sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

João Afonso, um paraíso em Santo Antão.

Recentemente, encontrei o meu amigo Adriano Dias, da zona de João Afonso, que me fez um convite para conhecer a zona dele. Confesso que “Jon Fonso” era uma zona que eu tinha vontade de conhecer. A minha irmã Vanda, já tinha o costume de lá ir, quando éramos crianças e contava-me muitas histórias da zona. Como conhecedora da zona, resolvi levá-la comigo. Marcamos um dia e lá fomos nós, em mais uma aventura. Encontramos como combinado, às 6h30 no cais de São Vicente. Entramos no navio Chiquinho e lá fomos nós em mais uma aventura para desbravar a ilha de São Antão. Chegamos no cais de Porto Novo exactamente as 8h. O Hiace de João Afonso, "transporte Silva" já estava a nossa espera com o condutor Stivi. Santo Antão choveu muito e agora, durante a viagem, vemos um manto verde que se estende em todas as montanhas que passamos.
Depois de quase uma hora, chegamos na "Boca de João Afonso". O cheiro de fumo de lenha relembra-nos que estamos em Santo Antão, uma das ilhas mais lindas de Cabo Verde. A zona de João Afonso tem praticamente, duas entradas, uma que passa por "Boca de Jon Fonso" e outra que vem de "Figueiral de Ribeira Grande".
Começamos a subir na estrada, que era um caminho antigo, feito antes da independência. Do nosso lado esquerdo de quem sobe, vimos as ruínas da antiga escola. No nosso lado direito, deparamos com uma pequena e bem cuidada capela de Santo André. Descemos do Hiace e fizemos a nossa primeira paragem, na zona de Manuel Ribeiro, na casa de Sra. Gracinda e do Sr. Cula. Fomos convidados a beber uma água fresca. Foi-nos servido também, com muita amabilidade, uma boa cachupa guisada com chouriço da terra. E para não perder tempo, retomamos a estrada que seria percorrida, agora, a pé. A subida para “Fajã dos Bois” demoraria cerca de uma hora.
Adriano segurou a bolsa das encomendas e nós, com as mochilas nas costas, começamos a subir. O cheiro da palha de cana queimada, por momentos, me transporta para a minha infância. O céu estava coberto de nuvens o que prometia uma boa chuva de verão. João Afonso é um vale que abarca mais de 20 pequenas localidades e cada uma com a sua história. Passamos em “Pedra de Rala” e em baixo da mercearia "Ped de Lulu" encontramos várias pessoas que nos desejaram "umas boas passadas", um prenúncio que a caminhada seria longa. Subimos mais uns minutos, já perto da casa do antigo e famoso professor, sr. Elías e de dona Titina, encontramos um jovem descendo, o Américo, um dos 21 filhos do Sr. "Jon de Felício", já falecido, mas famoso na zona, por ter tido muitos filhos.
O caminho feito de calçada e com as plantas crescendo entre as pedras, com um chuvisco, começava a ficar escorregadio. Já na zona de “Chã de Coelho”, encontramos a sra. Maria, uma idosa muito simpática, com a sua bengala de um galho de árvore, aproveitou para perguntar ao Adriano quem éramos nós e o que estávamos a fazer alí. Dada a explicação, ela também, com muita simpatia, desejou-nos "umas boas passadas". Compreendi mais uma vez, que a caminhada seria mesmo longa. Passamos em "Lumbim de Antónia Emília" onde vimos várias bananeiras, carregadas de bananas. Na zona de Gonçalinho, vimos a antiga casa das professoras que organizaram o primeiro carnaval da zona, com um desfile de Gonçalinho para Manuel Ribeiro.
Já cansados de tanto subir e transpirados, chegámos à "Cavouco de Gonçalinho" onde no caminho encontramos um pé de figo manso, carregado de frutos e com um aroma especial. No lado esquerdo do caminho, lá em cima de um cume, deparamos com uma linda casa cor-de-rosa, com uma arquitectura do tempo colonial, que em tempos pertencia ao Sr. Pedro Maurício. Ele era o pai do Sr. Rufino Maurício; avô do engenheiro Jorge Santos; e também tio do já falecido Armindo Maurício. No caminho observámos o milheiral caído no chão por causa do vendaval que passou no vale, na noite anterior. E alguns deles, com a marca da praga da lagarta de cartucho que está a devorar a plantação. Depois de muito subir, chegamos na antiga escola de Gonçalinho, logo ao lado de uma unidade sanitária de base. Adriano Dias, contou-nos com saudade, que foi lá na Escola de Gonçalinho onde ele fez a 4ª classe, em 4 Julho de 1978. Encontramos o sr. Lela de Chica "gatim", um homem de 70 anos, simpático e conversador. Ele deu-nos conta do estrago que o vento tinha feito em todo o vale de "Jon Fonso". E no fim da conversa, acrescentou: "Nós não temos nôs