quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Viagem ao Vale do Mocho, na ilha de Santo Antão.
Cumprido todas as exigências requeridas pela delegacia de saúde para as viagens interilhas, embarcamos no "Chiquinho".
Um barco novo, bonito e com todo o conforto necessário. Entramos e sentamos, cumprindo o distanciamento. Eu na primeira cadeira, a minha irmã, Vanda, no meio e a minha filha Emma na outra extremidade.
"CHIQUINHO" saiu mesmo às 7 horas, como programado.
Girando a proa para o Monte Cara, o capitão iniciou a viagem que demoraria cerca de 1 hora. Nos altifalantes, embalamos ao som da música dos Calema "Agora é a nossa Vez". Penso que sim, agora é a nossa vez de desfrutarmos de umas lindas férias em Santo Antão.
O mar está calmo, que até parece uma piscina.
Do nosso lado direito, vários navios estão ancorados na baia do Porto Grande. Entre eles, vejo um barco com a bandeira do Panamá que, por momentos, fez-me lembrar as lindas histórias que o meu primo Aníbal contava-me, das travessias no canal de Panamá, quando ele era marinheiro de alto mar.
De repente, já estávamos ao lado do Ilhéu dos Pássaros, o "Djéu". Lembrei-me logo das histórias de nhá Bia, que quando criança, o pai dela era faroleiro e tiveram que ir morar no ilhéu, por causa do seu trabalho.
Ela contou-nos que, como filha única, morou isolada no ilhéu. Apenas ela, a mãe e o pai. Sem nenhuma outra criança para brincar. Todos os dias, ela levantava, olhava para o mar que chocava contra o ilhéu com tanta força, que até dava medo. De imediato, ela entrava em casa, para não cair no mar. Foram longos, seis anos no farol.
Ela ficou tão traumatizada com o mar que, no dia que ela saiu do ilhéu, num bote, com destino à ilha de São Vicente, ela jurou que nunca mais iria viajar de barco. Nunca mais foi para Santo Antão, simplesmente para não ter que passar perto do "Djéu" e relembrar do passado medonho. E hoje, ela só viaja de avião.
De volta à nossa viagem, as montanhas de Santo Antão já estão mais próximas. Isto quer dizer que já estamos a aproximar do cais da cidade do Porto Novo.
Ouvi dizer, que choveu na ilha mas, parece que Porto Novo, não foi abençoado pelas chuvas, pois, as rochas continuam secas.
O marinheiro lançou o retinida (cabo com uma bola na ponta) e o homem no cais atou as amarras. O barco atracou. Desceram a rampa e os passageiros começaram a sair, numa grande azáfama, para poderem, rapidamente, apanhar um "hiace" para cedo poderem chegar às suas localidades.
Nós entramos no hiace de Tony "Cabe Esperança" e com um som no máximo, ouvíamos Dénis Graça cantando "Amor a primeira vista".
Começamos a viagem de carro na nova estrada, em direcção à Janela.
Passamos no primeiro túnel e de seguida, vemos a nossa frente, o farol Fontes Pereira de Melo (Farol de Boi) que fica na zona de Janela. Janela é uma localidade muito bonita.
O hiace parou e uma família inteira entrou no carro. Não sei como, mas todos coubemos dentro do hiace. Os condutores fazem milagres.
Continuamos a viagem, passamos a Praia de Gi e ao lado da estrada, deparamos com uma estátua, bem cuidada, em memória do papa, João Paulo II.
Chegámos ao Vale do Paul, um celeiro verdejante, cheio de água e de fartura de comida.
Atravessamos a cidade das Pombas, lugar de gente bonita e casas lindas.
Já em Povoação de Ribeira Grande, o condutor teve que fazer uma pausa para as pessoas descansarem e fazerem algumas compras, nas lojas, perto de Ponta de Lavada.
Hora de entrar no hiace e continuar a viagem, em direcção ao vale do Mocho. O motor do carro roncava tanto que, em poucos minutos, chegámos nas montanhas de Garça, onde encontramos um dos vales mais bonitos de Santo Antão.
Minutos depois passávamos pela linda vila de Chã de Igreja, lugar de gente simpática e de uma imponente igreja. Terra dos meus avós. Passar alí e não parar, deu-me um nó na garganta. Um nó de saudade.
Passamos o cemitério, e começamos a descer para a ribeira. A estrada tem uma curva, sem protecção, que fica literalmente, num precipício. De um lado, lá no fundo, vemos o mar a bater na rocha, com muito estrondo e ficamos com muito medo. Do outro lado, colocamos os olhos para o céu, para pedir apoio à Deus e vemos o cemitério literalmente, em cima de nós. Uma visão que nos enche de credos na boca.
Atravessámos a ribeira e a vila de Cruzinha ficou-nos mesmo a frente, com a sua linda baia, seu peixe fresco e um sol abrasador.
Prosseguimos a nossa viagem que, nos levaria à localidade de Mocho, agora, numa estrada de areia, esculpida nas rochas, pela ação do mar.
Uma estrada maltratante, com muitos pedregulhos, que desmotiva qualquer um, a fazer uma segunda visita. Uma estrada em condições péssimas, lá onde Judas danificou as suas botas. Já é uma necessidade urgente, uma estrada digna, para esta localidade.
Depois de muito balançar dentro do carro, parecendo um andar fusco e de termos ultrapassado a tortuosa e empoeirenta estrada, eis que entramos no lindo vale do Mocho.
Montanhas altivas, muitas plantações, mulheres fortes, homens de coragem, trabalhadores na agricultura, gente que gosta de tratar bem os visitantes. Um vale com dois furos de captação, onde a água não falta. Mandioca, batata doce, cana, tomate, cenoura, banana, manga e vários outros produtos são produzidos neste lindo vale, esquecido por muitos. Um vale que te faz esquecer o tempo e relaxar completamente.
Chegou a noite e o cheiro de um guisado de carne de porco era forte. De seguida, a voz da tia Joaninha ecoava na ribeira, nos convidando para o Jantar. Um caldo, nunca falta na mesa de um mochense, com muito orgulho.
O som dos grilos, dos sapos e das cagarras que elegeram as rochas do vale como a sua moradia, fez-nos logo embalar, numa boa e revigorante noite de sono.
No dia seguinte, levantamos cedinho, comemos muitas mangas e papaias. Os irmãos Pedro e João, convidaram-nos para comer uma cachupa guisada com omoletes de ovos de terra e fruta-pão frito. Um manjar dos deuses.
A tarde, passamos na casa da Andreza para comermos uns filhoses e beber um chá de belgata. De repente, a chuva amiga começou a cair suavemente e tivemos que voltar para a casa. E da janela, ficamos a observar, a tão esperada e linda dádiva de Deus, a chuva, beijando as plantas e deslizando na ribeira.
O verdejante vale do Mocho é mesmo um paraíso escondido na ilha de Santo Antão, que vale a pena ser visitado.
(César Fortes - 31/08/2020)
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