sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
O GALO NA FILA DO BANCO
Hoje, fui com o galo ao banco para fazer um levantamento, para poder comprar-lhe uns sacos de milho. Entrei no banco às 9h30.
Tirei o número 46 e estavam a atender o número 11 e pensei: vai ser rápido, porque lá fora, na fila, está com poucas pessoas, isto quer dizer, que muitos já desistiram.
Saí para dar outros expedientes enquanto a minha vez não chegava.
Depois de 1 h voltei com uma velocidade, pensando que o meu número já tivesse passado, mas entrei e vi que estavam no número 22. Respirei de alívio.
Agora,a fila é fora do banco, na rua. A fila estendida-se até o Hotel Porto Grande. Lá fora,o cheiro de esgoto estava forte. Corria uma água de esgoto, ao lado da Praça Nova, que parecia um rio.
Mal cheguei, ouvi um comentário de um senhor na fila:
"-Estamos como caranguejo, Cabo Verde, damos um passo para frente e muitos pra trás. Olha tanta gente na rua, numa fila, com um sol quente deste! Porquê, até agora, os bancos não se adaptaram ao mundo de hoje? Poderiam ter um site e ficaríamos a acompanhar a nossa vez, mesmo estando em casa. Enfim, estamos no século XXI e os bancos ficaram no século XIX.
Dentro dos bancos, os trabalhadores atendem-nos com uma preguiça, que até dá dó. Parece que ficam chateados, quando vêem os clientes aproximando do banco. Até são capazes de dizer: "Olí ques chatos tá bem". Os guardas, também esses, pensam que são os diretores dos bancos e humilham muita gente na fila.
Estão no número 22. Há uma pessoa só a atender, por muito tempo. Os Bancos ficaram mais moles do que nunca. Cada vez pior."
Todos deram palmas.
E o galo, pergunta-me:
- E tu César, não és amigo do guarda? Talvez, ele podia dar-te um expediente.
- Não. Eu quero ser atendido normalmente.
De repente passa um grande empresário, falou com o guarda e furou a fila. Lá dentro ele e o "caixa" cumprimentaram-se com muita euforia, o que deixou claro, que são amigos de longa data.
Ouvi o amigo "caixa" a perguntar-lhe:
- O que ptobe prei, nhá amigo? Ele respondeu:
- Vinha fazer um depósito.
O que ele esperava?! Que ele fosse para o banco, para ver cinema ou tomar banho de praia?! Sinceramente!
Lá o amigo fez-lhe o favor e o empresário saiu todo sorridente.
E o galo, pergunta-me:
- E tu César, não consegues dar um expediente destes? Já ês passobe pá frente.
- Não galo. Quero ser atendido normalmente, quando chegar a minha vez.
Não nos deixam ficar lá dentro no fresco nem feito distanciamento, mesmo sabendo que lá dentro tem cadeiras.
Outro senhor na fila comentou:
- Cond gente de banco tá bai lanchá, parcé que ês tá bai comé pedras. Vão e demoram tanto que parece que a refeição foi difícil de se mastigar.
Todos riram.
A fila está a prolongar-se cada vez mais.Outros já estão na Praça Nova sentados porque o sol está abrasador.
De repente, passa um chefe de uma empresa e vê o seu empregado na Praça sentado e grita-lhe:
- Hei John. Desde de plumanhã, nós estamos a tua espera e tu sentado, com os amigos na Praça.
Ele tentou esclarecer mas o chefe não quis saber. Acelerou o carro e foi. Todos ficaram a rir da situação.
E o galo grita: - Óh John, já bô psú.
De repente, o guarda grita "n.35 A", e aparece uma estrangeira, querendo trocar o número, para um número mais acima, porque o companheiro ainda não tinha chegado. Entregou o número para uma menina que tinha acabado de chegar e tinha o número 60. E passou-me a frente.
E ao lado alguém grita:
- Óh nhá amiga, bo tá que tcheu sorte, hein! Nós, há muito tempo aqui e tu chegas e nos ultrapassas assim?! Pareces um Ferrari, dos 0 km aos 100 km, em poucos segundos.
E a multidão riu as gargalhadas.
E o galo, pergunta-me:
- E tu César, não consegues arranjar um Ferrari assim, também? Já ês passobe pá frente, mais uma vez.
- Não galo. Quero ser atendido normalmente, quando chegar a minha vez.
- 14 letra E. Gritou o guarda.
Caramba! O meu número nunca chega.
E neste momento uma senhora diz:
- Cred!Que cheiro maf é esse?