meme quanto mais..." Como que querendo dizer, que nós não temos o controle da nossa vida, quanto mais para controlar a natureza. Continuamos a nossa caminhada e mais acima, encontramos a senhora Bernarda com o seu “campim de gás” na cabeça, descendo para a mercearia em Chã de Coelho. Lamentando, contou-nos a situação do marido que estava no hospital. Em “Chã de Marí de Tchinha” encontramos uma linda rua com as casas caiadas de branco, dignas de um cartão postal. Um local onde em tempos, quando as pessoas chegavam cansadas, bebiam uma caneca de água fresca de pote. E foi o que fizemos ao parar na casa de uma amiga de longa data, a Sí de nhá Fana. Ela ofereceu-nos algumas mangas saborosas. Passamos na Cruz e chegamos na subida de “Fundo de Cassaca”. No meio das canas vimos várias casas grandes, entre elas, a de nhá Titina e nhô Conde. No largo, pode-se ver um grande trapiche. Parece que na zona, em tempos, vivia-se uma vida folgada. Ainda no caminho, encontramos o António de Tarek, mais um dos 21 filhos do famoso Jon de Felício.
Continuamos a subida e chegando na zona de "Berré de Vei", pudemos contemplar um lindo e viçoso canavial. Passando nos “Coibe” encontramos um burro, descendo com a sua carga e de vez em quando parava para comer uma grama verde, que agora, depois das chuvas, cresce no caminho. Há notícias que, um filho ilustre desta terra, lutou pelos Estados Unidos, durante a segunda guerra mundial, trata-se do sr. José Pedro. Na terra, ele ficou muito famoso por isso. Em “Ribeira de Nonarda”, encontrámos um grande dique de retenção de água das rochas, onde também cresce várias bananeiras. Todo o caminho percorrido, parece um paraíso. Todo verdinho. Já cansados e com as roupas molhadas de tanto transpirar, chegamos à “Tchã de Matchode” na bela casa do Sr. José Évora. Mais uma linda casa do estilo colonial. Com um lindo jardim à volta e com um milheiral a perder de vista. Uma casa que mais parece a casa dos antigos morgados. De lá, pudemos ver a Ribeira onde nasce a água alcalina, que em tempos era engarrafada e exportada. Esta água é a razão da nossa visita ao vale. Também ficamos a saber que na mesma Ribeira nasce uma água férrea. No "Terririm de passim",ainda encontramos uma neta de Jon de Felício, o famoso que teve 21 filhos. Passamos no lugar chamado de “Queda do Leandro”, onde conta-se, que há muitos anos atrás, caiu um senhor, de nome Leandro e que morreu na hora, daí o nome. Lá em baixo, vemos um caminho que vai para Fajã dos Cumes, que foi refeita por meio de emigrantes e amigos da zona. De tanto andar, encontramos uma casa que segundo os moradores, é a casa de nhá Pulim de Gama e Chica Angelina, onde nasceu nha Aninha, avó do Rui Alberto, o famoso treinador do Mindelense. Já na localidade de “Jon dos Reis”, em Fajã dos Bois, com uma chuva forte, a mãe do Adriano Dias, a Sra. Maria dos Santos, “Conha”, de 83 anos, veio nos receber com muita amabilidade, e com um guarda-chuva, levou-nos para dentro de casa. Tomamos um banho relaxante e enquanto isso, ela preparou-nos um delicioso jantar. Enquanto comíamos o guisado de galinha, criada no quintal, falávamos do apogeu do vale de João Afonso nos anos 70 e 80 e como se transformou num paraíso agora, depois das chuvas. Os pardais, por momentos, entravam dentro de casa, como se da família fossem. Tivemos uma boa noite de descanso.
A Sra. Maria dos Santos “Conha”, o filho Zeferino e a neta Sofia, trataram-nos tão bem, que no dia seguinte, na hora da despedida, a saudade bateu forte. No pequeno-almoço, ela preparou-nos uma boa cachupa guisada, com “frisnode” e queijo de cabra, acompanhado de um chá de "Lucia Lima" colhido no quintal da Sra. Conha. Para mim, não existe chá mais saboroso do que este. Comemos e partimos de imediato. Agora faríamos o caminho inverso, descendo todo o vale de João Afonso, para podermos apanhar o Hiace de volta para Porto Novo. Foi nesta hora que concordamos com a população, que uma estrada de Manuel Ribeiro até “Fajã dos Bois” e “Fajã dos Cumes” já é uma necessidade. Também não podemos desperdiçar uma nascente de água alcalina tão boa como aquela de Ribeira de Dente, para depois comprar água das Pedras importada de Portugal. Já no carro, voltei a cara para as montanhas verdes e pensei: - Este é, sem dúvidas, um dos vales mais bonitos de Cabo Verde e que vale a pena ser visitado. Quem não conhece o paraíso que é João Afonso, não conhece Santo Antão. (César Fortes 24/10/2020)

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