sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
CALÚ E O TESOURO NA PRAIA DE BOTE
Calú acordou, abriu os braços espreguiçando, enrolou a sua cama de papelão, colocou-o debaixo do braço e foi em direção á praia de cais d'alfandega.
Despiu as roupas desfarrapadas,entrou na água e começou a fazer a sua higiene pessoal. Saiu da água, com uma mão segurando a sua "ceroula" molhada, que insistia em cair para o chão e a outra mão, ele acenava freneticamente á um turista que estava num iate, que acabava de ancorar perto da praia.
Ajudou o tripulante solitário a saltar na praia. E antes mesmo que o turista colocasse os pés em terra firme, Calú já estava com as mãos estendidas, pedindo:
- Give me money, change, l'argent, please ...
O turista arranjou-lhe uns euros, algumas roupas e ainda deu-lhe restos de um pirú, que ele estava a comer no iate.
Calú sentou-se na areia,comeu o seu pirú com batatas e lambeu os dedos. Vestiu as roupas largas e foi para a rua da praia, em direção ao pelourinho de peixe.
Perto do posto de combustível,ele encontrou o pescador Celestino, sentado num bote.
- Ó senhor bocê ranjame 50$00 lá, por favor, pam bai comprá um pão.
- Estende a mão, deixa-me colocar a moeda.
Calú inocente, estendeu a mão e o Celestino,com a sua mão grossa, marcada pelas linhas de pesca, deu-lhe uma palmada com tanta força que as lágrimas rolaram cara abaixo. Calú ainda com um nó na garganta, conseguiu pronunciar uma frase:
- Bô tá busá na mim mode bô é mas grande. Mas um dia bô tá pagal.
Calú prosseguiu a sua caminhada para o pelourinho. Entrou e foi direto para o balcão de nhá Selomé, pedir-lhe uma cavala. Saiu do pelourinho com a cavala numa mão, e com a outra mão, foi pedindo á todos os turistas que apareciam.
Calú começou a alegrar-se. O bolso já estava com uma certa quantia. Entrou no pelourinho de verdura e encostando nas prateleiras, lá ele ia subtraindo um tomate aqui, um coentro ali e umas batatas acolá.
Mas quando ia pegar umas cenouras, eis que pareceu o guarda com um pau, levantado em direção às costas do Calú.
Este, com uma mão segurando as calças largas e a outra mão com o saco com a cavala e as verduras roubadas, saiu a correr que nem um cavalo de corrida. Só parou quando chegou no prédio "desurido" ao lado do hotel Dom Paco. Entrou para a cave, onde ele já tinha o costume de fazer a sua "merenda".
Tratou o peixe,preparou as verduras para fazer um bom caldo de peixe. O cheiro estava muito bom e atraiu mais outras crianças de rua e esses mais fortes do que ele.
Assaltaram-lhe a panela de lata de leite,comeram quase tudo, deixando apenas a cabeça da cavala e um pouco de caldo. Ele não se desanimou, mesmo assim, comeu o que restou.
A tardezinha, Calú foi para a Praça Nova e aproveitou para pedir mais umas moedas, para poder comer um hambúrguer no "Roland's", antes de dormir.
A noite caiu sobre a cidade do Mindelo e Calú precisava de um lugar para dormir. E como fazia todas as noites,ele foi mesmo ao lado do Hotel Porto Grande, em baixo da montra da loja "Senna Sport", colocou o seu papelão e dormiu.
De madrugada,outros "piratinhas" que o tinham visto a pedir dinheiro, foram tentar roubar-lhe. Todos sabiam da fraqueza do Calú, ele falava muito durante o sono. Aproveitaram e perguntaram-lhe:
- Calú! Onde colocaste o dinheiro que arrecadaste hoje?
Inocente, o coitado respondeu:
- M'tel num bolsa dentro da minha cueca.
E os desgraçados levaram tudo o que ele tinha conseguido naquele dia.
No dia seguinte, vieram gozar com ele, contando como o tinham roubado o dinheiro. Riram-se a vontade, às custas do Calú.
Calú saiu de perto deles,de cabis baixo mas, prometeu vingar-se deles.
Naquele dia, começou a pedir dinheiro mais cedo. Tinha atracado no Porto Grande, o navio cruzeiro inglês "Queen Elizabeth II". As ruas da cidade, estavam cheias de turistas ingleses.
Quando o sol começou a pôr-se atrás do Monte Cara, o "Queen Elizabeth II" zarpou em direção às Canárias. Calú voltou do cais, passou pela Avenida Marginal e foi para o seu lugar de dormir. Mas antes passou na casa de uma amiga e pediu que lhe guardasse aquela boa quantia de euros arrecadados.
Calú foi no seu lugarzinho de costume, estendeu o seu papelão e começou a fingir dormir, pois, ele sabia que os piratinhas viriam outra vez rouba-lo. Desta vez, ele estava preparado.
Com um olho fechado e outro aberto a espreitar, ele os viu a surgir, lá pelos lados do prédio da Cvtelecom.
Chegaram, pensando que Calú estava a dormir, perguntaram-lhe:
- Calú! Onde foi que guardaste o dinheiro que arranjaste hoje?
E Calú,fingindo que estava a dormir, respondeu:
- Enterrei todo o meu dinheiro, na areia, debaixo dum bote azul, na Praia de Bote.
Deixaram o Calú sossegado e saíram a correr para a Praia de Bote para ver quem iria encontrar o "tesouro" em primeiro lugar.
Só não sabiam que, naquela praia existia mais de 10 botes e quase todos são azuis.
Coitados! Passaram a madrugada toda a escavar debaixo dos botes emborcados na Praia de Bote e nada encontraram. O Calú os tinha enganado.
No dia seguinte,chegaram na Praça Nova, já sem energia e com os dedos esfolados de tanto escavar e sem sucesso. Calú, viu-os já sem energia mas não perdeu a oportunidade de gozar com eles. Riu até cair no chão de tanto prazer que a vingança lhe deu.
Desde aquele dia, nunca mais meteram-se com o Calú. Aprenderam uma grande lição. Literalmente, quem ri por fim, ri melhor.
(César Fortes - 21/12/2020 - Baseado numa história real)
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)








Sem comentários:
Enviar um comentário