ferros cruzados tipo grade, para que ninguém entrasse no alçapão, mas como o meu primo Sílvio, era mais pequeno e muito flexível, os meus irmãos e os meus primos maiores, seguravam nos pés dele e ajudavam-no a entrar lá dentro da cave, através daquela janela. O Sílvio era mais rápido do que o Humberto, e ele agora trazia mais produtos. Agora, a noite fazíamos um banquete real com muito mais produtos. E assim íamos enganando a nossa avó.

Certo dia, ela foi buscar coisas para fazer o almoço e encontrou restos de bolo no chão e disse: “Os ratos andam a comer os bolos e as bolachas. Vou ter que arranjar um gato para carregar daqui esses ratos, porque esses são diferentes e até levam latas de atum. Felizmente, ela nunca desconfiou que esses ratos eram os próprios netos.
As tardes eram passadas a jogar na pracinha; a ver os jogos de futebol entre “Nô pintcha” e “Carvon” no campo atrás da igreja ou ainda os jogos entre “Bordera” e rua de “Papinha” no campo da ribeira. Autelindo, Jon d’ipóldo, Calú e outros eram considerados os craques destas equipas.
Caçar pardais para assar no fogão de lenha era um dos nossos passatempos preferidos. Eu, Sílvio e o Didi, fazíamos disputas para ver quem caçava mais. É claro que o Didi ganhava sempre visto que, ele cresceu em Santo Antão.

Pardal assado com um pouquinho de sal a mistura era um manjar dos deuses. Podem até achar que um pardal não tem quase nada para comer, mas dez ou mais pardais juntos, dá um almoço fabuloso. À tarde, nós religiosamente íamos lá para casa de Ti Marco só para ver a Kika fazer donetes, e claro, nós comíamos os primeiros que saíam.
E assim passávamos os dias das nossas férias.

CAPÍTULO 4 – A BANANA DO JORGE DE MANA

As tias levantavam bem cedo para tratar do pequeno-almoço e nós, as crianças, saíamos para rua e só voltávamos para as refeições. Numa dessas saídas fomos para o Tanque de Cruz e os meus primos mais crescidos tomaram banho no tanque, mas nós, nem molhamos os pés porque tínhamos medo de apanhar do nosso avô que nos aconselhava a não cair no tanque. E eles como eram mais crescidos e destemidos desobedeceram.

Quando chegámos em casa, lá estava o nosso avô Saturnino à nossa espera, com um lato de três pernas que ele apelidou de “banana”. Ele chamou todos os netos, um por um, e quem estava molhado, foi castigado. “Toma, toma, a tua banana.” Quem saía da sala chamava o próximo para receber a sua “banana”. Nós, como não tínhamos tomado banho no tanque, não fomos castigados e escapamos da sova.
Todos tinham levado uma surra, mas, ficou a faltar o Jorge de Mana, porque no caminho ele tinha parado na casa da avó materna, a “Mana”. Piduca e Paulo voltaram para busca-lo. E para engana-lo, disseram:

- “Jorge, o vovô Saturnino mandou-nos chamar-te e ele disse para ires tomar uma banana. Nós todos já comemos a nossa banana, agora falta só tu para tomares a tua”.

Jorge era manco de uma perna, desde nascença e coxeava, mas para tomar a banana ele foi rapidamente que parecia um carro de corrida. E no caminho ia repetindo:

- “Vou tomar a minha banana sim, e vou a correr.”

Ele chegou, bateu na porta, entrou e disse:

- “Vovô Saturnino, vim tomar a minha banana. Os meus primos disseram que tens uma banana para mim.”

E o nosso avô, de lá dentro, gritou:

- “Sim podes entrar e vem cá tomar a tua banana.”

E Jorge, todo contente, entrou naquela sala e o avô Saturnino segurou-lhe nos braços e com o cinto bateu-lhe três vezes:

- “Toma a tua banana. Esta é que é a banana que eu tinha para ti.”
E ele, chorando, saiu triste daquela sala e os outros primos, agora encostados na parede, riram-se muito dele. Até dava pena ver as marcas do lato nas pernas dele.

Mas mesmo assim todos os dias nós íamos para o tanque de Cruz nadar, escondidos do nosso avô. E Jorge de Mana estava sempre na linha da frente. O tanque era grande e tinha muita água. Era uma delícia nadar naquele tanque.

Nunca mais esquecemos deste episódio e hoje sempre que falamos de banana lembramos de Jorge de Mana e a sua banana.

CAPITULO 5 - A VIAGEM DE VOLTA PARA SÃO VICENTE

O mês de Outubro chegou ao fim. As férias terminaram. Era tempo de voltar para São Vicente. E nós, na véspera da partida, ficamos até tarde, a falar das maravilhosas férias que tivemos. No dia seguinte, amigos de Chã de Igreja foram nos despedir. Quando o carro já ia dobrar a esquina, voltamos a cara para trás, com um nó na garganta e quase chorando, com a mão bem alto, fizemos adeus para a nossa avó Ludovina, a nossa querida “Vinha”. Ela, com uma cara triste, ficou a acenar-nos até o carro desaparecer no fim da rua.

Dentro do caminhão o cheiro do fumo era intenso. Já com alguns minutos na estrada, começamos a dormir. Quando chegamos no cais do Porto Novo, tinha um calor que parecia que o chão estava pegando fogo. Era uma confusão em cima do cais com o negócio de verduras. E lembrar que íamos no mesmo barco, começávamos a ficar enjoados. Podíamos até vomitar, mas estávamos muito felizes a caminho de São Vicente depois de termos passado umas boas férias.

Só não sabia eu, que a minha mãe nos tinha levado para essas “maravilhosas férias” com o intuito de deixar-nos com a nossa avó e depois partir para a Itália, porque a vida em São Vicente não estava fácil. Anos mais tarde, ela contou-nos toda a história, explicando que desistiu da viagem porque, enquanto de dia, nós ríamos de alegria, ela, à noite, chorava de tristeza de ter que deixar os filhos para trás, para serem criados por outras pessoas. Ela já tinha até o bilhete de passagem comprado, mas sentiu pena de nós e não viajou. Deixou o sonho de ter uma vida melhor para ter a realidade e a alegria de viver com os filhos. Creio que ela não se arrependeu da decisão que tomou naquele dia. Nós agradecemos a nossa mãe por esta sábia decisão até hoje.

Foram as melhores férias da nossa infância.

(César Fortes - 28/5/2019)


Este conto participou do 8º concurso de literatura mórmon, ficou no 4º lugar no concurso "Mormon Lit Blitz de 11 de Julho de 2019"

“As minhas férias na ilha de Santo Antão,” César Augusto Medina Fortes
https://lit.mormonartist.net/2019/07/my-vacation-on-the-island-of-santo-antao-by-cesar-augusto-medina-fortes/
https://lit.mormonartist.net/2019/07/as-minhas-ferias-na-ilha-de-santo-antao-cesar-augusto-medina-fortes/?fbclid=IwAR1QIa4RAE7T6YYK9zuTIXeMPhb8t6b8-ym5j71W9OCIL9pMZ-iTY2uQj3g

Mormon Lit Blitz
11 de julho de 2019 •
“As minhas férias na ilha de Santo Antão":
https://lit.mormonartist.net/…/as-minhas-ferias-na-ilha-de…/




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