Alguém da fila,responde:
- É esgoto, minha senhora. Parece um rio, a passar na Praça Nova.
- Maf assim, meu senhor?
- Isso é pa bô oiá, que gente de Morada tá pupú maf, moda nôs tude,adex!".
Toda a gente riu.
Ao meu lado, ouvi uma senhora dizer para a outra:
- Ó senhora, posso dar-lhe um dinheiro para fazer-me um depósito, por favor?
- Sim, mas é gatchode, pa esse povo cá chateá.
Mais um expediente.
E o galo, pergunta-me:
- E tu César, não consegues dar um expediente destes? Já ês passobe pá frente, outra vez.
- Não galo. Quero ser atendido normalmente, quando chegar a minha vez. Já disse!
Entrei só para ver qual o número que o quadro marcava e vi 43. O guarda gritou-me logo: Óh senhor, fila é lá fora.
E o galo, disse-me:
- Cuidado, porque este guarda parece raivoso.
Bom, fiquei animado porque o meu número já estava perto.
Voltei para ficar no meu lugar na sombra e encontrei um senhor no meu lugar.
- Óh senhor este lugar é meu.
Como que exibindo, ele depressa respondeu:
- Eu não estou na fila. Eu sou da terceira idade. Não fico na fila. Eu sou atendido na hora, por direito. Já bô uvi, nem nha rapaz.
E o galo disse-me baixinho:- Esse tio tá sanhode! Se ele cá fosse de terceira idade, bô tava dzel uns dois cosa,ó non?!
- Vontade não me falta.
Ouvi e respeitei os cabelos brancos do senhor.
É triste ver, gente de terceira idade em pé, na rua e no sol. O banco não leva isso em conta. É desumano.
Também sabemos, que há certas pessoas de terceira idade que andam a aproveitar do seu estatuto privilegiado, para prestar serviços remunerados à terceiros para fazerem depósitos e assim ultrapassando todos que colocaram-se na fila, há muitas horas.
Há que ter controle nisso.
E o galo, pergunta-me:
- E tu César, não consegues dar um expediente destes de terceira idade? Já ês passobe pá frente, outra vez.
- Não galo. Quero ser atendido normalmente, quando chegar a minha vez. Já disse!
Na fila, uma menina grita em alto e bom som:
- Tem uns gente de terceira idade, que de noite na "boate Caravela" nô tá otchás, tá saltá moda uns cabritin novo, e de dia,ês tá bem pá fila de banco, com bengalas, e queixando dor no corpo, moda uns cuitadim.
Toda a gente riu.
E um idoso responde:
- Tchucida que bô é.
E começaram um bate-boca que só terminou com a intervenção do guarda.
Acho que, agora, como não deixam as pessoas entrar no banco para esperar a sua vez, deveriam colocar o placar na parte de fora do banco, assim, poupavam o guarda de gritar tanto.
E quando era 11:45 minutos, o guarda gritou:
- Número 46
Exatamente 2h15 minutos, chegou a minha vez.
Entrei e a senhora do balcão demorou uma eternidade para levantar a cara, para atender-me. Expliquei-lhe que queria um cheque para levantar uma certa quantia. Ela deu-me um cheque eu o preenchi e o devolvi. Viu o cheque a frente,a trás colocou-o para cima, como desconfiada se o cheque era falso. Parece que ela tinha esquecido, que foi ela que me deu o cheque.
O galo viu para mim e baixinho no ouvido, disse-me:
- As pessoas do banco são tão desconfiadas que desconfiam até delas próprias, kkk.
- Chiu!
Depois de alguns minutos ela deu-me o meu dinheiro e saí.
Fiquei a pensar. Caramba. Fico na fila durante 2h15 minutos para poder tomar o meu dinheiro que coloquei no banco deles?
E galo, para me consolar, disse-me:
- Os bancos andam a prestar um péssimo serviço ao povo.
Nestas coisas aqui, que as organizações defensoras de direitos, deveriam defender o direito do cidadão.
Há necessidade de uma mudança na forma de atendimento nos bancos,na electra e muitas outras instituições, que já demoravam muito tempo para atender uma pessoa e agora, com o coronavirus, ficaram com uma desculpa para atrasarem, ainda mais.
Parece que não estão com vontade de atender as pessoas.
Há uma necessidade urgente de mudança de comportamento no atendimento público. Duas horas,em média, para ser atendido, é demais.
Um galo come um pouco de milho, mas é muita humilhação nas filas.
(César Fortes - 2-10-2020)
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